A história da censura carola no cinema e TV parte 2

O Código dos Quadrinhos

Na primeira parte desta trilogia, vimos como os estúdios criaram um código de conduta para a produção de filmes e, para isso, chamaram um pastor presbiteriano para ser o presidente da nova comissão. Claro, que o que foi aplicado foram os princípios cristãos conservadores. Isso causou um impacto nos filmes que eram produzidos e na TV também, sendo que, inicialmente, as séries não eram bem na TV. As primeiras séries passavam nos cinemas, depois que os aparelhos de TV se popularizaram, o Código Hays se aplicou à programação televisiva também, mas essa não era a única mídia que seria impactada pelos movimentos pela moral e bons costumes.

A primeira revista em quadrinhos foi o The Yellow Kid in McFadden’s Flats ou O Garoto Amarelo no Gueto McFadden. Era um garotinho usando algo que parece um camisolão amarelo, e o próprio nome Yellow Kid é uma menção da sua origem asiática. Esta publicação (que estreou em 1895) é considerada a primeira publicação de história em quadrinhos por ser toda em desenhos e com balões de diálogos, apesar do Garoto Amarelo propriamente dito não falar por meio de balões e sim por mensagens em sua roupa.

As revistas em quadrinhos começaram a cair no gosto popular, principalmente da criançada. Serviu para termos nossos heróis, para nos inspirar e até como peça de propaganda política e como incentivo a se alistar no Exército e ir lutar na Segunda Guerra Mundial, mas um certo sujeito não estava nada satisfeito com isso.

Friedrich Ignatz Wertheimer nasceu em 20 de março de 1895, na Alemanha, e muito certamente você nunca ouviu falar dele, mesmo você sendo um amante de quadrinhos. O nome que você conhece e muito provavelmente odeia é o nome que ele adotou ao se naturalizar americano: Fredric Wertham. Wertham era psiquiatra e metido a pesquisador. Ele odiava quadrinhos e dedicou toda a sua vida a impedir que esta mídia se alastrasse entre a juventude, a fim que esta não se corrompesse. Para fundamentar o seu ponto de vista, ele escreveu o livro Seduction of the Innocents (Sedução dos Inocentes), entre outros. Este livro foi o maior rebuliço entre os pais, e se causou rebuliço entre pais, isto é, eleitores, CLARO, o Congresso dos Estados Unidos se indignaria. Mas como isso começou?

O início de tudo foi a Segunda Guerra Mundial. Os EUA entraram na Segunda Guerra depois do ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941. Os EUA perderam 416.800 militares e 418.500 civis. Isso foi um impacto, não apenas em demografia, como no moral do país. A cada momento, homens e mais homens iam lutar no front, enquanto as mulheres e jovens de idade não-apta para o alistamento foram para as indústrias e diferentes trabalhos. Com o fim da Guerra, os homens voltaram, mulheres e jovens voltaram a ser algo que sempre foram: nada, mas algo tinha mudado na psique.

A delinquência juvenil explodiu e todo mundo se perguntava o que estava havendo, sem realmente olhar para o que estava havendo. Os EUA viviam uma enorme felicidade e otimismo. Como assim temos delinquentes? Não, não. Tem algo de errado! Tá tudo maravilhoso, não estão vendo?

Todo mundo queria um boi de piranha e Wertham deu a eles o que queriam. Wertham era apenas um maníaco paranoico, mas não tão paranoico de falar bobagens a esmo. As bobagens que ele falava eram muito bem escolhidas. Ele escolheu quadrinhos de Horror para fundamentar seu ponto e associou super-heróis como o Besouro Azul com o livro fantástico e absurdo de Kafka, A Metamorfose. Wertham apostou corretamente que ninguém tinha lido qualquer um dos dois, só sabendo as linhas gerais.

Bem, em A Metamorfose o sujeito acorda de manhã e se vê metamorfoseado num inseto asqueroso. A ideia de Kafka não era o realismo e sim um livro metafórico, trazendo uma pessoa e esfregando na sociedade um excluído, alguém abandonado pelas pessoas, pela sociedade, pelo Sistema. A perda de seu corpo humano é um simbolismo para aqueles que lhes tiveram subtraído sua própria humanidade, sua própria personalidade, seu próprio eu. Apenas mais um enjeitado. Já o Besouro Azul do tempo de Wertham não era Ted Kord e muito menos Jaime Reyes. Ted Kord só apareceria em 1966 e Jaime Reyes só em 2006. A Sedução dos Inocentes foi publicado em 1954, então, o Besouro Azul do tempo de Wertham era Dan Garret, personagem criado em 1939, filho de um policial assassinado, que combatia o crime com superforça graças a uma vitamina especial que ele tomava, enquanto usava um traje azul à prova de balas. Nada a ver com besouros, mas Wertham “esqueceu” de mencionar este detalhe.


