
Durante boa parte do século passado, a evolução humana foi vendida como um álbum de família muito bem organizado: um tronco, alguns galhos, uns poucos ramos, e cada espécie arrumadinha no seu quadrinho, sem se misturar com a gentalha, gentalha. Pois bem, dentes de 400 mil anos acabam de transformar esse álbum em algo mais parecido com o grupo de WhatsApp da família depois do Natal, cheio de parentes que ninguém sabia que se falavam.
Os autores de um estudo recente conseguiram o que, uma década atrás, soaria como ficção científica de qualidade duvidosa: extrair informação biológica significativa de fósseis de Homo erectus antigos demais para ainda guardarem DNA. A saída foi trocar o DNA pelas proteínas, que resistem muito mais ao tempo e contam uma história surpreendente sobre quem andou namorando quem na Ásia.
A drª Qiaomei Fu é paleogeneticista e trabalha como professora (coitada) e diretora do Laboratório de Paleontologia Molecular do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. É praticamente assistente do programa do Ratinho do Pleistoceno.
O material estudado pela doutura Fu Manchu foi o esmalte de seis dentes de três sítios chineses: Zhoukoudian, famoso por ter produzido o chamado “Homem de Pequim”, Hexian e Sunjiadong, todos com cerca de 400 mil anos. O esmalte, diferente daquilo que mulheres passam nos dedos (não isso. Estou falando das unhas), é o tecido mais duro do corpo humano, e suas proteínas sobrevivem muito depois de o DNA virar pó molecular.
Nelas, a equipe encontrou uma variante de aminoácido jamais vista em qualquer outro hominídeo, vivo ou extinto: uma única “letra” trocada na sequência proteica, presente nos seis exemplares. Essa assinatura agrupou os Homo erectus do leste asiático num conjunto distinto e ainda encerrou uma antiga discussão sobre se os intrigantes fósseis de Hexian eram mesmo H. erectus. Eram.
Uma segunda variante, porém, é a que rende a fofoca. Ela não é exclusiva do H. erectus, aparecendo também nos denisovanos, grupo arcaico conhecido sobretudo por uma caverna na Sibéria. Em humanos atuais, essa mesma variante surge em cerca de 21% das pessoas nas Filipinas e em aproximadamente 1% na Índia, num padrão compatível com a herança denisovana.
A interpretação mais razoável é que populações de H. erectus do leste asiático cruzaram com denisovanos, que depois repassaram o presente aos ancestrais dos atuais sudeste-asiáticos e oceânicos. Essa transferência entre espécies tem nome técnico: “introgressão”. O suposto beco sem saída, afinal, deixou um rastro mensurável nos genomas de hoje, um fio molecular ligando um dente do Homem de Pequim a gente que está viva.
E isso não é exceção. Todas as linhagens de hominídeos examinadas por genômica mostram mistura. Humanos fora da África carregam cerca de 2% de DNA neandertal, enquanto papuas e aborígenes australianos somam de 2% a 5% de ancestralidade denisovana. Populações da África Ocidental guardam assinaturas de uma linhagem arcaica ainda não identificada, e os próprios denisovanos receberam genes de algo mais antigo e divergente, provavelmente o H. erectus.
Uma revisão de 2019 no American Journal of Physical Anthropology documentou ao menos três eventos distintos de introgressão de populações tipo denisovanas nos ancestrais do sudeste asiático e da Oceania, alguns tão recentes quanto 20 mil anos atrás. Nossos genomas são mosaicos, montados com peças de vários grupos arcaicos adaptados aos seus ambientes. Variantes denisovanas em genomas papuas, por exemplo, parecem influenciar a imunidade. Quanto à variante herdada do erectus, sua função é desconhecida, mas o precedente sugere que adaptação a novos ambientes pode estar na história.
Há ainda as populações fantasmas. O Homo erectus sobreviveu na Indonésia até talvez 100 mil anos atrás, o “hobbit” Homo floresiensis ainda habitava Flores quando chegamos, e o Homo luzonensis ocupava as Filipinas. Nenhum deles rendeu DNA, e até agora nenhum rendeu dado molecular algum. Teriam sido também parcialmente absorvidos? A genômica atual ainda não detectou o sinal com clareza, mas a abordagem proteômica abre um caminho promissor. Se há proteína em esmalte de 400 mil anos, talvez haja também em floresiensis e luzonensis.
A velha metáfora da árvore, portanto, foi discretamente aposentada. Melhor imaginar um rio trançado, com muitos canais que correm ora juntos, ora separados, trocando água o tempo todo. Quando populações humanas antigas desapareceram, deixaram rastros de si. Pelo visto, até o Homem de Pequim mandou lembranças.
A pesquisa foi publicada no periódico Nature.
