Sobre escrita e ortografia

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Olá amiguinhos(as)!

Agora que nós já vimos que a língua é um fenômeno bem complexo, que apresenta variedades bem distintas e vários níveis de variação em diferentes graus, e não é muito bem definido cientificamente, podemos ver como isso complica na hora de padronizar o uso da língua.

Por que, afinal de contas, se ela é tão variável, como a gente consegue se entender de boa? E como a gente vai criar um sistema de escrita, que é infinitamente mais rígido e durável que a fala, de uma maneira que todo mundo entenda, mesmo que falem dialetos diferentes?

Isso é um problema fundamental ao se propor um sistema de escrita: ele tem que ser ao mesmo tempo rígido e flexível o suficiente para que variedades distintas possam ser "homogeneizadas" na escrita.

Por exemplo: no sudeste a esmagadora maioria dos falantes pronunciam [tchia] e [djia], ao passo que no nordeste e norte os falantes normalmente pronunciam [tia] e [dia] (sem o "chiado" no |t|d| diante de |i|). Tecnicamente esse fenômeno é conhecido como palatalização, e acontece porque o |i| "puxa" a língua ligeiramente para trás na hora de produzir o |t|d|. Esse fenômeno acontece, de um jeito ou de outro, em MUITAS línguas, como o alemão, por exemplo (onde o |ch| muda de som se o que vem na frente é |i| ou |não-i|. Porém, pessoas do sudeste e do nordeste se entendem perfeitamente e entendem que [tchia] e [tia] são a mesma palavra, independente de ter ou não chiado (isso não acontece no italiano, por exemplo, onde o chiado faz uma enorme diferença). Sendo assim, devemos padronizar a coisa de tal forma que todo mundo entende aquilo como sendo a mesma coisa, mesmo que a pronúncia seja um pouco diferente.

Em linguística a gente tem dois esquemas de representação, a transcrição fonética e a fonêmica.

/fonêmica/ [fonética]

consegue descobrir o que está escrito?

A transcrição fonética pretende descrever como a pronúncia é realizada, ou seja, ela difere de dialeto pra dialeto, de idioleto (= dialeto individual) pra idioleto. Já a fonêmica busca mostrar a "representação subjacente", que é basicamente como você interpreta aquilo na sua cabeça. Ou seja, a fonêmica busca mostrar o que é igual pra todo mundo, independente de como aquilo é realizado.

A transcrição fonêmica muitas vezes é descrita como a transcrição do que é "esperado". É essa transcrição que normalmente encontramos em dicionários.

Mas tia Bárbara, por que você está falando de transcrição? Porque isso tem a ver com o meu ponto de vista a respeito da escrita.

A noção de fonética/fonêmica, embora esteja enraizada no Panini (lembra dele?), é bem recente: a definição formal de fonema veio com o Trubetzkoj e os estudos do Jakobson (funcionalistas/estruturalistas do círculo de Praga) no começo do século XX. E até hoje é uma definição problemática, mas é muito necessária e é o que a gente tem, então vá lá. Mas como a gente viu anteriormente, a escrita surgiu uns 5500 anos atrás, bem antes de a gente pensar no que é fonema, representação subjacente e o escambau. Aliás, o desenvolvimento da escrita é interligado com o desenvolvimento dos estudos tradicionais da linguagem: a gente precisa ter uma boa compreensão da língua pra conseguir desenvolver escrita, principalmente escrita segmentar (leia-se silabários e alfabetos).

E, assim como as "artes de gramática", a escrita – principalmente escrita em alfabeto greco-latino – é derivada da escrita do latim. Esse texto mostra a merda que deu a influência do latim na ortografia do inglês (que foi "sedimentada" no século XVIII e, até onde eu sei, nunca reformada), por exemplo.

Mas, como eu também já disse, a gente não fala mais latim há pelo menos uns 800 ou 900 anos (e o inglês nunca foi latim, apesar da influência). E nesses 800/900 anos MUITA água passou debaixo da ponte, a língua mudou bastante, e a escrita definitivamente está bem longe de refletir a fala, ou mesmo a "representação subjacente" da fala.