Sim, é kibe do Fantasma

Nesse meio tempo, o Congresso Americano estava querendo um culpado sobre a delinquência juvenil, com jovens se bandeando para o mundo do crime. Podiam ter estudado as condições sócio-econômicas, o desemprego, as crises de moradia, falta de trabalho etc. Viram o livro de Wertham na prateleira e o acharam ser um grande expert no assunto. Então, o Senado dos EUA o chamou para dar seu depoimento, e todo mundo ficou chocado com as incríveis revelações sem embasamento nenhum. Nenhum estudo, nenhum dado, nenhuma pesquisa. Algo bem similar a Andrew Wakefield dizendo que vacinas causavam autismo: dados meticulosamente fraudados.

Curiosamente, Wertham não tomou como exemplo o Super-Homem e seu ideal de Verdade, Justiça e o Modo Americano. Também não pegou os ideais de Liberdade do Capitão América. Não, senhor! Os personagens foram muito bem escolhidos e as publicações de terror e lascivos, voltado para o público adulto, eram os preferidos de Wertham, como se as crianças fossem ler aquilo. (ok, elas liam, mas não era só aquilo).

Para Wertham e todos os idiotas que caíram na conversa mole dele, qualquer criança era tão boa quanto o bom selvagem de Rousseau, mas que o meio corrompia, e o meio em questão eram os quadrinhos. Se as crianças se tornavam delinquentes, é por causa dos quadrinhos e ponto final!

Um grupo de personagens queWertham Wertham perseguiu copiosamente foram os sidekicks dos heróis. No início, todos os heróis trabalhavam sozinhos, então surgiu o primeiro sidekick ou ajudante: Robin, criado em 1940, com o intuito de fazer as histórias do Morcegoso não muito sinistras e violentas. Como falei antes, Batman matava direto. A ideia do sidekick jovem era amenizar as histórias e fazer os leitores mirins se espelharem no personagem. Afinal, puxa!, você é auxiliar do Batman!

Outros heróis tiveram seus ajudantes. O Arqueiro Verde teve o Speedy (traduzido idiotamente como Ricardito), criado em 1941, O Capitão América teve o Bucky, também criado em 1941. Tecnicamente, eles ajudavam muito nas histórias servindo para serem salvos pelo herói principal; ainda mais quando as histórias eram um prato cheio para qualquer que quisesse usá-las contra elas mesmas. A cruzada pela moral e bons costumes contra o sexualismo exagerado dos quadrinhos, bem como violência excessiva não começou com Wertham, propriamente dito.

Em 1948, a Association of Comics Magazine Publishers (Associação de Editores de Revistas em Quadrinhos) – fundada um ano antes – lançou o seu equivalente ao Código Hays: O “Código do Editor”, que também previa uma autorregulação. Começou-se campanhas contra quadrinhos, com queima de revistas em praça pública.

Nos mesmos moldes do Código Hays, tinha o que podia e o que podia com restrições. Algumas dessas regras eram:

Sensualidade – Quadrinhos sensuais e devassos não devem ser publicados. Mulheres não podiam aparecer de forma indecente ou indevidamente exposta, e nunca, jamais e em tempo algum poderia aparecer nua, pelada e sem roupa. Não, nem mesmo aquela vestimenta ousadíssima chamada “maiô”, aquele traje pervertido.

Crimes e criminosos – O crime é coisa séria não deve ser apresentado de forma a lançar simpatia contra a lei e a justiça ou inspirar outros com o desejo de imitação. Nenhum quadrinho deve mostrar os detalhes e métodos de um crime cometido por um jovem.

Policiais, juízes e instituições governamentais – Sempre devem ser respeitadas, jamais podendo retratá-los como incompetentes, estúpidos, ineficazes ou de qualquer forma a enfraquecer o respeito pela autoridade estabelecida.

Tortura – Jamais deve ser apresentada graficamente.

Profanidades – Xingamentos, imprecações, linguagem vulgar e obscena nunca devem ser usados. Gírias podem, mas com restrição, e de preferência inerente à história. Melhor não usar para evitar bater papo com os censores.

Divórcio – Fere os sagrados laços do matrimônio. Não deve ser usado em tom jocoso. Melhor nem mencionar tal coisa.

Clérigos e figuras religiosas – Estamos falando de algo criado por religiosos conservadores. Claro que não pode ridicularizar o clero ou retratá-los como vilões ou com algum aspecto negativo.

