Grandes Nomes da Ciência: Clara Immerwahr

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Cigarro eletrônico detona com seus genes, mas quem se importa?

Olhos horrorizados viram com um esgar de reprovação o que se descortinava. Cantos da boca retorcidos, mas não tão retorcidos como pulmões sendo dilacerados por uma ameaça gasosa. Os olhos suplicam para que a loucura pare, mas ela não pare, e o pensamento “não foi para isso que eu estudei” cruzou com um ribombar de trovões pela mente brilhante. Críticas e desconfiança. Mãos suadas se esfregam no vestido impecável e pés giram nos tacões recusando que a Ciência pudesse ter um destino de causar dor, morte e desespero.

Esta é a desalentadora história de Clara Immerwahr. Mais que uma química, um lembrete que cientistas são pessoas e estão fadados a quaisquer desvios de caráter como qualquer um.

Juro dedicar-me com afinco à profissão que escolhi, exercendo-a de modo ético e em respeito a todos os princípios técnicos, legais e morais que a norteiam, contribuindo para o bem comum, sem que minha ciência faça mal às pessoas ou ao meio ambiente, fazendo do meu sucesso profissional um elemento importante para a construção de uma sociedade mais justa.

Não existe um juramento oficial para os químicos no Brasil, mas podemos considerar o acima como uma forma genérica. Um juramento é pouco efetivo para o mundo exterior, sendo apenas uma interiorização de valores. Quando nós entendemos essas palavras e as praticamos, nós aprendemos uma coisa de suma importância: Química existe para salvar o mundo de si mesmo, salvar pessoas de si mesmas. Não para causar malefício.

Claro, não vivemos num mundo de absolutos (só Siths lidam com absolutos). Químicos entendemos que o mundo te tons de cinza e que a pólvora que mata alguém é a que impede que pessoas inocentes sejam atacadas por bandidos. A Química Bélica não deveria existir, mas isso porque guerras não deveriam existir. Mas existem, e assim, ambas existem.

Assim como dr. Martin Luther King, que nasceria décadas depois, Clara Immerwahr tinha um sonho, um sonho que acabou em tragédia, mas é cedo pra isso. Comecemos do começo, e todo começo começa começando com um nascimento.

Menina Clara nasceu no dia 21 de junho de 1870, na aldeia de Polke no condado de Sroda Slaska, uma cidade da Baixa Silésia, na região noroeste da Polônia, que é famosa por dar ao mundo mulheres cientistas; sendo que Madame Curie nasceu em Varsóvia, em 1867, mas não era mais rica por causa disso.

De qualquer forma, a família de Clara não era pobretona. Ela era a caçula de quatro filhos em uma família culta e com padrão de vida confortável, cujo chefe, o pai de Clara, era químico. Como era comum naquela época, Clara e suas irmãs foram educadas em casa, como qualquer jovem mocinha de sua idade, aprendendo tudo o que precisava com um tutor, como também era de praxe naquela época, mas para quem podia pagar, o que não era tão comum assim. Depois, foi para um colégio de moças, mas lá não se aprendia muita coisa sobre ciências.

Clara não era muito afeita à ideia de sua época que mulheres tinham que ficar em casa cuidando da casa e gerando toneladas de filhos. Ela queria estudar, queria aprender, queria ir para uma Universidade, o que não era bem visto (nem permitido) em sua época.

Em 1890, a mãe de Clara faleceu e seu pai mudou-se com menina Clara para Breslau. Lá, ela participou de seminário do professor Richard Abegg, que reconheceu as suas habilidades e deu-lhe uma cópia do Conversas sobre Química, de madam Jane Marcet. Lembram-se dessa obra? Bem, foi por causa desse incrível livro que um certo aprendiz de encadernador se tornou um dos maiores cientistas da História: Michael Faraday. Abegg a faz sua protegida e auxiliar.

Clara trabalhou como governanta, deu aulas particulares e lutou por uma permissão para realizar o exame preliminar que lhe permitiria qualificar-se para entrar na universidade. Enquanto as feminazis de hoje mostram o poder das mulheres fazendo depilação em plena luz do dia, as grandes mulheres ficam mostrando que são, não superiores, mas iguais aos homens, e ao provar isso, mostram que, sim, são superiores. Em meados de 1895-1896, mulheres foram autorizadas a assistir a palestras na Universidade de Breslau como visitantes.

