
A única verdade dita nos filmes do Indiana Jones é que a maior parte do trabalho de um arqueólogo é feito em bibliotecas. A segunda maior parte do trabalho é catar uns cacos por aí e tentar dar significado ao que tem lá, além de tentar escapar de algumas maldições (corte de verbas é uma delas). Aliás, eu acho que o arqueólogo fica muito mais feliz com múmias e cacos de argila (não que achar uma máscara de ouro como a do Tut faça algum mal, mas, convenhamos, não é algo que acontece todos os dias).
A rigor, arqueólogos ficam mais do que loucamente excitados quando descobrem umas tabuletas de argila, ainda mais algo que há muito tempo estava perdido e, de repente, chega à luz do dia: o tratado de paz firmado depois da Batalha de Kadesh.
De início, vamos a ela: Lady História!
Estamos no ano 5 do reinado de Ramsés II (que pela forma de datas de hoje, seria algo por volta do ano 1274 A.E.C.). Ramsés II tinha assumido o trono egípcio havia pouco tempo, sucedendo o pai, Seti I, e ainda não tinha provado nada a ninguém além da própria corte, o rei fodástico que ele era, e reis precisam mostrar isso pra corte, pros generais, pros sacerdotes e… bem, só esses mesmos. A população que se danasse, já que qualquer rei tava de bom tamanho!
Por volta dos trinta, Ramsés II herdava também um problema geopolítico: Kadesh, cidade-chave na fronteira entre as duas potências, já estava no campo hitita, e o reino vassalo de Amurru – na atual Síria –, que ele tentara puxar de volta no ano anterior, voltava a ser disputa. Para um rei recém-coroado, recuperar aquele território não era só estratégia, era um cartão de visitas e uma necessidade!
O Grande Rei do pessoal com deuses com cabeça de bicho reuniu quatro divisões de cerca de 5 mil homens cada, batizadas com nomes de deuses (Amon, Rá, Ptah e Set), o que garantia bênção celestial e nenhuma garantia tática, e marchou para o norte com cara, muita coragem e nenhuma noção do que era pra fazer.
Do outro lado esperava Muwatalli II, rei hitita havia mais de uma década; homem experiente em guerra e em diplomacia de coalizão, que tinha convocado aliados de meio mapa: contingentes de Alepo, Ugarit, Kizzuwatna e outros vassalos, somando um exército que, nos números egípcios, pode ter chegado a 40 mil homens e cerca de 3.500 carros de guerra construídos no molde dos hititas: mais pesados e estáveis que os egípcios, embora mais lentos.
Muwatalli colocou o irmão mais novo, o príncipe Hattusili (o mesmo que, décadas depois, assumiria como Hattusili III), no comando dos carros de combate, veterano de confiança e comandante habilidoso de tropas heterogêneas. Enquanto isso, dois beduínos apresentados como desertores se aproximaram do acampamento egípcio e garantiram a Ramsés que os hititas estavam a uns 200 km dali, em Alepo. Sim, isso está gritando “espiões”, mas Ramsés II era um mané por essa época e não viu o óbvio. Pegou suas tropas e caiu dentro.
Sim, óbvio que era uma armadilha!
Muwatalli estava escondido bem atrás de Kadesh, com o grosso do exército pronto para o bote, e só quando outro par de prisioneiros foi capturado e espancado até confessar é que o rei egípcio, ainda inexperiente no ofício de general, descobriu que tinha caído numa cilada armada por um adversário bem mais calejado que ele.
A divisão de Rá foi surpreendida em plena marcha e triturada, o acampamento real quase foi tomado e a situação só se estabilizou com a chegada de reforços. As carruagens egípcias eram mais leves, é verdade, mas eram mais ágeis. Ramsés II havia ordenado que elas tivessem um condutor e um arqueiro. Assim, quando os reforços vieram, chegaram na velocidade e dispararam uma chuva de flechas, o que deu tempo para os egípcios se reagruparem e os hititas saírem dali diante daquela tática. Se não venceu a batalha, ajudou a equilibrar a balança: o arranca-rabo terminou num impasse sangrento que nenhum dos dois lados teve como declarar vitória de fato. Só não digo que ficou no zero a zero, porque, vamos ser sinceros, os hititas estavam mais na frente da disputa.
Eu diria que o placar foi Egípcios 0 x 0,5 Hititas.
E foi aí que a política entrou em cena. De volta ao Egito, Ramsés, que a posteridade chamaria de O Grande, transformou um quase desastre em epopeia. Mandou gravar a versão oficial egípcia em Abu Simbel, Karnak, Luxor, Abidos e no Ramesseu, com relevos gigantescos nos quais aparece sozinho, maior que todo mundo, esmagando inimigos de carro enquanto o exército supostamente o abandonava, e com um poema épico em que ele invoca Amon e vence sem ajuda de mortais.
Era o outdoor mais caro da Idade do Bronze, encomendado ao maior influenciador do mundo antigo, que era ele mesmo. Os hititas, por sua vez, também se declararam vitoriosos, e com alguma razão, porque Kadesh e a região de Amurru continuaram pertencendo a eles, mas o populacho egípcio não sabia e era isso! Propaganda governamental não começou agora, queridos!
