Balloonfest ‘86: quando lembramos que há um lugarzinho quentinho para boas ideias

Toda cidade americana decadente já teve aquela ideia genial de marketing que parecia infalível no quadro branco e virou motivo de piada nacional. Cleveland, nos anos 1980, tentava desesperadamente deixar de ser conhecida como “a cidade cujo rio pegou fogo” (sim, aconteceu, e é outra história igualmente hilária, mas ficará pra outro dia), e alguém do United Way, ex-publicitário da Procter & Gamble, teve a epifania que só faz sentido dentro de uma sala de reuniões: por que não soltar um milhão e meio de balões ao mesmo tempo e quebrar um recorde mundial?

A ideia era muito simples, como todas as ideias mais idiotas podem ser: arrecadar fundos para a filial local do United Way e vender publicamente Cleveland como uma das cidades emergentes dos EUA. O recorde a ser batido, aliás, pertencia à Disneylândia, que tinha soltado balões no aniversário de 30 anos do parque, um ano antes. Cleveland ia superar Mickey Mouse! O que poderia dar errado?

Balonando e andando sem pensar nas consequências, esta é a sua SEXTA INSANA!

Contrataram uma empresa de Los Angeles chamada Balloonart by Treb, comandada por Treb Heining, e o projeto levou seis meses inteiros de planejamento (pesquisa técnica, alvarás municipais, logística, o pacote completo de burocracia que qualquer evento gigantesco exige). Ergueram, na Public Square, uma estrutura retangular do tamanho de um quarteirão, com três andares de altura, coberta por uma rede única de tecido trançado só para segurar os balões antes da soltura. Lá dentro, 2.500 voluntários, a maioria estudantes de Ensino Médio, passaram horas enchendo balões de hélio numa produção contínua até que um dos participantes descreveu como uma linha de montagem sem pausa, recompensados com a fortuna de uma camiseta grátis.

Crianças venderam patrocínios de porta em porta para reforçar o caixa do United Way, a um dólar cada dois balões. O plano original era soltar dois milhões de unidades; na prática, pararam em pouco mais de 1,4 milhão, o que já era mais do que suficiente para qualquer desastre de proporções bíblicas.

No sábado, 27 de setembro de 1986 (data que aqui se comemora Cosme e Damião, e nada tem a ver com a história, mas vou mencionar assim mesmo!), uma tempestade se formava no horizonte. Os organizadores tiveram a brilhante ideia de antecipar a soltura para as 13h50, presumivelmente na lógica de vamos terminar isso antes que chova. Ignoraram solenemente que o problema nunca foi a chuva começar antes ou depois, e sim o fato de estarem prestes a lançar um milhão e meio de objetos flutuantes bem em cima de uma área metropolitana cheia de gente, carros, aeroporto e lago.

Mais de cem mil pessoas se aglomeraram no centro de Cleveland para assistir. Os balões subiram em torno da Terminal Tower, o recorde foi batido, a multidão vibrou, e um DJ de rádio local, num acesso de orgulho cívico compreensível, declarou ao vivo que Cleveland tinha finalmente deixado de ser motivo de piada e entrou para o Guinness com mais de um milhão e meio de balões no ar. Foi, sem exagero, o auge absoluto da tarde.

Durou o tempo de um suspiro.

Aqui entra a parte que ninguém no comitê organizador parece ter consultado um meteorologista: em condições normais, um balão de látex solto ao ar livre sobe, sobe, esvazia aos poucos por causa da pressão atmosférica e desce já murcho, quase inofensivo. Só que a frota de balões de Cleveland colidiu, ainda cheia, com uma frente de ar frio acompanhada de chuva, o que os fez despencar de volta à terra ainda perfeitamente inflados, como uma nevasca lenta e multicolorida decidida a arruinar o dia de todo mundo.

Motoristas davam uma freada brusca para não atropelar bexigas ou tiravam os olhos da pista para admirar o espetáculo aéreo, e a cidade viu uma sequência de acidentes de trânsito. O aeroporto Burke Lakefront precisou fechar uma pista por meia hora porque estava coberta de balões. Uma leva deles pousou numa fazenda em Medina County e assustou tanto os cavalos árabes da proprietária, Louise Nowakowski, que ela processou o United Way por 100 mil dólares (o caso foi encerrado com acordo de valor não revelado). Nos dias seguintes, balões começaram a aparecer encalhados do lado canadense do Lago Erie, poluindo praias a centenas de quilômetros de distância, prova definitiva de que ninguém tinha pensado no “depois” daquela festa.

O capítulo mais sombrio, porém, envolveu dois pescadores, Raymond Broderick e Bernard Sulzer, que tinham saído num barco de 16 pés (quase 4,9 metros, em unidade de gente) no dia anterior ao evento e foram dados como desaparecidos bem na hora em que a cidade celebrava seu recorde mundial. Resgatistas localizaram o barco ancorado perto do quebra-mar de Edgewater Park, mas a tripulação de busca e resgate da Guarda Costeira teve sérias dificuldades para operar na área porque a superfície do lago estava coberta de balões, o que tornava praticamente impossível distinguir um colete salva-vidas laranja em meio a centenas de milhares de bexigas da mesma cor.

A busca foi suspensa em 29 de setembro, e os corpos dos dois homens apareceram na costa dias depois. A viúva de um deles processou o United Way e a empresa organizadora por 3,2 milhões de dólares; o processo também terminou em acordo sigiloso. Décadas mais tarde, em 2024, um responsável pela Guarda Costeira fez questão de esclarecer publicamente que o Balloonfest não teve relação direta com as mortes dos dois pescadores, uma nota de rodapé que chegou tarde demais para impedir que a lenda urbana e a reportagem sensacionalista da época já tivessem soldado balões e afogamento na mesma frase, para sempre, na memória coletiva.

No fim das contas, o evento que deveria arrecadar dinheiro para caridade fechou no vermelho, engolido pelos próprios custos. A edição de 1988 do Guinness Book chegou a homologar o recorde (1.429.643 balões, para ser exato), mas a organização se aposentou da categoria “maior soltura simultânea de balões” logo depois, alegando preocupações ambientais e de segurança que, cá entre nós, talvez devessem ter ocorrido a alguém antes de encher um milhão e meio de bexigas.

O caso rendeu processos judiciais, décadas de piada regional e, em 2017, um curta-documentário do cineasta Nathan Truesdell que reconstrói o episódio inteiramente com imagens de arquivo, sem precisar inventar absolutamente nada, porque a realidade já vinha pronta com todo o material trágico e ridículo que qualquer roteirista sonharia em ter.

Com as eleições vindo aí, pense que os parasitas com cargo público sempre tiram do reto alguma besteira assim para se sobressaírem. Pense com carinho e se você se sentir tentado a votar em algum imbecil que tiver uma ideia megalomaníaca assim, por gentileza, monte num balão e saia voando, que nem um certo padre fez.

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