Clara Immerwahr tinha entrado na Universidade para cursar Medicina, mas trocou de cadeira, preferindo a mãe de todas as ciências: Química. Contra todos os percalços, sexismo e tosqueiras, ela consegue se formar, e parte para o doutorado. Mais resistência, mas de nada adiantava, pois, as mulheres da Polônia não dão a menor pitomba para essas baboseiras. Ela consegue seu título de “doutora em Química” com um summa cum laude na bagagem e um dedo médio em riste.

Em 1900, Clara conhece o químico Fritz Haber, que foi um grande cientista de sua época e qualquer químico sabe o seu nome, porque ele fez uma revolução, que só teria lugar dali a alguns anos.

Com a revolução industrial, mais pessoas tendiam a ir para as cidades trabalhar, o que reservava menor quantidade de pessoas no campo. As técnicas agrícolas ainda não tinham muito desenvolvimento, pois a Revolução Verde estava a décadas dali. Havia uma demanda crescente por fertilizantes, e estes fertilizantes eram produzidos à base de nitratos, em especial o salitre do Chile, o nitrato de sódio, NaNO3. Isso fazia com que países como a Alemanha dependessem de outros países para a venda desse mineral, cujo preço estava cada vez mais caro. Desde o século XIX queria-se uma forma de se sintetizar amônia (NH3) para se produzir nitratos e, assim, fertilizantes (e pólvora, também. Nunca fomos sempre bonzinhos). Bem, a amônia é composta por nitrogênio e hidrogênio. Onde poderíamos encontrar em grande quantidade? Do ar, ora essa, mas os rendimentos eram muito ridículos. O processo conhecido por Haber-Bosch promove esta reação usando pressão aplicada e ácido nítrico como catalisador. PUMBA! Alemanha tinha todo o nitrato que precisasse, além de dar de presente um prêmio Nobel para os alemães. Mas isso só ocorreria em 1908.

Voltando à nossa historinha que segue um tempo linear, Clara foi pedida em casamento por Fritz Haber, mas ela declina, provavelmente se fazendo de difícil, certo? Ela tinha sua pesquisa para dar conta. Em 1901, Clara Immerwahr passa a se chamar frau Clara Haber, e com ele tem um filho, Hermann. Só que não para por aí. Clara e seu mozão eram judeus, e havia um grande antissemitismo, não só na Alemanha, mas em toda Europa (não, Hitler não tirou a ideia idiota de passar o cerol nos judeus do nada). Sendo assim, eles se convertem ao Protestantismo, e você aí reclamando que não lhe deixam andar seminua nos corredores do colégio.

Está tudo lindo, um sonho, certo? Toca-se um solo de piano, pôr-do-sol, câmera dá zoom out, um fade, sobem os créditos.

Mas isso é a vida real, e dali para frente as coisas se degringolam.

A verdade é que nada havia de feliz nesse casamento desde o início. Em 1902, com a chegada do filho, Clara já não era bem-vinda no laboratório de Fritz Haber. Ela o auxilia com questões envolvendo reações no estado gasoso no livro Thermodynamik technische Gasreaktionen (Técnicas de Termodinâmica nas Reações dos Gases) de Haber, mas seu nome não aparece como autora, quando muito, uma tênue dedicatória. Ela era apenas a esposa, não uma cientista.

Em carta para seu amigo e mentor, prof. Abegg, Clara mostra sua tristeza ao dizer “Eu preferiria fazer dez teses, em vez de ter de me atormentar assim”, e “Com o que sobrou de mim, me satisfaço com a infelicidade mais profunda”. Seu brilhantismo acabou se resumindo a tolas palestras tipo “Química em casa”.

Por outro lado, Haber se transformou numa sensação na Alemanha. Iria ganhar o prêmio Nobel de Química, mas ele não sabia disso. Por causa do seu processo, era convidado a dar palestras em muitos lugares e vivia viajando (arrumando umas senhoras pelo meio do caminho, se me entendem). Com o advento da 1ª Guerra Mundial, ele teve a “brilhante” ideia de usar gás cloro em vales, que é altamente cáustico, corrosivo e, como é mais pesado que o ar, fica lá no vale esperando que os soldados avançassem para uma morte nada bonita.