Até onde a Arqueologia sabe, porém, os hititas não deixaram nada em escala comparável aos murais egípcios. Sua propaganda circulou em tabuletas de argila, cartas e anais, da forma mais discreta, mas igualmente convencida. Foram dois impérios, duas vitórias e nenhuma ambulância no roteiro.
Passaram-se cerca de 15 anos, o trono hitita mudou de mãos (Muwatalli morreu, foi sucedido pelo filho Urhi-Teshub, e Hattusili, o mesmo irmão que comandara os carros em Kadesh, acabou tomando o poder do sobrinho numa disputa interna) e, por volta de 1259 A.E.C., os dois reinos assinaram o Tratado de Kadesh. Este documento previa não agressão, ajuda mútua e obrigações recíprocas sobre fugitivos, com a promessa de que os devolvidos não seriam punidos nem feririam suas famílias.
Os originais teriam sido gravados em prata e se perderam, mas sobraram cópias: uma em hieróglifos nas paredes de templos egípcios e outra em tabuletas de argila em acádio, a língua franca diplomática da época, o inglês da Idade do Bronze. Cada lado redigiu sua versão de modo que o outro parecesse o suplicante, porque a vaidade de reis é a única coisa que sobrevive a qualquer tratado.
As primeiras tabuletas de Hattusha surgiram entre 1906 e 1912, e hoje seus pedaços estão espalhados por Istambul, Ancara, o Vorderasiatisches Museum de Berlim e São Petersburgo. Em 2001, o conjunto entrou no Registro Memória do Mundo da UNESCO, e há uma cópia exposta na sede da ONU, em Nova York, para lembrar os diplomatas de que o ofício deles não começou no século XX.
Nesta segunda-feira, 21/09, Dia Internacional da Paz (data redonda é convite irresistível para qualquer ministério), o governo da Turquia anunciou a identificação de um novo fragmento do Tratado de Kadesh. A peça saiu das escavações de Büyükkale, a cidadela real de Hattusha, antiga capital do Império Hitita, na província de Sorum (eu me recuso a escrever “Çorum”), perto do prédio que os arqueólogos batizaram, com a criatividade típica da profissão, de Edifício E.
A peça passou um ano inteiro sob exame científico até que se confirmasse tratar-se de uma cópia em acádio, em escrita cuneiforme, do famoso acordo. As linhas preservadas correspondem aos artigos 12 a 20, dedicados a quem fugia do Egito para as terras hititas ou fazia o caminho inverso, e trazem trechos sobre proteger as casas dessas pessoas contra a destruição.
Uma transcrição completa ainda não foi divulgada. O ministro da Cultura e Turismo, Mehmet Nuri Ersoy, anunciou o achado dizendo que “encontramos vestígios de paz de milhares de anos no solo da Anatólia”, e destacou que as menções à proteção dos lares carregam “uma mensagem poderosa de milhares de anos atrás até os dias de hoje”.
Ersoy aproveitou ainda para dizer que essa herança milenar lembra a responsabilidade de proteger a vida e a dignidade humanas, e desejou um futuro de paz a todos os povos, em particular aos palestinos.
As notas oficiais não dão nome ao especialista que passou o ano decifrando o caco, mas o sítio tem um comandante conhecido. O arqueólogo alemão Andreas Schachner dirige as escavações de Boğazköy-Hattusha pelo Instituto Arqueológico Alemão, em Istambul, e é professor de Estudos do Oriente Próximo na Universidade de Würzburg.
Andreas (pois se tem gente importante, na maioria das vezes se chama André ou suas variantes) fez intercâmbio na Universidade de Hacettepe em 1989–1990, passou a frequentar escavações turcas em 1994 e está à frente do trabalho em Hattusha desde 2006. Ele lidera o sítio, o que não é o mesmo que assinar a identificação do fragmento, distinção que convém preservar antes que alguém lhe atribua a glória sozinho, como fazia Ramsés com as vitórias.
A cláusula recém-decifrada não é asilo político no sentido moderno, e sim obrigação combinada entre dois soberanos, mas mostra que, muito antes de qualquer convenção sobre refugiados, alguém já precisava decidir a quem pertencia quem cruzava a fronteira.
Ainda não há artigo em periódico científico: o achado foi anunciado pelo Ministério da Cultura e Turismo da Turquia, na publicação do ministro Mehmet Nuri Ersoy.
Barışın binlerce yıllık izini Anadolu’nun toprağında bulduk!
Çorum Hattuşa’daki Büyükkale kazılarında bulunan çivi yazılı tablet parçasının, Kadeş Barış Antlaşması’nın nüshalarından birine ait olduğu bilimsel incelemelerle belirlendi.
Yeni parça, antlaşmanın bir ülkeden… pic.twitter.com/4kvTfKGJVx
— Mehmet Nuri Ersoy (@MehmetNuriErsoy) September 21, 2026
Fonte: Popular Science, via Ronaaaaaaaaaaaaaaaaaldo!
