Como remédios e tratamentos eram receitados de boca em boca

O Brasil é um dos campeões em automedicação. Normalmente, as pessoas não gostam de ir a médico. Ok, eu também não gosto, mas vou assim mesmo. Alguns não gostam e não vão, dando preferência por pegar indicações de tratamento com os conhecidos; com isso, pegam receitas e indicações de remédios e vão na farmácia comprar. Sim, eu sei o que você está pensando: alguns remédios precisam de receita médica, mas você sabe muito bem que sempre se tem uma amiga que consegue fácil mediante uns conchavos. Só que isso não é nenhuma novidade, ainda mais se formos para o passado, em que médicos eram raridade; ter dinheiro para pagar médicos, mais ainda! Então, como as pessoas se tratavam?

Na base do crowd sourcing.

Crowd sourcing – ou no bom português: dica dozamigu – era muito comum em tempos antigos, como no século XVIII ou antes. O motivo é que era muito raro médicos terem consultórios, e se tivessem, era mais raro ainda pobres poderem pagar por uma consulta. Havia os médicos itinerantes, e alguns nem médicos eram, se é que você me entende. Alguns faziam barba, cabelo, bigode e extraíam um dedão podre, mas falarei sobre cirurgiões-barbeiros um outro dia.

A verdade é que todo mundo era fonte de conhecimento de todo tipo, incluindo conhecimento médico e farmacêutico, indo desde amigos e vizinhos, até ministros religiosos e até mesmo membros da nobreza que compartilhavam receitas, remédios e uma ajudinha financeira se fosse o caso. Nem todo nobre era um orco explorador. Muitos tinham áreas em suas terras só para cultivar ervas medicinais para distribuir para os pobres. Não era uma regra, mas também não era raro.

Algo que também era muito compartilhado eram receitas médicas e ingredientes para fazer remédios, ou mesmo os remédios prontos. Alguns até vendiam os remédios, o que não era nada incomum que alguns desses remédios não passavam de alguma pasta ou unguento. Alguns até funcionavam, como caldo de carne ou canja de galinha, que junto com cutela não faz mal a ninguém. Já outros vendiam óleo de cobra, e aí era tão enganação que óleo de cobra (ou Snake Oil) virou sinônimo de alguma beberagem ou pseudoremédio que promete curar tudo, de dor nas costas a impotência, câncer, COVID ou troço, treco, piripaque e congestão.

Caixeiros viajantes vendiam misteriosos remédios secretos de porta em porta. As tradições médicas foram transmitidas de mãe para filha através das gerações. Não raro, as primeiras enfermeiras eram mulheres, e continuou assim por muito tempo, até que a enfermagem passasse a ser uma profissão com formação e treinamento e não apenas alguém auxiliando.

Muitos ingredientes no curry em pó, incluindo açafrão e cominho, têm sido usados para fins medicinais há milhares de anos. Originalmente da Índia, o curry foi introduzido na Grã-Bretanha através das rotas comerciais da Rota da Seda. Curry começou a aparecer em livros de receitas britânicos a partir da década de 1740. Mais à frente, ele reapareceria como um milagre medicamentoso, mas ainda é cedo para se falar disso.

Esses livros domésticos continham receitas de alimentos, remédios e tarefas domésticas. Eles foram escritos sem qualquer distinção clara feita entre essas categorias e os alimentos eram frequentemente usados como uma forma de remédio. Os livros de receitas eram geralmente de propriedade de mulheres de classe média ou alta, porque elas teriam que ser completamente alfabetizadas, o que não era muito corrente nem para homens, quanto mais para mulheres.

Muitos ingredientes que sempre foram usados para alimentos (seja na forma do próprio alimento como especiarias, temperos ou ervas) eram usados como remédio. A “Tintura Composta de Ruibarbo”, por exemplo, usava ruibarbo (duh!), alcaçuz, açúcar mascavo e passas. Não é especificado, mas esta receita provavelmente foi usada para esvaziar os intestinos, porque o ruibarbo era um laxante comum.

Aliás, uma coisa digna de nota é que sempre querem a participação de mais mulheres em vários ramos de atividades para ter uma equiparação de sexos e ter quantidades iguais de homens e mulheres, mas curiosamente ninguém diz que é preciso ter mais homens nas vagas de enfermagem, que são majoritariamente ocupadas por mulheres. Da mesma maneira, profissionais de saúde e educação são majoritariamente mulheres, e o percentual é muito, mas muito maior que homens. Mas isto é um adendo, você pode pular esta parte que não fará muita diferença no assunto do artigo, mas como você já leu, sinto muito. Continuemos, pois agora ficará mais interessante.

