A história do homem que comeu plutônio

O cientista olha com curiosidade para a peça. É um tubo, na verdade, e em seu interior está uma substância raríssima, cara e em pequeníssima quantidade. Quantos milhares ou milhões de dólares aquilo valeria? ele não sabia dizer, mas barata, com certeza, ela não era. O homem sabia do poder das reações químicas, mas ele não sabia o que se sucedia dentro do tubo. O tempo corria e o homem leva o pequeno tubo perto do rosto, o que qualquer químico consciente jamais faria, mas a curiosidade venceu o cuidado e o pior que poderia acontecer com o tubo aconteceu: ele estourou, e com isso o homem sente o horrível sabor da morte sob a forma de uma substância que seria considerada letal.

O homem era Donald Mastick, e ele acabara de engolir uma amostra de plutônio.

Donald Francis Mastick nasceu em 1º de setembro de 1920, numa época em que o elemento mais perigoso que uma pessoa comum poderia encontrar era chumbo, principalmente se você se metesse com quem traficava bebidas. Formou-se em Química (com ela a oração e a paz) pela Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1942, aos 22 anos ,uma idade em que a maioria de nós ainda está descobrindo que miojo não é um grupo alimentar.

Berkeley, naqueles tempos, era um verdadeiro celeiro de talentos científicos, uma espécie de Hollywood dos físicos e químicos. E foi lá que os olhos aguçados de um certo sujeito pousaram sobre o jovem Mastick. Os olhos eram de um certo sujeito chamado J. Robert Oppenheimer, um homem que conseguia simultaneamente parecer um poeta melancólico e um cientista louco; talvez por isso ele tenha sido o pai da bomba atômica.

Oppenheimer, que havia se tornado professor em Berkeley em 1927 e já era considerado um dos físicos teóricos mais brilhantes de sua geração, tinha um olho clínico para talentos. Não é todo dia que alguém como ele bate no seu ombro e diz: “Que tal ajudar a construir uma arma que pode acabar com a civilização?” Claro que ele não disse isso com essas palavras, ainda mais que, na época, o projeto era tão secreto que nem todos os cientistas envolvidos sabiam direito no que estavam trabalhando. Era como um clube do livro, só que os integrantes discutiam o que estava acontecendo em algumas páginas sem efetivamente saber sobre o que era o romance.

Em 1942, quando Oppenheimer foi nomeado para liderar o Projeto Manhattan, ele começou a recrutar as mentes mais brilhantes do país para um local secreto no Novo México. Los Alamos era, essencialmente, uma cidade-laboratório construída do nada no meio do deserto; imagine uma startup de tecnologia, mas com físicos nucleares e um orçamento militar ilimitado mas sem vídeo-game e piscina de bolinhas.

Mastick chegou a Los Alamos na primavera de 1943, aos 23 anos, provavelmente achando que estava entrando na aventura da sua vida. E estava mesmo, só que não da forma que imaginava. Praticamente da noite para o dia, Los Alamos se transformou numa cidade universitária de fronteira, com cientistas e suas famílias, junto com equipamentos de física nuclear, incluindo dois Van de Graaff, um acelerador Cockroft-Walton e um cíclotron.

Na divisão de química, Mastick foi designado para estudar as reações do plutônio, aquele elemento simpático que havia sido descoberto em 1940 e que era tão raro quanto cordialidade em rede social, cujos efeitos ninguém sabia qual era (estou falando do plutônio, o da falta de cordialidade em rede social a gente já sabe quais são). Em 1944, todo o suprimento de plutônio de Los Alamos consistia em 10 miligramas. Para ter uma ideia da quantidade, isso é menos do que um grão de arroz pesa. Um grão de arroz extremamente caro, altamente radioativo e potencialmente capaz de matar você de formas criativas e desagradáveis. Mas ninguém sabia de tudo isso.

O trabalho era feito numa escala microscópica, literalmente; tudo sob microscópio, com instrumentos delicados, mãos firmes e, presumivelmente, muita oração para santos padroeiros de químicos (no Brasil é o Beato Francisco de Paula Castelló i Aleu, mas oficialmente, é Santo Alberto Magno o padroeiro dos cientistas, especialmente daqueles que estudam ciências naturais. The more you know).

