
Eu estava pensando outro dia. Eu tinha escrito sobre o falecimento da Internet e como o uso intensivo das IA generativas de LLM (os chatbots turbinados. Não são bem isso, mas… bem, você entendeu e não vou me alongar). Vários conteúdos sendo feitos, imagens feitas, artes e até vídeos curtos e alguns cada vez mais longos mantendo consistência, isto é, se começa um vídeo com o Lula, daqui a pouco não vira o Godzilla com barba ou algo assim. É o mesmo estilo de personagem estilizado, seja desenho ou “3D”.
Eu vi umas brincadeiras de como fariam filmes com o Super-Homem ou o Homem-Aranha e me peguei pensando… não precisarei mais esperar por livros, música e filmes e nem me decepcionar com eles caso não estejam do meu agrado.
E isso é perigoso.
Eu gosto dos livros do Stephen King; quanto a vocês, pensem nos seus autores favoritos. Suponha que, ou Stephen King resolva que está rico demais para justificar que continue escrevendo, ou não tenha mais condições físicas de escrever ou mergulhe no Eterno Sono. Pode ser também que ele escreva algumas bobagens péssimas (aquela coleção A Torre Negra é uma bosta. Sinto muito, é a verdade). Mas eu queira mais livros no seu modo de escrever. A IA poderia emular isso, e eu ter um livro do Stephen King com alguma história que eu invente, como, sei lá, um livreiro psicopata que mata pessoas e use as suas peles para encadernar livros (eu já pensei numa história como essa, confesso). A IA iria escrever e eu me deleitaria com todo o estilo do SK.
Frederick Forsyth e Tom Clancy já faleceram e o que está acontecendo agora no Irã seria um prato cheio para vários livros deles. A IA poderia escrever estes livros segundo o estilo deles dois. O máximo, não? Seria o mesmo com a música. Eu amo as músicas da Enya, mas sendo justo, os melhores álbuns são os primeiros. Poderíamos ter a IA imitando a voz dela e seu estilo de composição. Os filmes? Os bons filmes de ação dos anos 80 e 90. O que as IAs de vídeo fazem é o máximo e a evolução saltou aos olhos.
Menos de 3 anos. Mais 3 anos e teremos o quê? Um filme completo? Não sabemos. O que eu sei é que daqui a um tempo teremos um filme que quisermos com um roteiro excelente que o ChatGPT crie, a trilha sonora que o Suno faça e o vídeo feito pelo Sora. Não precisaremos mais comprar livros, comprar CD e nem pagar por ingresso ou streaming. Seria como obter um carro, sem depender de táxi ou Uber. Alguns ainda acham que pelo uso é melhor chamar um táxi ou Uber do que dirigir ele próprio. Imagino que o entretenimento será assim. Você terá a felicidade de ter texto, música e vídeos que quiser. Você será livre e não dependerá mais de ninguém. Editoras, gravadoras e estúdios irão à falência. FREEDOM!!!

E aqui tudo acaba.
Tomemos o caso do Esquadrão Suicida (o primeiro). Geral odiou. O filme flopou, foi tido como uma merda. Eu perguntei: mas por que é ruim? Não souberam me dizer. Pessoal adorou Guerra Civil, e eu apontei como o roteiro não fazia sentido, mas o pessoal gostou assim mesmo e sem saber dizer o motivo que um filme que tinha a cena do aeroporto e 2 horas de enche-linguiça era bom. Detestaram o filme da Mulher-Maravilha 1984; eu perguntava sobre o que era o filme, não sabiam dizer, mas o filme era ruim. Por quê? – perguntei. Ninguém me disse o motivo.
Não vou entrar no motivo desses filmes serem bons ou ruins, ou quem está certo ao dizer que é bom ou não é bom. O que eu vou dizer é que nada poderá ser produzido porque as pessoas não têm criatividade, não sabem o que querem, não sabem dizer o que querem e não sabem dizer o que as faz gostar ou não gostar de algo.
O Ronaldo compartilhou que o site VideoGamer, um dos mais antigos de games do Reino Unido, foi comprado recentemente. Todo o staff foi demitido, donos o encheram de matérias geradas por IA, “criadas” por autores inexistentes, além de um monte de conteúdo de bets. Bem, isso pode acontecer com as editoras. Aquelas que detiverem os direitos do Tom Clancy poderão fazer livros no estilo dele. Já basta a atrocidade que fizeram com aquele nojo de série Op-Center, que o Clancy licenciou o nome dele para vender os livros, embora ele não tenha escrito uma linha (livros péssimos, por sinal). A editora dele poderia fazer do Clancy um ghostwriter ou writer ghost dele mesmo?
É delicioso pensarmos que maravilha aquele filme que gostamos tanto, mas teve um final merda. Em Misery / Louca Obsessão (de Stephen King), o escritor Paul Sheldon é sequestrado por sua fã nº 1, Annie Wilkes, após um acidente. Paul é torturado para reescrever o final da série que matou a personagem favorita de Annie e ela não aceitava. Agora, podemos fazer o ChatGPT fazer isso, mas sem quebrar as pernas dele. Ter o prazer de ler a história que quisermos do jeito que quisermos e… teremos que saber pedir. Quantas tentativas e erros até acertarem o prompt correto? Fazer o vídeo é mais complicado, pois envolve enquadramento, posição dos personagens, trilha sonora. Uma coisa é 10 segundos de filme com algo “faça o Luke Skywalker lutar contra o Lord Sith Jar-Jar Binks”, mas como fazer algo com 90 minutos de duração?
As pessoas não conseguem se decidir nem quando pedem pra um designer fazer algo pra elas, porque as pessoas mais chatas com algo são as que menos entendem e as que menos sabem dizer o que querem. Talvez, no futuro, algum sistema leia pensamentos e traduza isso, mas se a pessoa é capaz de imaginar, não seria o bastante fechar os olhos e sonhar? Há vários contos de ficção científica sobre isso. Hoje, para a IA fazer isso, teremos várias infrações de direitos autorais, certo? Sim, não, talvez? Não se sabe.
Acabamos de sair de uma questão técnica para uma ética, e ética tem um pequeno probleminha por estar sendo discutida desde a Assíria e até agora não se chegou a um acordo sobre isso. De repente, a IA consiga chegar no fim deste dilema…
Mas eu não apostaria nisso.
