Justiça Iowense diz que Templo de Satã é de boas e Krampus é cara maneiro

A liberdade de expressão é uma das instituições mais sagradas dos EUA, especialmente quando quem está falando concorda com você. É um princípio belíssimo, consagrado na Primeira Emenda da Constituição, celebrado em discursos patrióticos e defendido aos berros por gente que aparentemente nunca considerou a possibilidade de ele também valer para os outros. Foi justamente essa descoberta traumática que atingiu autoridades de Iowa, onde o Templo Satânico resolveu organizar uma celebração de fim de ano no Capitólio estadual.

A ideia provocou tamanha consternação que foi preciso chamar uma juíza federal para explicar que, assim como travestis, a Constituição americana não é bagunça e não possui nenhuma cláusula proibindo pessoas de aparecerem em público fantasiadas de demônho fora do Halloween. Imagino a perplexidade dos envolvidos. Afinal, quem poderia prever que uma lei destinada a proteger a liberdade religiosa também protegeria religiões das quais não gostamos?

Comendo o pão que o Diabo amassou na casinha dele, esta é a sua SEXTA INSANA!

O que, afinal, pretendia o Templo Satânico de Iowa para provocar tamanho pânico institucional além de… sei lá, acho que o nome despertou sentimentos. O que pessoal pensou era algo meio bizarro, como cânticos, incenso, bodes sendo degolados, o sacerdote se sujando com o sangue do bicho, uma pira queimando restos, pombos mortos de forma bárbara… seria algo assim, pensaram, mas não condiz muito com um templo satânico, pois, é o primeiro capítulo do Levítico!

No caso do Templo Satânico, o máximo que está sendo encontrado são crianças colorindo desenhinhos tido como “nefastos” e oficina de enfeites e gente fantasiada de Krampus, personagem da Segunda Divisão do Campeonato Demonical (se Guimarães Rosa pôde criar neologismos quando queria, eu também posso!) Nada de sacrifícios humanos ou virgens arrastadas para altares de mármore negro. Ou seja, nada de muito interessante ou divertido. Só de escrever isso fiquei com tédio!

De qualquer forma, o governo do Estado de Iowa (e seus 3,23 milhões de habitantes, ou um bairro do Rio) farejou perigo mortal: as fantasias poderiam assustar as crianças, e os bastões usados como acessório poderiam virar armas. Preocupação comovente num país onde o Halloween transforma bairros inteiros em convenções de monstros e onde a criançada convive sem trauma com um velhinho que a vigia o ano todo para decidir quem merece presente e que você pode ir com um fuzil fazer compras no mercadinho da esquina. Mas um bode com um pedaço de pau? Chamem a Guarda Nacional!

O diretor do órgão (epa!) que vetou o evento, aliás, admitiu em audiência que não pesquisou nada sobre o Krampus. Pesquisar para quê, se o pavor já vem de fábrica? Convém, porém, entender com quem o governo de Iowa foi se meter.

Antes que alguém borrife água benta no monitor, vale explicar o que é o tal Templo Satânico. Trata-se de uma organização religiosa não teísta (não faça cara de surpresa, porque o Budismo também é uma religião ateísta), fundada em 2013, que usa Satanás não como divindade, mas como símbolo de rebeldia contra o autoritarismo e de defesa da separação entre Igreja e Estado.

A estratégia é de uma simplicidade quase ofensiva: se o governo admite manifestações cristãs em espaço público, o grupo pede o mesmo para as suas. Quando alguém protesta, aponta para a Constituição e pergunta, com a inocência de um gato sentado ao lado de um aquário quebrado, qual é exatamente o problema. Não há pactos de sangue, só ativismo jurídico, simbolismo provocativo e um talento profissional para causar indigestão em quem confunde liberdade religiosa com monopólio cristão. Uma auditoria constitucional com chifres.

O conflito, aliás, não começou agora. Em 2023, a representação de Baphomet instalada pelo grupo no Capitólio foi vandalizada. Os pedidos seguintes foram sendo recusados, enquanto a árvore de Natal e outros enfeites religiosos continuavam firmes na rotunda. A convivência religiosa é uma virtude maravilhosa, desde que ninguém tenha de conviver com religiões inconvenientes. Em agosto, o Templo e a ACLU levaram o estado à Justiça, e em 2 de novembro a juíza federal Stephanie Rose mandou aprovar o pedido.

A decisão é preliminar, mas reconhece que o Templo provavelmente vencerá a causa. Quanto ao medo de que o servo de Baphomet, Nosso Senhor, assuste crianças, a magistrada disse que isso não é base admissível para excluir uma manifestação. Sobre os bastões, lembrou que o Estado pode aplicar a triagem de segurança de sempre, sem cancelar a festa inteira. Uma solução tão revolucionária que quase merece o Nobel: fiscalizar o objeto perigoso em vez de proibir o evento porque os organizadores escolheram o mascote errado.

O governo estadual, naturalmente, pretende recorrer. Nada demonstra maior apreço pela liberdade constitucional do que gastar dinheiro público para impedir que um cidadão exerça um direito de que você pessoalmente não gosta.

E aqui a história atinge o ápice. Existe uma devoção quase litúrgica ao free speech em certos círculos conservadores americanos. A liberdade de expressão é sagrada, absoluta, inegociável, herança dos Pais Fundadores, até que alguém aparece com chifres de plástico e resolve exercê-la. Nesse instante, a Primeira Emenda entra em manutenção. É o free speech com regulamento de condomínio: pode falar o que quiser, desde que não incomode o síndico celestial.

Analisando isso, o que podemos dizer aos entusiastas dessa liberdade seletiva? Atos tem consequências e o Dildo das Consequências vem sob a forma querem free speech? Então toma free speech, motherfuckers! Com chifres, cânticos, fantasias de Baphomet e oficina de enfeites natalinos.

A moral da história é que a liberdade de expressão tem um inconveniente insuportável para seus defensores ocasionais: ela funciona mesmo quando quem fala é um sujeito fantasiado de bode. O Templo Satânico não precisou invocar demônios nem abrir portais infernais para provocar uma crise constitucional. Bastou preencher um formulário pedindo autorização para uma festa infantil, e o resto foi fornecido gratuitamente pela burocracia estadual.

Satã, Nosso Senhor, virou protagonista de uma disputa sobre liberdade religiosa sem sequer precisar existir, e os autoproclamados defensores da Constituição descobriram, horrorizados, que o documento também protege quem não recebeu a bênção do pastor. Talvez seja essa a verdadeira mensagem natalina de Iowa: a liberdade é linda, a tolerância é sagrada e todos são iguais perante a lei. Mas, se o convidado aparecer com chifres, alguém vai querer chamar a polícia.


Fonte: Associated Press

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