Pragmática: usando a linguagem no mundo real

Fragmento de exemplar do Alcorão talvez seja mais velho que Maomé. Talvez
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Amiguinhos e amiguinhas!

Seguindo a nossa introdução aos estudos linguísticos, hoje vou falar de algo MUITO importante, mas que muito pouca gente leva a sério… O uso da língua.

Conhecer uma língua não é só conhecer as palavras (léxico), como pronunciá-las (fonética/fonologia), como combiná-las em frases (sintaxe). Você também precisa conhecer o uso da língua, no dia-a-dia. Essa é a parte mais difícil de se adquirir ou aprender uma língua (há diferenças, um dia eu explico).

Conhecer o uso de uma língua significa: saber usar as coisas no contexto certo, saber identificar contextos, saber usar expressões idiomáticas, gírias, arcaísmos, memes, tecnicismos… Ou seja, coisas que a gente não aprende nem na escola nem no dicionário nem na gramática, mas no dia-a-dia mesmo da interação social.

Pragmática vem do grego e significa “ação, uso”. A ideia de pragmática no estudo da linguagem vem do século XIX, mas só se desenvolveu mesmo na segunda metade do século XX. Basicamente, o estudo da pragmática vem junto com o estudo da filosofia da linguagem em um campo de estudos sobre “atos de fala”. Os principais autores nessa área são: John Searle, Paul Grice e John Austin.

Austin foi o cara que propôs os atos de fala. Essa ideia é muito simples. Falar não é apenas encadear sons/símbolos para a comunicação/pensamento. Falar é atuar no mundo. Quando você fala algo, você executa uma ação, seja comunicar uma informação, ou fazer um pedido, ou fazer uma assertiva sobre algo. Em casos extremos, até mesmo executar coisas legais. Pense no juiz de paz que quando diz “eu vos declaro marido e mulher” está, de fato, produzindo um efeito legal (um contrato de casamento).

O Grice desenvolve um conceito muito interessante do Princípio de Cooperação. Basicamente, o que ele diz é que, pra uma interação linguística funcionar, os interlocutores precisam respeitar quatro princípios fundamentais, as máximas de Grice. São elas: a máxima da quantidade, a máxima da qualidade, a máxima da relevância e a máxima de modo/maneira. Em detalhes:

  • Qualidade: a contribuição deve ser verdadeira. Não diga nada que você não acredite que seja falso ou de que você não disponha evidência adequada.
  • Quantidade: seja informativo. Não informe mais do que o requerido.
  • Relevância: seja relevante. Não informe algo que não seja relevante à interação.
  • Modo: seja claro e objetivo.

Na prática, como isso funciona? Vamos supor uma conversa entre A e B.

A: você sabe que horas são?

B: o leiteiro acabou de passar.

À primeira vista, essa é uma conversa extremamente maluca, sem sentido. Mas a gente fala isso o tempo todo. Como? Porque existe o Princípio de Cooperação. Vamos analisar o contexto e entender a coisa. Primeiro que se B disse isso, respeitando as máximas, ele acredita que está sendo claro, informativo, relevante, conciso e verdadeiro. Então, vamos supor que o leiteiro passe todos os dias por volta das 9h da manhã. A e B possuem esse conhecimento do mundo sobre o leiteiro. Então quando B diz “o leiteiro acabou de passar”, ele quer dizer “são por volta de 9h da manhã”. A interação funciona porque os interlocutores possuem o mesmo conhecimento de mundo e sabem que as máximas estão sendo respeitadas. Ou seja, o Princípio de Cooperação é um princípio que age tanto pra quem fala como pra quem escuta. É um esforço e ambos os interlocutores para que a comunicação funcione.

O Searle continua essa ideia do Austin sobre os atos de fala – isto é, as consequências que a linguagem tem no mundo – e também absorve muitas ideias do Grice. Suas ideias incluem dividir as proposições em diferentes “atos de linguagem”, locutório (a informação linguística per se), ilocutório (o valor do enunciado) e perlocutório (o ato performativo).

Em detalhes:

A: a janela está aberta.

Do ponto de vista linguístico, temos uma asserção de que há um objeto num mundo “janela” que está no estado de”aberto”.

Do ponto de vista ilocutório, pode ser que A esteja fazendo uma asserção apenas, ou esteja fazendo um pedido (estou com frio, feche a janela), ou explicando algo (você está com frio porque a janela está aberta).

O ato perlocutório é o ato de fala do enunciado: se A está pedindo para fechar a janela, por exemplo, o ato perlocutório desse enunciado é um pedido. A pragmática é um campo muito fecundo na linguística e na filosofia da linguagem. Esse textículo pretende ser apenas uma breve introdução às ideias principais da área.

Mas basicamente, é muito importante pensar no uso da língua, nos contextos de adequação. Pense duas vezes antes de “corrigir o português” de alguma arroba no Twitter: as redes sociais, e sobretudo o Twitter, são um campo onde os memes andam soltos e muitas vezes a intenção da arroba é justamente usar aquele “erro” como veículo de alguma coisa. Se pergunte: “esta arroba está respeitando as máximas de Grice?”.

Com o conhecimento da pragmática, a comunicação entre as pessoas se torna muito mais fluida e eficiente.

Fragmento de exemplar do Alcorão talvez seja mais velho que Maomé. Talvez
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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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  • Danilo Santos

    #muitobom