Esse código estava em voga e o erro foi colocar tudo no mesmo balaio. Havia quadrinhos adultos (de terror, por exemplo) havia quadrinhos voltados para o público feminino (romancinhos, obviamente), quadrinhos cômicos e de super-heróis. Gente como Wertham odiava todos eles e queriam dar um fim alegando que era para combater a delinquência, enquanto as ruas explodiam com gangsteres. Isso chegou ao Senado dos Estados Unidos, cuja Subcomissão de Delinquência Juvenil dedicou atenção formando uma comissão de investigação – por sinal, televisionada.

Wertham mais uma vez escolheu seu alvo a dedo, e o alvo foi Robin. Um dos temas principais foi a relação entre Bruce Wayne e Dick Grayson, que para o psiquiatra alemão era como “o sonho de dois homossexuais vivendo juntos”. Especialmente porque quando Wertham estava se preparando para falar no Senado, saía nas bancas o número 84 de Batman, que trazia esta cena:


Pessoal também fazia por onde, né?

De acordo com o próprio Wertham, em seu livro:

Algumas vezes, Batman está de cama por causa de algum ferimento. Robin aparece sentado ao seu lado. Eles levam uma vida idílica. Tem um mordomo, Alfred. Batman aparece algumas vezes de roupão. Parece um paraíso, um sonho de consumo de dois homossexuais que vivem juntos. Às vezes aparecem num sofá. Bruce reclinado e Dick ao seu lado sem paletó e de camisa aberta.

A coisa estava saindo de controle, e não apenas com relação aos quadrinhos, mas os programas de TV com super-heróis, que já estavam sob o chicote do Código Hays. O trabalho de Wertham intensificou a censura e a ACMP deu origem, em 1954, à Comics Magazine Association of America (CMAA), a MPAA dos quadrinhos, por assim, dizer, e se você achou o Código Hays bem exagerado em certos pontos, a CMAA daria à luz ao Comics Code Authority conhecido em português como Código dos Quadrinhos, também uma autocensura, e da mesma forma que o Código Hays, era fiscalizado por censores da CMAA que tinha representantes de todas as principais editoras, como Marvel e DC, entre outras. Os quadrinhos que estavam de acordo com o código receberam um “Selo de Aprovação”.

Isso causou um impacto em toda a indústria de quadrinhos. Editoras como a Entertainment Comics, ou EC, tomaram uma marretada. A EC, por exemplo, era focada em histórias de crimes, mistérios, terror e ficção científica. Ela teve que fechar as portas.


Não perca a cabeça com a censura!

A revista satírica MAD conseguiu dar um balão no Comic Code Authority mudando o formato de sua publicação para “magazine”, ou revistão. Mandou migué que não era revista para crianças, porque não era formatinho tipo gibi, e isso funcionou. Outros não tiveram este expediente e saíram do mercado.

DC e Marvel começaram a publicar histórias de super-heróis bem infantis, com vilões cartunescos, com planos estupidamente idiotas. Mesmo o “vamos dominar o mundo” era de uma forma tão idiota que virava galhofa.

As revistas do Super-Homem tiveram um spin-off: revistas sobre Lois Lane e Jimmy Olsen, “os amigos do Super-Homem”

O Comic Code Authority tinha como alvo preferido o Batman por motivos já mencionados. Por causa disso, a DC praticamente foi obrigada a matar um dos principais personagens das aventuras do Cruzado Embuçado: Alfred. Sim, o Alfred morreu. Foi morto para poderem introduzir outro personagem: a tia Harriet Cooper, irmã de John Grayson, pai de Dick. Isso aconteceu em Detective Comics vol 1. número 328, publicado em 30 de abril de 1964.

Todo mundo odiou a troca na época. Como assim mataram o Alfred? Tipo… O ALFRED!!! Mas isso era para dar uma aliviada junto ao CMAA e tirar os censores do pé, já que três homens (um deles um adolescente) vivendo sozinhos numa casa não pegava bem para os bons costumes da época. Colocaram então uma mulher, a tia do Dick (que pensaram ser a tia do Bruce, já que ambos a chamavam de tia), para servir de figura materna.

No seriado do Batman com Adam West, esta carismática personagem volta (junto Alfred porque… Alfred, né?), interpretada pela fofura da Madge Blake. A raiva inicial com a personagem não foi por causa dela em si, mas pela maneira como foi feito, para agradar um bando de censores idiotas. Por sinal, os produtores da série do Bátema queriam demitir Madge, mas Adam West provou mais uma vez ser digno do manto do Morcegão batendo o pé e não permitindo que ela fosse demitida.