Exemplos: companhia (a gente não fala esse |h|, aliás, a gente não fala |h| nenhum, é uma letra inútil, só está lá pela tradição), noite (todos os |e| finais viram |i|, no português do Brasil – em Portugal as vogais finais ficam com outro som, o [ə], que a gente chama carinhosamente de schwa), entre outros. Eu nem vou entrar no problema de |s|z|x|ss|ç|xc|, ou |g|j|, ou |~|m|n|.

Na época em que os sistemas de escrita foram desenvolvidos eles provavelmente equivaliam a como as pessoas falavam… Só que as línguas mudam e a escrita fica lá, parada no mesmo lugar. E quando muda, normalmente é para pior, porque ortografia tem tem tudo menos coerência.

Exemplo: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 eliminou "letras que não eram pronunciadas", como o |c| de facto e objecto, e o |p| de óptica no Português europeu. Mas o |h| inútil que é bom ta aí ainda. Então eles não eliminaram todas as letras mudas, só algumas, as que "incomodavam" por serem específicas de uma variedade.

Outro problema do acordo ortográfico de 1990 é que ele foi feito por uma galera que acredita piamente que só existe uma língua portuguesa e o resto é dialeto, e que quer vender os mesmos livros do mesmo jeito pra todo mundo (e vender versões atualizadas). Temos vários problemas com isso, e eu já falei deles no meu texto sobre a definição de língua: questão de definir (linguisticamente) o que é língua, questão de identidade cultural e questão política.

Em primeiro lugar, linguisticamente nós temos várias evidências de que as variedades de português faladas no Brasil, em Portugal, na África e na Ásia não são variantes regionais de uma mesma língua, mas línguas distintas com origens comuns (como português, espanhol, francês, italiano, romeno etc são originadas do latim vulgar). Temos evidências morfofonológicas (os sons se organizam de maneiras diferentes), prosódicas (o padrão suprassegmental dos sons é diferente), sintáticas (as sentenças se organizam de maneiras diferentes). Muitos linguistas já tratam PB e PE como línguas distintas e estudam como se dá essa distinção.

A questão de identidade cultural está intimamente ligada à questão política. O "português" é falado em vários países de quatro continentes diferentes, e em dois desses continentes é ainda uma língua imposta pelos colonizadores em disputa com as línguas autóctones. Em Moçambique, por exemplo, ao mesmo tempo em que há um grupo social (os chamados assimilados, já que eles são uma elite que se "rendeu" à cultura do colonizador), o português é falado por apenas uns 6% da população, na maior parte dos casos como língua franca utilizada nas escolas e documentos oficiais. Nos países lusófonos da África ocorre atualmente um grande processo de resgate de suas culturas, incluindo aí projetos de recuperação, desenvolvimento e ensino das línguas autóctones. São países que não querem se homogeneizar numa grande "cultura lusófona", mas querem desenvolver suas próprias muitas línguas e culturas locais. E a política acompanha isso: poucos países aderiram ao acordo de 1990.

Há necessidade de se fazer uma reforma ortográfica no português? Acho que podíamos ter ficado com a norma anterior a 1990 (quem precisa mesmo é o francês ou o inglês). As mudanças do acordo de 1990 são inócuas e não resolvem problema nenhum, apenas acirram problemas linguísticos, políticos e culturais. É aí que entra o que eu falei sobre transcrições fonética e fonêmica: uma boa maneira de resolver esse impasse seria criar uma ortografia que fosse baseada em transcrição fonêmica, adaptando os símbolos mais difíceis de se digitar. Seria uma ortografia infinitamente mais coerente que a atual, mais respeitosa com as variedades regionais e ao mesmo tempo acessível a todos que compartilham a mesma língua-internalizada (ou seja, falantes da mesma língua, independente das variações). Os (enormes) problemas com essa proposta são: o abandono da tradição ortográfica greco-latina, da etimologia e da história das palavras e a necessidade de aprender tudo de novo do zero (já que não é apenas um puxadinho, é uma reforma radical).

Eu pessoalmente acredito que talvez fosse muito mais prático, eficiente e coerente uma escrita baseada em fonêmica (embora eu seja uma saudosista de pharmácia, tranqüila, estrêla… Volta! norma anterior à reforma da década de 1970!)) Por outro lado, isso nos faria perder o contato com a etimologia e a história das palavras. Mas não sou quem faz as regras – quem faz são os gramáticos (≠ de linguistas), editores e vendedores de livros…

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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