
Dizem que quem não morre não vê Deus. Olha, isso é bem possível ser verdade, já que pelo que fiquei sabendo a fórmula definitiva para provar a existência de Deus, do Céu e provavelmente do serviço de paisagismo celestial: não é fé, meditação, filosofia, teologia. A resposta é muito mais prática: basta desligar o cérebro por 90 minutos. Foi o que Robert Marshall fez em 2024. Morreu. Três vezes. Voltou. Com Jesus no currículo e livro na Amazon.
Eu ouvi um amém?
A história começa com Robert no hospital por causa de uma massa gigantesca no pescoço, bloqueando a respiração, algo lindo e maravilhoso provando o projeto de um Desenhista Inteligente que nos ama incondicionalmente. Betão tava lá no leito, internado, registrado, entubado, estabilizado se quisesse voar. Tudo parecia ir melhor até que – de repente, não mais que de repente – aos 35 minutos da partida, o inchaço desceu pela traqueia como vilão de filme B. Sufocamento, sangue nos pulmões, hipóxia, parada cardíaca. Morte. Game over, man, game over!
E então, adeus medicina, olá pós-vida cinematográfico. Marshall não admite “experiência de quase morte”. Segundo ele, morreu mesmo. Três vezes! E, durante os aproximadamente 90 minutos sem oxigênio no cérebro – tempo ideal para fritar sinapses e fazer o córtex entrar em modo alucinação premium e ficar que nem comentarista de Tik Tok— visitou o Paraíso em três viagens com duração medida quase em protetor solar fator 100.
Primeira visita: 15 minutos.
Segunda: 17 minutos.
Terceira: 43 horas e 28 minutos conversando com Jesus.
Sim, 43 horas de reunião com Cristo. GLÓRIA, GLÓRIA, ALELUUUUIA! Sem pauta, sem ata, sem PowerPoint, mas com paisagismo. Robert descreve o Céu como parque botânico ultra-HD: carvalhos imensos, flores com saturação de Photoshop, paz infinita, amor irradiando como energia solar. Encontrou o pai dele à distância (modo observação fantasma), e Jesus – sempre pontual nessas narrativas – recebeu-o calorosamente.
O momento dramático: Robert pede para voltar por causa da esposa. Jesus, gentil como gerente de loja de smartphone, autoriza a devolução do corpo e promete um milagre que médicos não poderiam negar. Novo cérebro, memória restaurada, órgãos renovados. Um upgrade divino via RMA celestial.
E aconteceu: após dias vegetando, Marshall apertou a mão da esposa, respondeu aos estímulos dos médicos e reviveu – para confusão geral do hospital, que já ajeitava o papel timbrado do óbito. A recuperação foi considerada improvável. E é aí que surge a bifurcação clássica dessas histórias:
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para os devotos, milagre;
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para o cérebro-com-oxigênio, hipótese mais plausível: neuroquímica surtada.
Porque a neurociência – essa estraga-prazeres profissional – lembra que experiências como a de Marshall são anatomicamente compatíveis com hipóxia severa, hipercapnia (CO₂ alto) e descargas elétricas desordenadas, comuns em parada cardíaca. Não é preciso Paraíso – só um córtex desesperado tentando não desligar.
Quando morremos, o cérebro não apaga como interruptor: ele acelera, liberando ondas elétricas e neurotransmissores em padrão caótico. É como se a mente, percebendo o fim, tentasse produzir uma última ópera. Resultado: visões brilhantes, sensação de paz, seres espirituais, “viagem para fora do corpo”. Não é céu, é cérebro em modo rave, sem oxigênio, mas carregado com LSD endógeno.
O estudo AWARE, que tentou observar “almas flutuantes” em UTIs, colocou imagens em prateleiras altas para ver se pacientes com EQM relataram tê-las visto de cima. Quantos conseguiram identificar? Nenhum. A alma subiu, mas não o suficiente para ler o cartaz.
Mesmo assim, Marshall escreveu o livro 44 Hours in Heaven. Realiza palestras, entrevistas, cultos. Não importa a doutrina; o paraíso é ecumênico quando dá lucro. E quem ousa questionar vira aquele chato que arruína o truque de mágica explicando física básica.
Mas aqui vem o detalhe mais irônico: ninguém vê Jesus com o cérebro funcionando corretamente.
Nenhum santo aparece em consultório, ninguém encontra Deus durante churrasco de domingo com boa oxigenação cerebral. A revelação só vem quando o córtex está morrendo, quando falta ar, quando sinapse dança samba no caos. Quanto menos neurônio ativo, mais convicção divina. A fé, aparentemente, não nasce da clareza, mas do colapso.
Marshall voltou do vazio com certeza absoluta e um público disposto a ouvir. E quem somos nós, com neurônios hidratados e sangue oxigenado, para competir com alguém que conversou pessoalmente com o Filho do Homem por quase dois dias e recebeu cérebro novo com garantia estendida?
Se existe moral aqui, é cruelmente elegante:
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Para enxergar Deus, basta desligar o sistema.
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Quanto menos oxigênio no cérebro, mais nítido o Paraíso.
Se quiser certeza absoluta sobre o além, não procure igreja, filósofo ou teólogo – faça uma parada cardíaca. É a única via para o conhecimento que, segundo relatos, dispensa microscópio, método científico e neurônio funcional.
Só não garanto que você volte para vender livro.
Fonte: Newsner

Então quer dizer que o paraíso do córtex em desespero para não desligar- pelo menos o do Robert – é o mesmo Nosso Lar de “A Viagem”? Rapaz. Chico Xavier tentou vender o peixe dele por lá na época errada e do jeito errado.
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