Linguagem inclusiva – inclusiva de verdade ou “Por que usar @ e X no final das palavras é idiotice”

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Olá amiguinhos e amiguinhas! Quanto tempo!

Então, vocês devem lembrar que muito tempo atrás numa galáxia muito distante eu escrevi alguns textos sobre fala e escrita. Hoje eu queria retomar esse tema pra explicar o que é linguagem inclusiva e porque enfiar x/@/e em tudo NÃO é a solução.

Antes de tudo, vamos lembrar de uns fatos básicos que eu venho ressaltando nessa série de textos:

  • língua é fala
  • escrita é tecnologia
  • fala se aprende “por osmose”, naturalmente, ao entrar em contato com pessoas falando
  • escrita se aprende depois de aprender a falar, geralmente na escola, de maneira bem específica
  • a escrita é baseada na fala, embora seja mais resistente às mudanças linguísticas
  • língua/fala é uma coisa “viva”, que muda o tempo todo, de acordo com as necessidades e inventividades dos falantes

Ok. Tendo esses fatos em mente, vamos passar à discussão.

Comecemos pela noção de gênero em linguística. Bem, línguas indo-europeias apresentam o que chamamos de gêneros, que são basicamente instrumentos de categorização de nomes. Quem me segue no twitter provavelmente já me viu falar que nem todas as línguas do mundo funcionam assim – línguas bantu, por exemplo, utilizam um sistema complexo de classes nominais, onde as palavras são organizadas em cerca de 20 classes diferentes com propriedades diferentes (o número de classes varia de língua pra língua, nenhuma delas expressa todas as classes do proto-bantu, e as propriedades são prefixos e sufixos utilizados em concordância).

Ou seja, gênero linguístico NÃO TEM NADA A VER com gênero biológico/social. É apenas um construto linguístico pra organizar substantivos. Só isso. E varia enormemente de língua pra língua. Português tem dois gêneros (ou tecnicamente um – o feminino, como argumentam Monaretto e Pires 2012), inglês tem três (he/she/it), dinamarquês (até onde sei, me corrijam se estiver errada) só tem um. Latim também tinha três: masculino, feminino e neutro. Proto-bantu reconstruído (Bleek 1862, Meinhof & Van Warmelo 1932, Katamba 2003) tinha 22.

Ou seja, é artificial querer estabelecer uma relação entre gênero linguístico e gênero biológico/social. Não faz muito sentido!

Mas seres humanos são um animal simbólico que constroem relações que não fazem mesmo muito sentido…

Então. Nós aprendemos na escola que existem dois gêneros, masculino e feminino, e também aprendemos que existem dois sexos, masculino e feminino. É difícil não fazer a associação, mesmo que seja estranho achar que “morte” e “faca” são femininos, ou que “garfo” e “sol” são masculinos. Mesmo sabendo que é uma classificação esquisita, a gente compra. Mas é uma relação que não faz sentido – sol e faca e morte e garfo não têm gênero, não são nem mesmo pessoas, não precisam ter “representatividade”.

Em 1984, George Orwell mostra como a linguagem pode ser utilizada para manipular a sociedade, através do controle do pensamento. Syme, um linguista/filólogo, explica assim a ideia:

Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição, não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras, e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita. Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua, – agregou com uma espécie de satisfação mística.

Mas isso é ficção. As palavras não têm essa rigidez necessária. A língua muda o tempo todo. Não falamos mais como falavam 10 anos atrás.

Como usamos a linguagem o tempo todo, temos essa relação intrínseca e íntima, pensamos e agimos e nos comunicamos através da língua, acabamos por não saber delimitar o que é pensamento e o que é linguagem, ou mesmo se existe essa separação. A linguagem envolve e domina todos os aspectos da sociedade. Acredito que seja por isso que fazemos essa ligação “estranha” entre linguagem e representatividade – e é por isso que buscamos mudar a linguagem para que seja inclusiva (ou seja, que a linguagem represente igualmente homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, transexuais e transgêneros, etc) e representativa.

Porém, como bem demonstra um colega linguista, o Guilherme, nesse texto maravilhoso (em pdf), tal relação não bate com a realidade. Ele dá o exemplo da Turquia, cuja língua é neutra porém a sociedade é bem machista. A relação entre cultura/sociedade e língua é muito mais complicada que o uso de uma palavra ou mesmo um sufixo/infixo qualquer. Mudar as palavras por si só não adianta.

Volte ao começo do texto e veja que eu comecei com “olá amiguinhOs e amiguinhAs”. Eu poderia ter utilizado “amiguinhxs” ou “[email protected]” ou “amiguinhes”, mas essas não são boas alternativas. O Guilherme demonstra lindamente como utilizar e no lugar de o/a não funciona dentro do sistema do português, olha lá os argumentos dele (é um pouco grande pra eu colocar aqui). Já o x/@ trazem outros problemas: como se pronuncia isso? E a acessibilidade?

x/@ são alternativas 100% escritas. Elas não existem na fala. E se não existem na fala, como as pessoas vão poder usar isso, visto que linguagem é inerentemente fala (veja os fatos ali no começo do texto)? E se não tem fala, como um software de leitura para cegos vai pronunciar essa palavra? A linguagem “inclusiva” está na verdade excluindo vários grupos: cegos, disléxicos, analfabetos… São pessoas que usam a linguagem como qualquer outro, meu seu acesso à linguagem fica limitado porque é uma alternativa 100% escrita e 0% acessível.

De qualquer modo, existem diversas estratégias de inclusão na fala. Eu argumento que a melhor delas é a redundância. Reconsidere minha introdução: “olá amiguinhOs e amiguinhAs”. É inclusivo. É prático. Não aumentou tanto assim o texto. Mostra exatamente o que eu quero que mostre.

Inclusão é isso. Pense no seu leitor. Pense que escrita é tecnologia, não língua, e que se queremos mudar a língua temos que mudar a fala. Pense que existem pessoas com acesso limitado ou inexistente à escrita.

(Curiosidade: esse texto surgiu a partir desse tuite aqui. Alguém comentou “mas em inglês faz sentido pronunciar como [latinex]”. Como sou curiosa pra cacete, perguntei meu namorado americano “como pronuncia “latinx” em inglês?” a reposta dele? “I’ve never been sure myself” (eu mesmo nunca soube direito).

I rest my case!  ¯\_(ツ)_/¯


Referências

  • Bleek WH. A comparative grammar of South African languages. Gregg International; 1862.
  • Katamba F. Bantu nominal morphology. The Bantu languages. 2003 Jul 3;103:120.
  • Meinhof C, Van Warmelo NJ. Introduction to the phonology of the Bantu languages: being the English version of “Grundriss einer Lautlehre der Bantusprachen”. D. Reimer/E. Vohsen; 1932.
  • MONARETTO, V. N., & PIRES, C. d. (2012). O que aconteceu com o gênero neutro latino? Mudança da estrutura morfossintática do sistema flexional nominal durante a dialetação do latim ao português atual. Revista Mundo Antigo.
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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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