
Vocês conhecem a história de Ea-Nasir, o vendedor de cobre vagabundo e trapaceiro que eu já apresentei por aqui como o pior comerciante da História. Ele vendia cobre saído do Golfo Pérsico para a Mesopotâmia, ostentava o cargo oficial de “Alik Dilmun” — importador licenciado que ia até o atual Bahrein trocar prata, cevada e tecido por metal — e morava numa casa de sete cômodos com capela particular, escavada nos anos 1920 pelo arqueólogo Leonard Woolley, que resolveu batizar as ruas de Ur com nomes ingleses só porque podia. Resultado: o maior vigarista documentado da Idade do Bronze mora, para efeitos de citação acadêmica, na Old Street número 1.
Mas tem algumas coisinhas que eu não falei.
Além da carta de Nanni que já virou meme mundial, a casa de Ea-Nasir guardava outras duas queixas que a Internet nunca aprendeu a decorar: uma de Ili-Idinam, reclamando de cobre de qualidade inferior, e outra de Arbituram, que nunca recebeu cobre nenhum. Fica a pergunta que ninguém no marketing dele parece ter se feito: por que guardar evidência documentada da própria incompetência? Pode ser que fosse um trollzinho satisfeito colecionando as reclamações como troféu; pode ser que achasse aquilo hilário.
Pode ser, na hipótese mais simpática, que o Palácio de Larsa ficasse com todo o cobre de primeira assim que chegava, sobrando para ele só o material de segunda para revender, o que faria dele menos vigarista e mais vítima da cadeia de suprimentos real. E de brinde, descobre-se que a imagem usada em boa parte dos memes dele pela Internet nem é dele: é a estátua de um adorador anônimo de mil anos antes do período em que ele viveu. Tá, mas ainda é mais divertido achar que Ea-Nasir era um sacripanta. Vou continuar nessa linha e se ele não gostar, que me processe num tribunal sumério!
O Palácio de Larsa era a residência real e o centro administrativo da antiga cidade suméria de Larsa (you don’t say!), situada na Baixa Mesopotâmia, no que hoje chamamos “Iraque”, e que Saddam Houssein fez de tudo para ligar o povo iraquiano aos antigos habitantes da Mesopotâmia.
Agora, uma curiosidade: foi encontrada uma espécie de “receita de bolo” bem antiga no palácio de Larsa, também. Ok, não é que seja uma receeeeeeeeita; é mais uma lista de ingredientes gravada numa tabuinha da Terceira Dinastia de Ur, duzentos anos mais antiga que a receita mais antiga já catalogada, referente a um bolo chamado gug egalakura. A tabuinha registra as proporções em sila (cerca de um litro cada): manteiga, queijo branco, tâmaras de primeira e passas de Esmirna. A farinha não é mencionada, embora os pesquisadores desconfiem que ela também entrava na receita, já que o nome do bolo remete a uma farinha nobre chamada zisik.
O Max Miller, do Tasting History, transformou esta proto-receita em bolo de verdade: massa de farinha integral, queijo tipo ricota e manteiga, recheada de tâmaras trituradas e assada enrolada em folhas de parreira. O resultado, nas palavras do próprio autor, lembrou um pudim de Natal britânico: denso, seco, com sabor de tâmara predominante e um “cadê o resto do queijo” no fundo.
E aqui está a ironia que fecha o círculo: esse bolo hipotético foi encomendado ao mesmo palácio de Larsa para o qual Ea-Nasir vendia cobre, na mesma cidade onde ele morava a uma rua de distância. É bem provável que ele tenha, sim, provado alguma variação dessa receita; talvez rindo satisfeito de outro cliente lesado enquanto saboreava a iguaria. Mesmo porque, “dar bolo” nos seus clientes era uma prática comum dele.
Quase quatro mil anos depois, o homem que não conseguia entregar cobre de qualidade continua sem crédito comercial nenhum, mas ganhou de brinde uma receita, o que é mais do que cada um de nós conseguirá na vida.
