Qual a relação entre fala e escrita?

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Você me pergunta, "tia Bárbara, por que todo mundo falou bobagem na polêmica do livro didático que falava sobre preconceito linguístico"? Eu respondo: porque nós somos impregnados pelo senso comum. E o grande problema do senso comum na linguística é: nós confundimos fala e escrita. E por que nós confundimos fala e escrita? Porque antigamente nós só podíamos estudar a escrita. Antes da invenção do gravador a gente não tinha como capturar e analisar língua falada, só língua escrita, e era assim que a gente fazia. E todas as gramáticas e estudos feitos até meados do século XX foram feitos em cima de língua escrita.

Mas a língua escrita é MUITO diferente da língua falada.

Primeiro, você sabe quantas línguas (faladas, ou de sinais) existem no mundo? Segundo o google, que é meu pastor e nada me faltará, umas 6500. É difícil de definir, porque a gente não tem uma definição muito boa de língua (fica pra outro post), e as línguas estão sempre morrendo e nascendo por aí. Dessas 6500, quantas você acha que são escritas? Mais difícil ainda de saber. Mas eu vou fazer um chute educado: 10%. E jogando pra cima.

Outra coisa, a fala parece ter surgido junto com a espécie humana, uns 100 mil anos atrás (vou deixar o FoxP2 pra outro post também, essa discussão rende). A escrita só surgiu com o desenvolvimento da agricultura, uns 5500 anos atrás. E no começo, a escrita servia apenas como registro contábil.

Ou seja, juntando os dados tempos que:

1) ainda tem muito, mas MUITO mais línguas só faladas do que línguas que apresentam sistema de escrita, e

2) a humanidade passou muito mais tempo só falando do que falando e escrevendo.

Ou seja, faz muito mais sentido a gente relacionar língua à fala do que à escrita, não? Pois é.

Além disso, tem mais diferenças técnicas entre fala e escrita. A fala é natural, a gente aprende sozinho, basta interagir com outras pessoas que falem. A escrita não é natural. A escrita é uma tecnologia, uma invenção com um propósito específico.

Algumas diferenças técnicas:

  • Meio: a fala é transmitida por ondas sonoras, produzidas no aparelho fonador do falante e captadas pelo aparelho auditivo do interlocutor; a escrita é transmitida por símbolos gráficos impressos em algum suporte.

  • Canal: a fala é transmitida pelo ar; a escrita é transmitida por algum suporte, seja pedra, madeira, papel, argila, entre outros.

As consequências dessas diferenças de meio e canal são várias: a fala é instantânea, efêmera e tem um pequeno alcance, além de estar sujeita a restrições de memória de falante e interlocutor. Já a escrita pode ser mais durável (depende da durabilidade do suporte), mais propagável (depende da mobilidade do suporte), além de falante/interlocutor poderem gastar o tempo que precisarem para escrever/ler, sem restrições de memória.

Essas diferenças vão se refletir no uso. A escrita tem um uso muito mais restrito que a fala (e, na verdade, nem todo mundo tem acesso a essa tecnologia – quantas pessoas no mundo são analfabetas? De acordo com um estudo de 2011 da Unesco, quase 800 milhões de pessoas.). Portanto, a escrita vai acabar sendo mais utilizada para fins mais formais, rígidos, que a fala.

Pra deixar bem claro:

  • Fala = é natural, a gente pega sozinho na interação humana.

  • Escrita = é uma tecnologia que a gente precisa aprender.

E o que isso tem a ver com o preconceito linguístico, tia Bárbara? Tudo, eu respondo a você, caro(a) leitor(a). O que a gente aprende na escola não é língua (no sentido de fala), é escrita. A língua a gente aprende sozinho mesmo, basta interagir com outros falantes. A escola vai ensinar a gente a dominar uma tecnologia, que é utilizada para fins muito mais específicos que a fala. E como a escrita tem fins específicos e normalmente formais, ela tem que ser padronizada. É essa restrição de padronização que a gente tem que respeitar – na escrita. Mas na fala essas restrições são diferentes, vão ter mais a ver com a adequação ao contexto de uso (e junto com a língua a gente também aprende como utilizá-la, o que inclui saber distinguir contextos de uso e adequação a esses contextos).

E essa a palavra-chave para entender preconceito linguístico: adequação.

Amiguinho leitor, amiguinha leitora, você se lembra da nossa Pequena Introdução à Linguística? Se não, vai lá AGORA! Lá eu falei que a linguística não está preocupada com "certo" ou "errado", mas com o que as pessoas fazem. Pois bem, em linguística falamos em gramaticalidade, ou seja, estar ou não de acordo com as regras de funcionamento da língua.

Basicamente, falar "nóis pega" não quebra nenhuma regra essencial ao funcionamento da língua, todo mundo que fala português entende numa boa, se bobear todo mundo já soltou uma dessas em algum momento da vida. Mas e se eu falar "menino o bonita dormir"? Mesmo com um esforço absurdo eu duvido que alguém entende essa sentença. Isso porque "menino o bonita dormir" não respeita as regras de funcionamento da língua e, por isso, não faz sentido nenhum.

Quando o livro didático da reportagem lá em cima fala que é legal usar "nóis pega", é porque a gente pode falar "nóis pega", todo mundo entende, inclusive falar de outro jeito em determinadas situações (sua família analfabeta no interior de Minas Gerais, por exemplo) até pega mal. Você não pode é escrever "nóis pega" num documento oficial, numa redação de vestibular ou aqui nos comentários (exijo respeito para com minhas retinas fatigadas!). A ideia do autor do livro, acredito eu, é discutir justamente discutir essas diferenças entre fala e escrita, variadas situações de uso, adequação.

Preconceito linguístico é achar que a língua é homogênea (não é – ou você, de São Paulo, fala igual a mim, de Minas? Ou alguém da Bahia? Ou do Amazonas? E por aí vai…), achar que todos os contextos são iguais (não são – ou você fala do mesmo jeito com a sua mãe, o seu cônjuge e o seu patrão?), achar que língua é escrita (não é, tem tanta gente aí que não sabe ler e escrever e nem por isso deixa de falar). É querer pegar um jeito, entre vários jeitos diferentes que existem aí, e falar que só esse pode, só esse é legal, vamos esquecer o resto.

Não, não vamos esquecer o resto. Vamos guardar todos, porque todos são legais, todos são válidos, basta saber usar.

Para entender melhor sobre as diferenças entre fala e escrito, deixo o link para um artigo do Prof. Dr. Tommaso Raso, Universidade Federal de Minas Gerais, que fala muito bem sobre essa questão.

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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