Onde o Código Hays fracassou, o Comic Code Authority ia de vento em popa, a ponto de no início dos anos 2000 ainda estar em atividade, mas não seria por muito tempo. A maioria dos novos editores estavam pouco se importando com o Código dos Quadrinhos (lembrem-se: não era por força de lei, e sim uma auto-censura), mas o caldo entornou quando o CMAA implicou coma edição 116 de X-Force, da Marvel, rejeitando a publicação. Marvel ficou bem irritada e mandou o CMAA catar coquinho e instituiu o seu próprio selo de código de ética. Outras editoras seguiriam esta ação. DC ainda demoraria 10 anos, mas em 2011 rompeu de vez com a CMAA.

Wertham já não mais caminhava no mundo dos vivos, embora seu trabalho e esforço nefastos tenham prejudicado muito o mundo dos quadrinhos. Foi uma lição aprendida a duras penas, mas que trouxe, enfim, o ensinamento: censura é a pior das ações. Vários autores foram perseguidos, várias histórias deixaram de ser contadas, e a troco de que? Corrupção de menores?

Eu aprendi a ler com quadrinhos. Eu fiquei triste com a morte do Capitão Marvel. Eu chorei com a luta mortal do Super-Homem e o Apocalipse. Eu me inspirei no poder da força de vontade dos Lanternas Verdes e entendi com o Flash que nem sempre podemos mudar acontecimentos, pois a alternativa pode ser muito pior. Eu me solidarizei com Tony Stark enquanto ele caiu vítima do alcoolismo. Eu sofri quando o Homem-Aranha não conseguiu salvar sua namorada. Eu enchi o peito de e aprendi com o Capitão América que não importa o que todo mundo fale, pois a minha obrigação é ficar firme como uma árvore, ao lado do rio da Verdade.


Nossos heróis sempre estiveram conosco

Os quadrinhos ensinaram isso e muito mais. Formam uma poderosa mídia e um excelente veículo para contar um sem-número de histórias. Algumas são boas, algumas são ruins. Nenhuma literatura é absoluta, pois só Siths lidam com absolutos. Queimar livros, quadrinhos e todo tipo de expressão artística é errado e só mostra a ignorância e selvageria. Os quadrinhos começaram com o alvorecer da Humanidade e terá o seu ocaso quando a última criança deixar de existir, o que não vai acontecer nunca, bastando que nós a mantivermos viva dentro de nós.

EXCELSIOR!

Na última parte desta trilogia, veremos como surgiu o PG-13, o que ele realmente é, e como ele ajuda e atrapalha ao mesmo tempo nas produções cinematográficas.

14 comentários em “A história da censura carola no cinema e TV parte 2

          1. Não me fiz entender direito,estava me referindo a você apontar e explicar os erros e acertos do youtubeiro.

    1. 22 minutos de vídeo. Eu queria saber o que youtubeiros têm contra serem sucintos?
      Pensando bem, pergunta idiota essa que eu fiz. Quanto menos sucinto, melhor. Quanto menos resumido, melhor. Quanto maior o vídeo, quanto mais cheio de blablablá e de encheção de linguiça, melhor. Assim dá para enfiar um monte de propaganda durante a exibição do vídeo.
      Enfim, YouTube acabando com o poder de síntese do pessoal.

  1. “Nesse meio tempo, o Congresso Americano estava querendo um culpado sobre a delinquência juvenil, com jovens se bandeando para o mundo do crime. Podiam ter estudado as condições sócio-econômicas, o desemprego, as crises de moradia, falta de trabalho etc.” – E na época ainda não existia videogames para colocar a culpa, então acabou que sobrou para as HQs mesmo.

  2. Existem quadrinhos e quadrinhos… tipo uma revista em quadrinhos q vi muito interessante q mostrava a guerra na Iugoslávia nos anos 90 ( era em preto e branco (algo que vai desagradar a maioria dos gibegeiros) ou outro revista muito boa em quadrinhos que era sobre o Japão feudal que agora não lembro o nome… que me irrita são os quadrinhos de super herois q são tão infantis e bobos que acho que os roteiristas que criam isso ainda acham que estão sob censura.

  3. AH!!!!! Uma coisa que eu lembrei agora.
    Parece que o Fredric Wertham reencarnou num jornaleiro brasileiro, não me lembro agora do nome dele, que há alguns anos escreveu um textão patético dizendo que a Turma da Mônica banaliza a violência. Sim, Turma da Mônica banaliza a violência.

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