O coronavírus e o efeito da vítima identificável

Ontem, eu tive que me aventurar fora de casa, mesmo em tempos de pandemias, eu precisei sair. Eu realmente precisei. O mundo que vi foi estarrecedor. As pessoas agindo como se nada estivesse acontecendo. Eu com uma máscara PFF2 e outra de TNT por cima (paranoia ajuda a nos manter vivos, ainda mais depois do que eu vi) e pessoal na rua passeando como se nem fosse com eles. E isso porque a prefeitura do Rio baixou uma lei obrigando uso de máscaras em locais públicos.

Saindo um pouco disso, mas ainda no tema que vocês entenderão daqui a pouco, tem o caso da senhora que defendia abertura do comércio e que o coronavírus era coisinha sem importância. O problema é que a realidade bateu à sua porta da maneira mais funesta: seu marido morreu por Covid-19. Aí a postura muda, mas isso tem um nome: O Efeito da Vítima Identificável.

Este efeito de viés psicológico é simples: as pessoas não ligam quando algo não acontece perto delas. Simples, mas com sua complexidade.

É atribuída a Stalin a frase “Uma única morte é uma tragédia. Um milhão de mortes é uma estatística”. Esta citação não tem embasamento segundo historiadores, mas não deixaria de refletir o modo de pensar do respectivo tirano, que estava pouco se importando quantas pessoas morriam, sejam mortas por fome, morte matada ou no campo de batalha. É apenas um número. Sendo justo, esta frase está certa. Um milhão de pessoas é um número muito grande.

Isso foge à nossa compreensão de pessoas limitadas ao que podemos ver e contar com as mãos.

Mil segundos equivalem a 16 minutos e 40 segundos.

1 milhão de segundos equivalem a 1 semana, 4 dias, 13 horas, 46 minutos e 40 segundos

E isso quando temos os números., Na Guerra da Crimeia, só quando o Alto Comando da Inglaterra teve o número de baixas dos soldados, tabulado com as planilhas e estudos estatísticos de Florence Nightingale, é que todo mundo ficou chocado com a quantidade absurda de perda de vidas para efetivamente nada.

Com os números de mortes decorridas pelo coronavírus, as pessoas estão sem parâmetro. Os números estão altos, mas as pessoas não estão sendo afetadas, em sua maioria.

Não é que eu ache que está pouco, o que estou falando é que não fica tão evidente quando não acontece com você. Por exemplo, o Rio de Janeiro já tem 1000 mortos. Só a cidade do Rio tem 7 milhões de habitantes. Isso é 0,014% da população da cidade (não levei em conta que são mais de 1500 mortos no ESTADO). As pessoas não percebem, a não ser se foi com algum familiar.

E esses números ainda são subnotificados. Some-se isso, também!

As pessoas se “importam” com as criancinhas na África, mas não com o que acontece aqui. África é tão longe, que ficam sossegadas com a desculpa “não posso fazer nada, mas vou mandar muitas orações”. Quando a vítima é identificável, o desconforto é maior, e daí vai trocar de calçada quando vir uma criança ou morador de rua. É desconfortável demais, chocante demais. Mas não vai querer ajudar, pois exibicionismo moral tem limite.

O tosco do presidente mandou um “E daí?” quando foi informado do número de mortos (mais de 9 mil, na época). Normalmente, um político faria uma média com a população dizendo que sentia muito, estava enlutado etc. óbvio que estes também não se importam. A diferença é que o presidente é chucro demais para sequer agir como bom político safado mentiroso desclassificado (desculpem o pleonasmo), mesmo também sendo um safado mentiroso desclassificado. Ele apenas falou o que todos os demais políticos pensam, sem sequer intuir na vantagem política que isso levaria, mas para fazer tal coisa seria preciso ter um mínimo de inteligência.

Mas vocês se enganam que isso é só com o presidente e seu gado. Na verdade, brasileiro nunca foi solidário. Alegar que brasileiro é um povo bom e solidário é uma grossa mentir! Uma história para boi dormir. Brasileiro não se importa com o próximo, haja vista a senhora que estava esquentando marmita pelo absurdo preço de 2 reais e houve um movimento nas redes sociais, encabeçadas por youtubeiros, e denunciaram mulher. Ela desistiu e agora as pessoas estão felizes, comendo sua marmita fria, porque o pessoal da Moral Superior (ainda detalharei sobre como as pessoas têm uma moral melhor que a de todo mundo; ou, pelo menos, acham, que sim) achou absurdo, enquanto recebem seu almoço quentinho das mãos da empregada. Esta senhora é uma anônima, não é conhecida de ninguém. Não foi uma vítima identificável. Nenhum dos que estragaram a vida dela conhece quem come marmita fria, outra vítima identificável.

Muitas pessoas são contra as medidas de isolamento social. Muitas pessoas não sabem, não querem, estão pouco se importando com máscaras. Vi hoje que para entrar numa agência dos Correios, era preciso estar de máscara. O cidadão me tira uma máscara cirúrgica imunda do bolso de trás da bermuda, colocou a máscara, entrou, saiu, tirou a máscara de qualquer jeito, enfiou a máscara no bolso de trás da bermuda novamente. Vi muitas pessoas com máscaras puídas ou sujas ou remendadas (sério!). Elas não acham que serão afetadas, nem seus parentes. Não identificaram nenhuma vítima, estão apenas vendo números e não se importando.

Até que ponto essas pessoas são culpadas pela falta de percepção perante um viés psicológico jogando contra? Fica difícil dizer. Altruísmo é uma ferramenta evolutiva que nos fez garantir a nossa sobrevivência como espécie, seguindo a máxima “eu coço as suas costas, você esfrega as minhas”, mas isso funciona quando você reconhece o outro como parte do seu grupo, como um dos seus, alguém que você identifica. Qualquer um que não for do grupo não é identificável, não se sente apreço, talvez nem desprezo. É apenas… mas um. Mais um ponto no gráfico estatístico. E as pessoas só tomarão consciência do que está acontecendo quando o número vira um nome, um nome que conhece, um nome com quem cresceu, com quem se casou, com quem trabalhou, quem lhe criou desde bebezinho.

Aí, sim. A vítima anônima passou a ser uma vítima identificável. Mas aí é tarde, e não se pode voltar no tempo, quando era apenas para ter ficado em casa.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s