As inusitadas pesquisas vencedoras do Ig Nobel 2026

Todo mês de setembro, pouco antes de o comitê sueco anunciar quem vai salvar a humanidade com uma descoberta em Física Quântica ou com alguma bobagem da Economia, um bando de cientistas se veste de cogumelo, sobe a um palco em algum canto da Europa e aceita, com lágrimas genuínas nos olhos, um prêmio por ter enfiado o pé em cima de uma cobra, enterrado mil cuecas ou descoberto, com rigor de laboratório, o jeito certo de assoar o nariz.

Bem-vindos à trigésima sexta edição do Ig Nobel, a premiação que existe para provar, ano após ano, que a curiosidade científica não tem freio de mão e, às vezes, nem senso de autopreservação; e sim, esta é a sua cientificamente revisada SEXTA INSANA!

A cerimônia de 2026 aconteceu em Zurique, na Suíça, pela primeira vez em 35 anos fora dos EUA: os organizadores alegaram, já em março, que não seria mais seguro trazer convidados internacionais para o país. O tema do ano foi “fungos”, o que explica o troféu em formato de pé com cogumelos brotando (sim, essa imagem vai te acompanhar pelo resto do dia).

Dez categorias, dez motivos para rir primeiro e pensar depois, que é, aliás, o lema oficial do prêmio desde 1991. E antes que alguém torça o nariz (com a técnica correta, vamos aprender daqui a pouco) achando que isso é só zoeira: em 2012 o Ig Nobel de neurociência foi para um estudo que encontrou “atividade cerebral” num salmão morto dentro de uma máquina de ressonância magnética, achado que obrigou a comunidade científica a repensar como analisa dados de fMRI. Ou seja: o riso vem primeiro, mas o abalo sísmico na metodologia vem logo atrás. Dito isso, aqui estão cinco dos vencedores mais deliciosamente bizarros deste ano.


Leite de barata: o superalimento que ninguém pediu

O prêmio de Química foi para Leonard Chavas, da Universidade Purdue, pela façanha de calcular, com precisão de cristalógrafo, o valor calórico do leite que as baratas produzem para alimentar seus filhotes. Usando cristalografia de raios-X de última geração, a dupla analisou os cristais proteicos que se formam no intestino da barata-do-Pacífico (Diploptera punctata) e descobriu que esse “leite” é mais de três vezes mais denso em energia do que o leite de vaca comum.

Sim, você leu certo: existe uma barata que amamenta, ainda que via cristal proteico em vez de glândula mamária, e o resultado final deixaria qualquer whey protein isolado roxo de inveja. Não é difícil imaginar o próximo passo lógico dessa descoberta: alguma startup de São Francisco lançando um “shake pós-treino” com extrato de D. punctata, vendido a US$180,00 o pote, com um influenciador jurando de pés juntos sentir “mais foco e menos inflamação” depois de ingerir secreção intestinal de inseto. A ciência, aqui, foi impecável. O marketing ainda não nasceu, mas já dá para sentir o cheiro, com licença poética.

Pesquisa publicada: IUCrJ (International Union of Crystallography)


Pisando na cobra (Ui!)

O prêmio de Biologia coroou João Miguel Alves-Nunes, pesquisador brasileiro ligado ao Instituto Butantan, que resolveu descobrir por que algumas cobras mordem e outras não da forma mais direta possível: pisando nelas. Ao lado de colegas, ele montou uma arena de poucos metros de lado, colocou jararacas (Bothrops jararaca, uma das serpentes peçonhentas mais relevantes do Brasil em termos clínicos) lá dentro e, protegido por botas de couro reforçadas com espuma até os joelhos, pisou gentilmente sobre 116 animais, repetidas vezes, em diferentes temperaturas e horários do dia.

Resultado: 40.480 pisadas, todas catalogadas para entender quais fatores (tamanho, sexo, idade, calor, hora do dia) realmente influenciam a decisão da cobra de morder ou não.

O próprio pesquisador resumiu o espírito da premiação ao subir ao palco: brincou que só um tolo colocaria o pé na frente de uma cobra venenosa, e esse tolo era ele mesmo. A pesquisa desfez o mito popular de que a jararaca só morde quando pisada (muitas atacaram apenas com a aproximação) e ainda descobriu que fêmeas jovens e menores são as mais propensas à mordida, o que é uma lição e tanto sobre subestimar quem é pequeno.

Para coroar o épico com a ironia que só a Ciência sabe entregar: o artigo original que sustentou boa parte desse trabalho acabou retratado em 2025, depois que o comitê de ética do próprio Butantan constatou que a aprovação concedida não cobria o uso de filhotes recém-nascidos nem o método de “pisada suave”. Os autores, água mole em pedra dura, discordam publicamente da retratação até hoje.

Pesquisa publicada: Scientific Reports


A cueca que virou termômetro do solo

O Ig Nobel de Ciência do Solo ficou com a dupla suíça S. Franz Bender e Marcel van der Heijden, com participação de Atlant Bieri e Pia Viviani na cerimônia, autores de um projeto de ciência cidadã que convocou voluntários em mais de 25 países a enterrar mil cuecas de algodão, idênticas entre si, e desenterrá-las dois meses depois. A lógica por trás do experimento é simples e, admito, genial: quanto mais rápido o tecido de algodão se decompõe, mais ativa (e saudável) é a comunidade de micro-organismos daquele solo. Uma cueca podre virou, de uma tacada só, um indicador barato e visualmente inequívoco de qualidade ambiental, sem necessidade de laboratório sofisticado.

O detalhe mais nobre (ou… wait for it… ignóbil) da história é que, na cerimônia, o time exibiu as próprias cuecas decompostas ao vivo para a plateia, enquanto um dos pesquisadores subia ao palco fantasiado de barata, numa homenagem cruzada ao prêmio de química que ninguém pediu, mas todo mundo aplaudiu. Fica a lição prática para quem tem quintal e curiosidade: antes de gastar uma fortuna com análise de solo, talvez valha mais enterrar uma cueca velha e voltar em sessenta dias. Se ela ainda estiver inteirinha, é hora de repensar a adubação. Ou o tecido.

Pesquisa publicada: Science


O nobre ofício de assoar o nariz

O prêmio de Medicina, entregue postumamente, coroou o médico japonês Tokuji Unno, professor emérito da Universidade Médica de Asahikawa, falecido em 2022 aos 89 anos, e seu colega Hiroshi Yajima, autores de um estudo de 1977 (coloque uantas exclamações quiser) que mediu, com pneumotacômetros e sensores de pressão no tímpano, a velocidade do ar e o impacto sobre o ouvido em 15 voluntários entre 14 e 48 anos durante o ato de assoar o nariz. A conclusão prática: tampar uma narina de cada vez e soprar devagar remove secreção com mais eficácia do que assoar as duas ao mesmo tempo, e uma inspiração leve antes do sopro reduz o estresse sobre o ouvido médio, mesmo quando o sopro final é forte.

É a vigésima vez consecutiva que um pesquisador japonês leva um Ig Nobel para casa, um feito mais consistente que qualquer seleção em Copa do Mundo, e Unno certamente não imaginava, ao prender 15 narebas de estranhos a um aparelho de laboratório em plena década de 1970, que estaria pavimentando o caminho para a validação científica definitiva daquele gesto que sua avó já fazia de olhos fechados com um lenço de pano. A ciência, mais uma vez, confirma o óbvio, só que agora com gráfico, significância estatística e quase cinquenta anos de atraso para virar manchete.

Pesquisa publicada: Journal of the Oto-Rhino-Laryngological Society of Japan (1977)


Cheiro de bebê é bênção, cheiro de adolescente é castigo

Fechando a lista, um estudo publicado na revista Chemosensory Perception levou o Ig Nobel ao confirmar, com instrumentos olfativos e questionários, o que qualquer pai ou mãe já sabe no automático: o cheiro de bebê provoca reações positivas quase universais em adultos, enquanto o cheiro de adolescente desperta repulsa comparável à de lixo orgânico esquecido no calor. Os pesquisadores expuseram voluntários a amostras de odor corporal de crianças pequenas e de adolescentes e mediram, por autorrelato e resposta fisiológica, o quanto cada faixa etária agradava ao nariz alheio.

A explicação evolutiva proposta é quase poética: o cheiro doce do bebê funcionaria como cola social, garantindo apego e cuidado justamente na fase em que a sobrevivência da cria depende inteiramente dos adultos por perto; já o odor mais pungente da puberdade, cortesia de hormônios e glândulas apócrinas em plena estreia, cumpriria a função biológica quase oposta de empurrar o filhote, delicadamente, rumo à independência (ou, na prática, rumo ao próprio quarto, com a porta bem fechada). Qualquer pessoa que já tenha entrado no quarto de um adolescente sem aviso prévio já replicou, involuntariamente, o experimento em casa, sem verba de pesquisa e sem aprovação de comitê de ética.

Pesquisa publicada: Chemosensory Perception


Todas essas pesquisas, ainda que inusitadas, são sérias e importantes. Talvez não tão úteis agora, mas o avanço científico, em termos de descobertas e técnicas, nem sempre foi só incríveis desbravamentos de conhecimentos herméticos. Teve muita coisa interessante, esquisita e estranha. Ainda assim, elas existiram e ajudaram, aos seus modos, em melhorar o nosso conhecimento como um todo.

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