E então chegou aquele fatídico 1º de agosto de 1944, quando nosso jovem herói de 23 anos (e sabemos muito bem que jovem só faz jovenzice) estava tentando aprender sobre as propriedades desse metal radioativo. Mastick estava trabalhando com uma amostra de plutônio selada em um vidro de vários centímetros de comprimento e pouco mais de meio centímetro de diâmetro.

Agora, imagine a cena: você é um jovem químico brilhante, trabalhando com literalmente todo o suprimento de plutônio dos Estados Unidos, numa sala de laboratório no meio do deserto do Novo México, ajudando a criar uma arma que pode mudar o curso da história. A pressão já é considerável. E então…

CRACK!

Sem que Mastick soubesse, uma reação química estava causando pressão dentro do pequeno vidro. O frasco explodiu bem na cara dele, espalhando plutônio líquido como se fosse uma piada cruel do Universo. Parte do material radioativo foi diretamente para sua boca. Neste momento, Mastick experimentou algo que nenhum chef de cozinha, sommelier ou crítico gastronômico jamais havia experimentado na história da humanidade: o sabor do plutônio.

Contrariando todas as expectativas de que algo tão mortífero deveria ter gosto de amargo desespero ou morte iminente, o plutônio tinha um sabor… azedo. Apenas azedo. Como se o Universo tivesse decidido que, já que estava condenando o rapaz a ser um experimento ambulante, pelo menos não ia torturá-lo com um sabor terrível.

Depois do acidente, Mastick se encontrou numa situação única na História da Ciência: ele havia se tornado, involuntariamente, o primeiro e mais importante estudo de caso sobre os efeitos da ingestão de plutônio em seres humanos. Rastros do plutônio permaneceram detectáveis em seu corpo décadas mais tarde.

Os médicos de Los Alamos ficaram numa situação delicada. Por um lado, tinham um paciente que havia ingerido uma das substâncias mais tóxicas conhecidas pela humanidade. Por outro lado, tinham uma oportunidade científica única e sem a menor a menor ideia do que fazer, como estudar ou como analisar o que tinham à sua frente. Era como ser o primeiro médico a atender alguém que foi mordido por um dragão: você tem algumas teorias, mas nenhuma experiência prática.

A primeira tarefa de Mastick, numa ironia que faria Shakespeare corar de inveja, foi recuperar o plutônio que havia engolido. Sim, você leu corretamente. O homem que havia acabado de ingerir acidentalmente um material radioativo foi encarregado de coletá-lo de volta. Não há forma delicada de dizer isso: Mastick passou a analisar amostras de sua própria urina e fezes, numa busca científica pelos traços do elemento que havia ingerido. Não é o tipo de coisa que nos preparam na faculdade.

Não surpreende que, depois de um tempo analisando seus próprios dejetos, Mastick tenha solicitado uma transferência. É o tipo de pedido que qualquer chefe razoável aprovaria sem fazer perguntas: “Chefe, eu gostaria de parar de examinar minha própria urina radioativa, se possível”. Oppenheimer, demonstrando a sabedoria de Salomão ou talvez apenas um senso prático aguçado, o enviou junto com um grupo que estava sendo montado em Tinian, uma ilha que serviu como base de operações para o bombardeio do Japão. Como membro do Projeto Alberta, Mastick serviu como Diretor Assistente de Testes e Oficial de Operações.

O Projeto Alberta foi, essencialmente, o serviço de entrega express mais caro e mortífero da história; uma operação militar ultra-secreta criada em 1945 para transportar, montar e entregar as bombas atômicas recém-saídas do forno de Los Alamos até o Japão. O projeto estabeleceu base na ilha de Tinian, no Pacífico, transformando-a numa espécie de oficina de montagem final para o Apocalipse. Era como uma linha de produção da Ford, só que em vez de carros, eles fabricavam o fim dos tempos, e com uma margem de erro consideravelmente menor, porque não há recall para bombas atômicas. Os membros do Alberta eram os responsáveis por todos os detalhes técnicos finais: desde carregar os componentes nos aviões B-29 até garantir que as bombas explodissem na altitude e momento exatos, porque, convenhamos, depois de gastar dois bilhões de dólares (em valores de 1945) num projeto científico, a última coisa que você quer é uma bomba atômica com defeito de fabricação.