Haber organizou o Departamento de Guerra Química do Ministério da Guerra da Alemanha, não só usando alegre e feliz gás cloro, mas ajudando a desenvolver outros gases extremamente tóxicos, como o gás mostarda, tendo esse nome não por ser feito de grãos de mostarda (já que não era) e sim por causa da sua cor amarelada. Este assassino em forma gasosa causa cegueira instantânea, sufocamento, abertura de poros, rompimento de vasos sanguíneos e a morte em menos de 10 minutos de exposição, e a pessoa sofrera de forma horrenda nesse tempo, implorando para morrer logo.

Juro exercer a Química de modo ético e em respeito a todos os princípios técnicos, legais e morais que a norteiam, contribuindo para o bem comum, sem que minha ciência faça mal às pessoas ou ao meio ambiente.

Clara acompanhava tudo com horror crescente. Ela sabia que a Química fora criada para proteger as pessoas e melhorar a qualidade de vida, não extingui-la de maneira terrível. Para Clara, guerras não fazem ninguém grande, mas Fritz não estava lhe dando ouvidos. O casamento, se ia ruim, passou a ser um inferno. Ela desaprovou, e EM PÚBLICO, as ações do marido. Para ela, aquela ignomínia que mais tarde seria chamada de “Guerra Química” era uma perversão da Ciência, segundo suas próprias palavras, e arrematando como sendo “um sinal de barbárie, corrompendo a própria disciplina que deve trazer novas descobertas para a vida.” Haber não tolerou isso e a acusou, também em público, de fazer declarações de traição à Pátria.

Farei do meu sucesso profissional um elemento importante para a construção de uma sociedade mais justa.

No malfadado dia de 22 de abril de 1915, a Morte, essa destruidora de mundos, estendeu seu tenebroso manto sobre a Frente Ocidental, na Segunda Batalha de Ypres, em Ypres, Bélgica. 5 mil soldados britânicos e franceses encontraram um fim horrendo sob a forma de 150 toneladas de gás cloro. Fritz Haber é saudado como um herói. Os olhos de frau Clara Harber, antes Clara Immerwahr, jamais viram tamanho horror, O Horror! No dia que celebravam este ataque, e Fritz Haber era promovido a capitão, em 2 de maio de 1915, o fardo era por demais. Clara deu fim à própria vida, no que alegam ter sido com o revólver do marido, mas o laudo oficial não existia, pois não foi feita autópsia e seu suicídio sequer foi parar jornais. Ninguém soube o que houve naquela noite.

Fritz Haber voltou a se casar mais tarde. No dia do sepultamento de Clara Immerwahr, mãe, professora, cientista e ativista, Haber foi se reunir para planejar mais um ataque, sendo nessa vez na frente russa.

Haber temia ganhar o sr. Processinho por crimes de guerra, mas o que ganhou em troca foi o prêmio Nobel de Química pela técnica de sintetizar amônia, em 1918. A despeito de ter se convertido ao Cristianismo, o pessoal de um partido em franca ascensão não via com bons olhos sua ancestralidade, assim, por causa dos filhotes do partido Nazista, Haber rala peito da Alemanha o mais rápido possível em 1934, indo ganhar suas honrarias em vários países. Ninguém mencionava o nome de Clara Immerwahr.

O nome de Clara foi esquecido, como uma roseira soterrada em meio aos horrores da Guerra. Veio uma guerra, foi-se. Veio outra, foi-se de novo, e várias guerras vieram e se foram, com a Química sendo usada de maneira vil e irresponsável. Mas uma planta de raízes fortes não está morta para sempre, e Clara Immerwahr, um dos Grandes Nomes da Ciência, ressurge e floresce mais uma vez.

Ela é o perfeito exemplo, um símbolo de protesto contra o mau uso da Ciência. O mais prestigioso prêmio dado pela seção alemã dos Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear é chamado o prêmio Clara Immerwahr. A Universidade de Dortmund tem um projeto de orientação para mulheres nomeadas com o nome Clara Immerwahr Awards.

Você não foi esquecida, Clara. Tem até filme sobre sua vida. Seu exemplo, dedicação e ideal vive em nossos corações. Honramos seu nome todos os dias quando de nossas vidrarias saem remédios, técnicas de combate à poluição, melhoria de vida em todos os sentidos. Em cada laboratório anônimo, há um profissional zelando pelo bem das pessoas, fazendo jus ao título de “químico”. Todos nós que prezamos em ajudar a humanidade e defender o meio ambiente somos seus filhos adotivos.

Obrigado pelo exemplo, Mãe Clara. Obrigado por não nos deixar cair na escuridão. Feliz aniversário, e ainda que se tenha passado, Feliz Dia do Químico, mãe.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας