Grandes Nomes da Ciência: o Homem Velho de Croghan

O Irlandês levantou cedo, como era de seu costume. Tomou um modesto café da manhã, embora estivesse acostumado a boas refeições, ergueu seu corpanzil, ajeitou a tira de couro trançado em seu braço – um símbolo de status que lhe era digno – e saiu de casa; para fazer o que, ninguém sabe, mas saiu. Saiu e era aguardado. Sorrateiramente aguardado.

O Irlandês foi atacado. De surpresa! Ele tenta se defender, se machuca até que uma facada em seu peito é fatal e ele cai, vencido. Seus algozes não terminaram aí. Cortam-lhe fora a cabeça, como se por ordem da Rainha de Copas, partem seu corpo ao meio e jogam o corpo do Irlandês vencido no pântano. O motivo do crime? Ninguém sabe. O Irlandês lá ficará por anos, décadas, séculos, milênios… até ser descoberto.

Seanfhear Chruacháin foi o nome que deram a um corpo encontrado em maio de 2003. Não é bem um nome próprio. Este termo significa apenas “O Velho Homem de Croghan”, e este nome é por causa do lugar onde foi encontrado: na Colina Croghan, no Condado de Offaly, na República da Irlanda. O Coroa de Croghan, como doravante irei chamar, foi encontrado quando alguns trabalhadores estavam limpando uma vala de drenagem através de um pântano.

O corpo encontrado no pântano era estranho, pois não parecia um defunto comum, se é que existe isso que podemos chamar de “defunto comum”. O achado foi comunicado às autoridades, que chamou a quem de direito: pesquisadores, e isso chamou bastante a atenção, já que, em fevereiro daquele ano, outro corpo fora achado em um pântano; no caso, o pântano de Clonycavan, no Condado de Meath., e este corpo ficou conhecido como Clonycavan Man, ou Homem de Clonycavan, sobre quem não falarei mais.

O que podemos dar atenção (ok, não merece tanta atenção assim, mas falarei assim mesmo), é que Croghan Hill e Clonycavan estão separados por cerca de 40 km, e eu nem sei por que todo mundo faz a correlação entre os dois. Talvez por ambos terem sido encontrados em pântanos numa distância não muito longe, mas devemos lembrar que no tempo que eles viveram, essa distância era, sim, pronunciada para quem dependia de cavalos ou mesmo andar a pé, mesmo.

De qualquer forma, a descoberta desses dois corp… pessoas. Eram pessoas. Não apenas corpos. Eu olho para estas notícias e elas traduzem algo frio, como se fosse um pedaço de carne, mas não é bem assim, por motivos que vocês saberão daqui a pouco. Pelo sim, pelo não, isso iniciou um projeto chamado Bog Body Research Project (Projeto de Pesquisa Corpos do Pântano), conduzido pelo Museu Nacional da Irlanda.

Este projeto examinou e documentou cientificamente os restos humanos em questão usando uma equipe multidisciplinar de não menos que 35 especialistas internacionais, de diferentes expertises e vasta experiência no campo da pesquisa de corpos de pântano, trabalharam em conjunto com a equipe da Divisão de Antiguidades Irlandesas e do Departamento de Conservação do Museu. E assim começou-se o trabalho.

Uma ampla variedade de análises foi realizada, incluindo: tomografia computadorizada e ressonância magnética, análise paleodietética (o que as pessoas comeram enquanto estavam vivas), impressões digitais, análise histológica (tecidos do corpo, e não estou falando de tecido de roupa) e análise patológica (para saber de qual enfermidade ele sofria). Parte dessas análises foram dificultadas porque o Coroa de Croghan não estava completo. Ele não tinha cabeça e nem a parte abaixo do tronco, mas o que sobrou nos disse muita coisa.

Para princípio de conversa, ele não era pobre nem tinha vida difícil. Como sabemos? Pelas unhas, lindamente manicuradas. Não é o tipo de unha de um trabalhador rural braçal.

Tomando por base a extensão de seu braço, o Coroa de Croghan devia ter cerca de 1,98 m de altura, o que é considerado excepcionalmente alto para o período em que ele viveu, entre cerca de 362 e 175 A.E.C., o auge da Idade do Ferro Celta. Neste período, a Irlanda não era um país único, mas cerca de 150 reinos diferentes, cada um com seu próprio governante, quando nem o Império Romano tinha ido lá mandar a Pax Romana. Entrando no campo da especulação, é provável que o Coroa de Croghan pode muito bem ter sido um desses governantes, mas pode ter sido apenas alguém abastado, um dono de terras, um nobre ou qualquer um com dinheiro. Não sabemos e é muito pouco provável que algum dia descobriremos.

A análise de seu cabelo e unhas mostrou que ele comia carne regularmente, algo bem fora do comum para pessoas pobres, mas não para as mais abastadas. Carne sempre foi um luxo, a ponto da caça, não raro, ser proibida para alguém que não fosse da nobreza, muitas vezes punida com a morte. Tendo uma dieta bem mais rica, não admira que a altura fosse mais pronunciada, mas devemos lembrar que esse número (1,98m) é uma especulação com base nos braços. Pode ser, pode não ser, mas muito dificilmente ele seria baixo. A última refeição foi composta de cereais e soro de leite. Não se sabe a que horas, mas desconfia-se que era uma refeição ritual, posto que a a compleição era de alguém que não comia só isso.

Em torno de um dos braços, o Coroa tinha uma braçadeira de couro trançada e um amuleto de bronze coberto de suportes decorativos de liga de cobre representando o Sol, que está associado à realeza das tribos celtas na Irlanda. Além disso, nota-se que a braçadeira é decorada no “estilo continental da moda”, o que pode indicar ligações entre a Irlanda e a Europa continental.

Ele tinha uma ferida defensiva em seu braço esquerdo, onde ele pode ter tentado se proteger, mas acabou sendo amarrado por um ramo de avelã, enfiado através de buracos em seus braços, esfaqueado no peito, atingido no pescoço, decapitado e cortado ao meio. Não pouparam nem os mamilos dele, já que foram cortados fora. Pessoal devia estar muito insatisfeito com alguma coisa que ele fez ou deixou de fazer; mas tem uma explicação: antigamente, nos reinos que hoje é a Irlanda, os mamilos de um rei simbolizavam o sol que dá vida. Chupar os mamilos do rei era um sinal de submissão. Arrancar os mamilos era uma forma de dizer “você não manda mais nada aqui, cara!”.

Mas por que fizeram isso tudo? Tudo bem que não era um tempo muito agradável ou seguro, mas porque TUDO isso? A resposta é ninguém sabe, mas especula-se que o Coroa de Croghan tenha sido vítima de sacrifício ritual, embora é muita especulação. Não se sabe realmente e isso não passa de uma opinião, embora a Ciência tenha que passar por estas ideias, que a gente chama de hipótese. O que se sabe, mesmo é que ele foi vítima de um assassinato extremamente violento.

Mas como o corpo ficou preservado?

Como falei no artigo sobre mumificação, a grande questão é impedir os tecidos entrarem em contato com agentes decompositores e principalmente oxigênio. Sendo enterrado na lama, ela endurece e bloqueia a ação de ambos. Com o tempo, as chuvas e a erosão, o corpo acaba voltando à tona, revelando seus segredos.

Segredos de um passado violentos, ainda que não saibamos por que aconteceu o que aconteceu.

Enquanto isso, o Homem Velho de Croghan estará lá, com seu mistério particular desafiando nossa ciência e perspicácia, fazendo-nos exercitar nossa capacidade de análise e investigação em busca da verdade. Por isso, o Homem Velho de Croghan pode muito bem ser listado como um dos Grandes Nomes da Ciência.

2 comentários em “Grandes Nomes da Ciência: o Homem Velho de Croghan

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s