Além de tudo isso, ainda temos uma ironia atômica (desculpem): o homem que havia acidentalmente provado o ingrediente principal da bomba atômica agora estava ajudando a entregar essas mesmas bombas ao seu destino final. É como se um chef que acidentalmente provou uma receita secreta fosse depois encarregado de servir o prato no banquete mais importante da história.

Deu no que deu e, após a guerra, Mastick foi condecorado com a Medalha Estrela de Bronze por seu trabalho no Projeto Alberta. Ele também ajudou nos testes nucleares no Atol de Bikini. Mesmo porque, quando você já provou plutônio, observar explosões nucleares no Pacífico parece uma progressão natural de carreira para uma aposentadoria confortável e sem grande stress.

Em 1950, Mastick obteve seu PhD pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e trabalhou em pesquisa radioquímica no Laboratório de Defesa Radiológica da Marinha dos EUA. Em 1951, juntou-se à Comissão de Energia Atômica, onde serviu como consultor científico e gerente da Divisão de Aplicações Militares. Mas talvez a reviravolta mais surpreendente na vida de Mastick tenha acontecido depois de décadas lidando com substâncias que podiam vaporizar cidades inteiras. Em 1971, ele fundou sua própria empresa de paisagismo interno, a Foliage Plant Systems, junto com sua esposa. Não é o tipo de coisa que a gente espera ser o fim de carreira de alguém que trabalhou com Kabum Atômico, mas a Realidade não está preocupada com o que eu e você achamos que deva ser.

Há algo profundamente poético nisso. Depois de uma carreira inteira lidando com a morte atômica, Mastick escolheu passar seus últimos anos profissionais promovendo vida — pequenas plantas verdes que purificam o ar e alegram escritórios. É quase como se ele estivesse compensando o Universo, uma folha de vez.

Donald Francis Mastick morreu em 8 de setembro de 2007, aos 87 anos, tendo vivido uma vida longa e aparentemente saudável, apesar de ter plutônio detectável no corpo por décadas. Sua longevidade é, por si só, uma pequena vitória contra as expectativas sombrias que rondaram seus primeiros anos pós-acidente.

A história de Mastick é, simultaneamente, cômica e trágica, bizarra e profundamente humana. Ele representa uma geração de cientistas que se encontraram na posição extraordinária de lidar com forças que transcendiam completamente a experiência humana anterior. Eles estavam, literalmente, fazendo Ciência enquanto a inventavam.

Mais importante ainda, Mastick nos lembra que por trás dos grandes eventos históricos – a construção da bomba atômica, o fim da Segunda Guerra Mundial, o início da era nuclear – havia pessoas reais, com medos reais, acidentes reais e, sim, experiências gastronômicas reais com elementos que nenhum ser humano deveria jamais provar.

Em um mundo onde tendemos a mitificar os cientistas do Projeto Manhattan como figuras quase sobre-humanas, a história de Donald Mastick nos traz de volta à realidade: eles eram humanos, cometiam erros, e às vezes esses erros envolviam comer acidentalmente ingredientes de bombas atômicas. E se isso não é uma metáfora perfeita para a condição humana – nossa capacidade extraordinária de descobrir coisas incríveis e nossa tendência igualmente extraordinária de tropeçar espetacularmente no processo – então o que seria?

No final das contas, Donald Mastick, um dos Grandes Nomes da Ciência, não foi apenas o homem que comeu plutônio. Ele foi o homem que provou que, mesmo no projeto científico mais sério e consequente da História, ainda há espaço para o absurdo, o acidental e o profundamente humano. Seu acidente abriu janelas para a pesquisa científica num campo totalmente novo, ainda que de forma inesperada.

E, convenhamos, isso torna a história toda muito mais interessante do que qualquer livro de física nuclear jamais ousou ser.

2 comentários em “A história do homem que comeu plutônio

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