O avião que foi ao Espaço sem querer e voltou para contar a história

Em 1983, Hollywood nos presenteou com Starflight One (Rota de Perigo, em português), um telefilme baseado no romance “Orbit” de Thomas H. Block. A premissa era deliciosamente absurda: um avião hipersônico comercial acidentalmente acaba na órbita terrestre durante seu voo inaugural. O filme era tão inverossímil que os críticos da época o chamaram de “Airport ‘85”, repleto de clichês de filmes de desastre e impossibilidades científicas hilariantes, como lançar o ônibus espacial Columbia três vezes em 24 horas, algo que demoraria semanas na vida real e usarem um caixão para o engenheiro passar de uma nave para outra (o caixão tem um buraco e ele tampa com o dedo, só para coroar a insânia).

A ficção pode parecer absurda às vezes. Mas do Além a voz de Tom Clancy ressoa dizendo “A ficção precisa fazer sentido, a Realidade, não”. 20 anos antes desse filme B ser filmado, algo igualmente absurdo – porém completamente real – já havia acontecido com o piloto Joe Walker em 19 de julho de 1963.

A história começa – como toda boa história da Era Espacial – com a Guerra Fria em seu auge paranoico. EUA e URSS competiam por cada centímetro de altitude, cada quilômetro por hora de velocidade, cada migalha de prestígio tecnológico. Era uma disputa de quem tinha o foguete mais comprido (Freud Intensifies!), e ninguém queria ficar para trás (ÊPA!). Foi nesse contexto testosterônico que nasceu o X-15 – uma criatura que parecia ter surgido do pesadelo de alguém que comeu pizza estragada de madrugada: metade avião, metade foguete, 100% laboratório voador de alta velocidade.



Se você entregasse essas fotos a Ivã em 1963, você estaria rico pro resto da vida

O X-15 não era exatamente bonito, mas tinha seu charme. Tinha asas minúsculas, uma fuselagem revestida de ligas especiais que podiam suportar calor extremo (porque na volta do espaço, o bicho literalmente derretia), e um detalhe encantador: não decolava do chão. É, pois, é: esse “avião” era carregado pendurado embaixo de um bombardeiro B-52 modificado, , mais conhecido por BUFF (Big Ugly Fat Fucker). O B-52 subia até uns 13.700 metros de altitude e então, como quem solta uma flecha, liberava o X-15 no meio do ar.

Dali em diante, era por conta do piloto. E que piloto! Joe Walker não era qualquer um, ele era piloto de testes da NASA, o tipo de sujeito com nervos de aço e aquele brilho nos olhos de quem gosta de desafiar a morte antes do café da manhã. Ele já havia voado o X-15 dezenas de vezes, alcançando altitudes e velocidades que fariam qualquer mortal são questionar suas escolhas de vida.

Joseph Albert Walker nasceu em 20 de fevereiro de 1921, em Washington, Pensilvânia, filho de um fazendeiro. Formou-se em Física pela Washington and Jefferson College em 1942, e após um voo de avião durante seu último ano de faculdade, decidiu seguir carreira na aviação – ironicamente, depois que um instrutor lhe disse que ele nunca seria piloto por ser “cauteloso demais”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Walker voou 58 missões de combate e reconhecimento em caças P-38 Lightning, conquistando a Distinguished Flying Cross e a Air Medal com Seven Oak Clusters. Após a guerra, ingressou na NACA (precursora da NASA) em 1945 como físico e piloto de testes, transferindo-se em 1951 para a Estação de Pesquisa de Voo de Alta Velocidade na Base Aérea de Edwards, Califórnia, onde permaneceria pelo resto de sua carreira.

Como Chief Research Pilot da NASA, Walker voou praticamente todas as aeronaves experimentais da época: D-558, X-1, X-3, X-4, X-5, além de programas envolvendo F-100, F-101, F-102, F-104 e B-47. Em 1960, tornou-se o primeiro piloto da NASA a voar o X-15. Não satisfeito, ainda foi o primeiro piloto do Lunar Landing Research Vehicle (LLRV), usado para desenvolver técnicas de pouso lunar que Neil Armstrong mais tarde utilizaria. Walker acumulou prêmios prestigiosos: Robert J. Collier Trophy, Harmon International Trophy, Iven C. Kincheloe Award, Octave Chanute Award, um doutorado honorário em Ciências Aeronáuticas (1961) e foi nomeado Piloto do Ano em 1963, o ano da perigosa missão de 19 de julho – a 90ª do programa X-15 – na qual tudo parecia rotineiro no papel.

Walker deveria subir até 106 km de altitude, soltar um balão atmosférico, liberar dois sensores de teste (um ultravioleta, outro infravermelho) e voltar para casa. Simples assim. O motor tinha que queimar por exatos 83 segundos. O ângulo de subida precisava ser preciso. Cada missão carregava cerca de 204 kg de experimentos com câmeras de altíssima velocidade, detectores de radiação, amostras de novos materiais.

Mas aí veio o erro. O motor queimou por apenas um segundo a mais. O ângulo de subida inclinou meio grau além do planejado. That’s it. Nada dramático, nada cinematográfico. Mas no X-15, “só isso” era suficiente para mudar tudo. Aquele desvio minúsculo empurrou Walker além da Linha de Kármán – os 100 km de altitude que marcam o limite internacionalmente reconhecido do Espaço. Naquele momento, sem perceber, Joe Walker se tornou o primeiro civil americano da história a alcançar o espaço. E a parte mais surpreendente? Ele não sabia! É como descobrir anos depois que a Nicole Kidman quis dar pra você, mas você não se tocou na época.

