
Há um tempo atrás, andava na moda querer saber os ancestrais. Os paulistenses não precisaram fazer isso, pois, é mais fácil e mais barato usar sotaque italiano de novela da Globo e mencionar alguma nona perdida (o mais próximo da Itália que têm relação é macarrão, e isso é mais chinês que italiano). Se você é um desses manés e já cuspiu num tubinho de plástico e mandou pelo correio para descobrir se tem ascendência italiana, nórdica ou algum bisavô turco que a família preferia não mencionar, há uma possibilidade que o folheto informativo omitiu completamente: você pode ter fornecido material genético para uma operação secreta da CIA em busca de híbridos extraterrestres.
Etzando a ascendência dos outros, esta é a sua SEXTA INSANA!
A denúncia vem de Jason Reza Jorjani, um filósofo (cof cof cof) e romancista com doutorado (pffff) pela Universidade de Nova York, que narrou tudo no podcast “American Alchemy” com a solenidade de quem apresenta uma tese de livre-docência. Jorjani afirma ter sido informado por Lyn Buchanan, veterano do Exército americano e ex-integrante do Programa de Visão Remota da CIA, aquele projeto dos anos 1970 que investigou, com dinheiro federal e sem qualquer constrangimento, se era possível coletar inteligência militar usando percepção extrassensorial. O programa existiu de verdade. Esse detalhe é importante porque é o único nesta história que pode ser verificado.
Segundo Jorjani, o (alegado) ex-analista Christopher “Kit” Green, também veterano do mesmo programa, teria engenheirado um acesso clandestino aos bancos de dados do 23andMe e do Ancestry.com para vasculhar os perfis genéticos de milhões de usuários em busca de uma “variância genética específica” associada a seres não humanos. Green deixou a CIA muito antes dessas empresas existirem, mas isso é um detalhe que os entusiastas da teoria tratam como irrelevante, com a generosidade intelectual de quem já escolheu o destino antes de abrir o mapa, sequer sabendo se ele fica no próximo quarteirão ou em ouro planeta do Sistema Solar.
A história de como isso foi descoberto é maneiríssima. Buchanan foi abordado numa lanchonete de beira de estrada, por três indivíduos que se apresentaram como Nórdicos, com N maiúsculo de “habitantes de outro sistema solar”: altos, loiros, olhos azuis, vivendo discretamente em cidadezinhas do Colorado e passando por descendentes de escandinavos.

Esses seres especiais e muito amados estariam fugindo de um governo tirano em seu planeta de origem, teriam chegado à Terra por uma espécie de ferrovia clandestina intergaláctica e procriado com humanos ao longo de gerações. Seus descendentes não sabem da origem. Os pais alienígenas descrevem a situação com uma tristeza genuína: “Contamos para nossos netos que os avós eram da Suécia”. Isso deve explicar aquilo que chamam de “idioma” ou certas revistas oriundas de lá.
Buchanan, convenientemente, declarou que jamais submeteria seu próprio DNA ao 23andMe. Apontou também para a categoria “outro” ou “não identificável” que aparece nos resultados de alguns usuários, sugerindo que agentes governamentais estariam farejando exatamente esse percentual. Do ponto de vista científico, essa fatia existe porque as bases de referência populacionais são incompletas, especialmente para grupos sub-representados. Do ponto de vista do conspiracionismo moderno, ela é a janela para a revelação cósmica pessoal.
Para completar o elenco, um geneticista chamado Max Rempel publicou um estudo no outono passado afirmando que DNA alienígena pode já ter sido inserido no genoma humano, afetando potencialmente milhões de pessoas. Acrescentou, com a calma de quem recomenda a quantidade ideal de fibra na dieta, que isso não é necessariamente ruim: “Precisamos considerar quanto hibridismo alienígena é saudável para o planeta”. Curiosamente, isso nunca foi levantado no Programa do Ratinho
A ideia de alienígenas infiltrados entre humanos tem endereço fixo na cultura popular há décadas. Elvis Presley, que morreu em 1977 rodeado de evidências médicas e testemunhas, ainda hoje é declarado vivo por sociedades organizadas que se reúnem para trocar avistamentos. Alguns vão além: Elvis nunca foi humano. Michael Jackson idem. Os Anunnaki construíram as pirâmides antes de sumir sem deixar recibo. O presidente Eisenhower teria negociado pessoalmente com dois grupos de alienígenas em 1954, recusado desmantelar o arsenal nuclear e combinado que os ETs poderiam ficar, mas deveriam se comportar. Uma cúpula diplomática das mais bem documentadas da história.
E agora chegamos ao DNA do Colorado.
O que deveria incomodar todo mundo, mas não incomoda ninguém dá atenção a este tipo de loucura (a alguns tipos de loucura, sim, mas não essa), é que o 23andMe declarou falência em 2025 e os dados genéticos de mais de quinze milhões de clientes foram colocados à venda como ativo da massa falida, sem alienígena nenhum envolvido. Com muito menos indignação do que merecia, a humanidade entregou o DNA com entusiasmo porque queria saber o percentual de viking; a empresa faliu, os dados viraram mercadoria, e a reação geral foi um encolher coletivo de ombros.
A CIA caçando híbridos cósmicos, porém, já rende três temporadas de podcast.
A ameaça real aos seus dados genéticos usa terno, tem CNPJ e foi avaliada em bilhões de dólares na bolsa. A ameaça imaginária usa óculos escuros e dirige SUV com placa encoberta. Os Nórdicos do Colorado, se existirem, fizeram a escolha certa ao ficar quietos.
O dando de idiotas que mandou o seu DNA pelo correio numa caixinha de papelão, não teve o mesmo discernimento.
Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!
