A misteriosa bola dourada do fundo do oceano

Em agosto de 2023, o veículo submarino de operação remota Deep Discoverer, pertencente ao navio de exploração Okeanos Explorer da NOAA, estava farejando o fundo do Golfo do Alasca a cerca de 3.250 metros de profundidade – algo próximo a três quilômetros e um quarto abaixo da superfície – quando deparou com algo que ninguém conseguia explicar: uma esfera dourada de uns dez centímetros de diâmetro, grudada numa rocha como se fosse um enfeite de Natal extraviado no fundo do mar. As reações da equipe, transmitidas ao vivo, foram um estudo de caso em perplexidade científica institucionalizada. “Eu não sei o que pensar sobre isso”, disse um. “Meu primeiro palpite seria uma esponja, mas…”, tentou outro, antes de sugerir, com a seriedade de quem acabou de resolver o enigma do universo, que talvez fosse uma boa ideia cutucar o negócio para ver se era duro.

O objeto foi coletado com o sugador do robô e enviado ao Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian. O que se seguiu foi um dos casos mais democraticamente frustrantes da ciência moderna: mais de dois anos e meio de investigação para descobrir que aquilo era, no fundo, uma pegada.

O dr. Steven R. Auscavitch é especialista em Genômica Marinha no Departamento de Zoologia de Invertebrados do Museu Nacional de História Natural da Smithsonian. Auscavitch é, por formação e por vocação, um explorador das profundezas: graduado em Ciências Marinhas pela Universidade de Connecticut, mestre em Biologia Marinha pela Universidade do Maine e doutor em Biologia pela Temple University, com tese sobre Biogeografia e estrutura comunitária de corais de águas profundas em montes submarinos do Pacífico tropical. Ele se descreve como “um pouco historiador natural e um explorador moderno do mar profundo”, o que é uma forma muito elegante de dizer que passa a vida vasculhando o fundo do oceano atrás de coisas que ninguém ainda sabe nomear. Dai ele encontrou aquele troço dourado.

A coisa encontrada ganhou o apelido de “golden orb” e atraiu atenção global, podendo muito bem ter sido uma massa de ovos, uma esponja morta, um biofilme microbiano ou, segundo a imaginação mais generosa de alguns internautas, um presente alienígena. Ela tinha formato arredondado, superfície levemente enrugada e um orifício central que inspirava teorias sobre o que teria entrado ou saído por ali. A análise inicial foi desanimadora: o objeto não possuía nada que se parecesse com anatomia animal convencional, nenhuma boca, nenhum intestino, nenhum tecido muscular. Era uma massa fibrosa com superfície em camadas. Mais rudimentar que isso, só fanboy de político.

O sequenciamento inicial por código de barras de DNA foi inconclusivo, provavelmente por estar contaminado com material genético de micro-organismos que habitam qualquer superfície oceânica, como inquilinos invisíveis que nunca pagam aluguel. Foi necessário avançar para o sequenciamento completo do genoma, que revelou abundante material genético de uma anêmona gigante de águas profundas. O sequenciamento do genoma mitocondrial de dois espécimes, incluindo um coletado em 2021 pela embarcação de pesquisa Falkor do Schmidt Ocean Institute, confirmou que ambos eram praticamente idênticos ao genoma de referência de Relicanthus daphneae. Mistério resolvido, com apenas dois anos e meio de atraso.

A Relicanthus daphneae é uma anêmona de impressionante porte, descoberta na década de 1970, mas formalmente descrita como espécie apenas em 2006, observada principalmente em torno de fontes hidrotermais nos oceanos Pacífico, Índico e Austral. O que a golden orb revelou é que, quando esses animais se fixam a uma rocha, secretam uma substância adesiva pela base do corpo – o pedúnculo, a estrutura que ancora o animal ao substrato – que vai se acumulando em camadas ao longo de anos ou décadas, formando uma estrutura fibrosa repleta de cnidócitos do tipo espirocisto.

Os cnidócitos são as células urticantes características dos cnidários (o grupo que reúne anêmonas, corais e águas-vivas), e os espirocistos, em particular, são encontrados exclusivamente no subgrupo Hexacorallia, que inclui anêmonas verdadeiras, corais pétreos e corais negros. A identificação dessas células pela cientista Abigail Reft, do Laboratório Nacional de Sistemática da NOAA, foi a primeira pista decisiva. A esfera dourada é, portanto, a sola do sapato da anêmona: a parte que ficou colada no chão depois que o resto do animal foi embora ou morreu.

Ninguém jamais havia estudado essa estrutura isolada, simplesmente porque ela fica sempre escondida sob o corpo do animal, invisível às câmeras dos robôs. A anêmona, por razões que a ciência ainda não estabeleceu com certeza, partiu e deixou para trás sua âncora dourada, como quem vai embora às três da manhã e esquece a chave de casa na fechadura.

Há, inclusive, uma hipótese particularmente elegante para explicar o desaparecimento do bicho: a laceração pedal, fenômeno em que a anêmona deliberadamente abandona sua própria base e migra para outro substrato, deixando o fragmento aderido ao fundo para regenerar-se como um novo indivíduo. Uma estratégia reprodutiva que combina migração forçada com clonagem oportunista, algo que faria inveja a qualquer estrategista corporativo.

Seja como for, a golden orb entra agora para o catálogo oficial do Museu de História Natural com a sigla USNM_IZ_1699903, acessível ao público como qualquer outro espécime das coleções institucionais: que é o jeito que a Ciência tem de dizer “encontramos, estudamos, catalogamos, e o próximo mistério já está a caminho.”

A pesquisa foi publicada no periódico bioRxiv, e é só isso mesmo. Eu sei que você esperava algo mAIS uau!. Tentarei não decepcionar da próxima vez (provavelmente, irei)

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.