Pouco mais de um mês depois, em 22 de agosto de 1963, Walker voltou ao X-15. Desta vez a missão era ousada de propósito: alcançar 109 km de altitude, cruzando a Linha de Kármán com margem de sobra. Mas havia um limite calculado pelos engenheiros – se ele ultrapassasse 122 km, o calor da reentrada poderia ser intenso demais, capaz de despedaçar a aeronave no ar como uma lata de refrigerante amassada.

Walker decola e – surpresa! – ultrapassa de novo. Desta vez atinge 107 km. Por alguns segundos, ele flutuou sabor da microgravidade, olhando ao redor. Sem som. Sem barulho. Apenas o vazio, a escuridão absoluta do Espaço e a curva da Terra diante de seus olhos. O planeta azul brilhando sob um céu negro como breu. Nada é comparável com isso. Nada. Seus problemas são insignificantes, suas paixões perdem o sentido. Você está lá, indo aonde nenhum dos seus amigos e familiares estiveram e dificilmente estariam em anos futuros. A silenciosa solidão contemplativa perante o espetáculo negro e azul.

Mas aquele momento incrível tinha prazo de validade. Os segundos de silêncio estavam contados. Com controle quase cirúrgico, Walker guiou o X-15 de volta, pousando suavemente no leito seco do lago em Rogers, Califórnia. Missão cumprida. Joe Walker havia ido ao Espaço duas vezes em um avião sem cápsula de escape. Nada poderia salvá-lo se algo desse (muito) errado. Mas não deu, foi tudo perfeito!

O programa X-15 registrou 199 voos entre 1959 e 1968. Além de Walker, cinco outros pilotos também alcançaram ou cruzaram a Linha de Kármán. Todos pousaram em segurança, exceto um – e essa história merece sua própria atenção mórbida.

Em 15 de novembro de 1967, o tenente Michael J. Adams perdeu o controle de seu X-15 durante a reentrada. O avião entrou em um giro incontrolável e, sob forças aerodinâmicas brutais, se despedaçou no ar. Adams não conseguiu ejetar a tempo e perdeu a vida, tornando-se a única fatalidade do programa em quase uma década de operação. A investigação do acidente revelou que um distúrbio elétrico de um experimento mal qualificado causou falhas no sistema de controle, e o design ruim da interface piloto-aeronave impediu que Adams e o controle de solo reconhecessem os problemas antes que fosse tarde demais.

Apesar dessa tragédia, o X-15 estava longe de ser um fracasso. Na verdade, forneceu dados cruciais para os programas Mercury, Gemini e Apollo que se seguiram. Sua tecnologia moldou diretamente o design do ônibus espacial anos depois. O conceito de uma espaçonave alada planando de volta à Terra veio parcialmente das lições aprendidas com o X-15. Foi ali que experimentaram diferentes perfis de reentrada atmosférica e ganharam melhor compreensão dos efeitos da radiação cósmica em pilotos em altitudes extremas. O X-15 foi literalmente um laboratório para aprender a ir ao Espaço e voltar.

Joe Walker, o piloto que foi além por acidente, morreu três anos antes de Adams, em 8 de junho de 1966, durante uma colisão aérea trágica. Ele estava pilotando um F-104 em uma sessão de fotos publicitária para a General Electric, voando em formação cerrada ao redor do protótipo XB-70 Valkyrie, um bombardeiro supersônico experimental que parecia ter saído de um filme de ficção científica.


XB-70 Valkyrie. Feio que doía!

Durante a formação, o F-104 de Walker se aproximou demais da ponta da asa direita do XB-70. O relatório de investigação concluiu que, daquela posição, sem pistas visuais apropriadas, Walker não conseguiu perceber adequadamente seu movimento em relação ao Valkyrie, levando sua aeronave a derivar e colidir com a asa do XB-70.

O F-104 inclinou violentamente para cima, rolou invertido ao passar sobre o topo do XB-70, arrancou ambos os estabilizadores verticais do bombardeiro e explodiu, matando Walker instantaneamente. O XB-70, agora sem controle, entrou em um giro irrecuperável e se espatifou no deserto ao norte de Barstow, Califórnia, matando também o copiloto Major Carl Cross. Um fim trágico para um homem que havia tocado a borda do Espaço duas vezes e voltado ileso.

Mas a história tem uma reviravolta final digna de um roteiro de cinema. Apesar de suas conquistas notáveis, Walker não foi oficialmente reconhecido como astronauta na época. Ele era um piloto de testes civil da NASA e, naqueles tempos, apenas os astronautas do Mercury – aqueles que voavam em cápsulas orbitais – recebiam formalmente aquele título. Pilotos de teste, não importa quão extremos fossem seus voos, ficavam de fora. Era como correr uma maratona e não receber a medalha porque você estava usando a camiseta ao contrário.

Décadas depois, a história começou a ser corrigida. Com o padrão da Linha de Kármán a 100 km, as realizações de Walker tornaram-se inegáveis. Em 2015, ele e outros pilotos do X-15 foram postumamente reconhecidos pela NASA como astronautas civis. Chegou tarde, mas foi justo.

O piloto que beijou os limites do Espaço provou que, às vezes, os maiores feitos da Humanidade acontecem quando alguém faz apenas um pequeno desvio. Só consigo me lembrar do poema de Robert Frost:

Contarei isso com um suspiro

Em algum lugar, eras e eras à frente:

Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…

Peguei a menos percorrida,

E isso fez toda a diferença.

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