Parênteses.

Nos países anglófonos – em especial Inglaterra e Escócia –, existiam as fishwives. A rigor, eram peixeiras, mas este era o termo da época. Atualmente, o termo é “fishmonger”, válido para homens e mulheres. Sim, elas pegavam e vendiam peixe; mas, mais do que isso, elas usavam os peixes para fazer pastas e unguentos (alguns não muito cheirosos porque… peixe, né?). a mesma coisa eram as oysterwive (vendedoras de ostras). Elas eram figuras comuns nas ruas de Edimburgo no século XVIII, por exemplo. A estação de pesca mais próxima do centro da cidade ficava em Newhaven, e as mulheres caminhavam de Newhaven até a Cidade Velha de Edimburgo carregando as embalagens com cremes de peixe nas costas. É uma distância considerável para quem ia a pé (cerca de 3,8 km), ainda mais carregando peso. Hoje você faz em cerca de 8 minutos (fica a 3,8km), de carro.

Fecha parênteses.

Entre o início do século XVIII e o século XIX, as ostras eram tão abundantes que eram comidas extremamente baratas. Eram comidas em tais quantidades que geravam muito lixo sob a forma de conchas que eram jogadas fora de qualquer jeito. Aliás, a sede do Banco da Escócia fica em cima de um monte gigante que outrora era formado por conchas de ostras descartadas. Atualmente, este lugar abriga o Museum on the Mound, um lugar que recebe visitantes e é responsável pelo dinheiro que está em circulação, cunhagem de moedas e toma conta da Economia escocesa. As ostras eram tão populares que um ato do parlamento foi aprovado em 1840 que criminalizou o roubo de ostras da pesca. A punição para o crime foi de prisão por um ano.

Não apenas a parte carnuda da ostra era usada como remédio. As conchas eram usadas sob a forma de pó aliviar a azia e acidez no estômago, o que não é de se espantar hoje quando sabemos que as conchas são feitas de carbonato de cálcio, que reage com ácidos liberando gás carbônico (no caso dos remédios, vinha um arrotinho responsa), embora na época ninguém sabia como ou por que funcionava. Só sabiam que funcionava.

Hora de outro parêntese.

Você deve estar se perguntando o porquê de “wife” depois de fish e oyster. Simplesmente porque as palavras podem ter mais de um significado e “wife” não é apenas “esposa”. Pode ser “amiga” ou simplesmente “mulher”, porque a raiz etimológica de “wife” é wif, do inglês arcaico, que significa “mulher”. Por isso, você tem midwife (parteira), cujo prefixo “mid” é a preposição “com”, ou seja, “midwife” significa “com a mulher” ou “acompanhante da mulher [enquanto dá à luz]”.

Mas calma, nem tudo é lisonjeiro. Fishwife (ou fishmonger) também poderia denotar uma mulher que grita muito, fala com voz irritante e arruma confusão; ou, no popular, “barraqueira”. Já oysterwife, oystergirl ou oysterwench, tinham outra conotação. Eram prostitutas. Motivo? Elas vendiam “ostras”. Ostras eram (ok, ainda são, principalmente em inglês) o apelido não muito educado para o órgão genital feminino. A correlação de ideias fica ao seu cargo, agora.

Fecha o tio, cunhado, irmão, primo e demais parênteses.

Em fins da Era Moderna e Início da Era Contemporânea, muito mais medicamentos receberam patentes reais do que qualquer outra invenção. Qualquer um poderia obter patente para um medicamento, tendo em vista que a sua fórmula tinha que ser única, mas não havia necessidade de provar que funcionava. Os oportunistas lucraram com a popularidade dos remédios caseiros e do autodiagnóstico para criar medicamentos pré-fabricados que poderiam ser comprados para uso doméstico.

Boticários começaram a vender curry em pó e os médicos estudaram suas propriedades medicinais. Uma publicação vitoriana, publicidade disfarçada de texto médico, estabelecia que o curry apresentava propriedades e qualidades saudáveis e medicinais. Seu autor afirmou que ele era um estimulante anti-bilioso, anti-espasmódico, anti-flatulento, calmante e revigorante. Com a hipérbole habitual da publicidade vitoriana, o texto afirmava que o consumo de curry poderia acabar com a pobreza na Grã-Bretanha e salvar as vidas daqueles que tinham sido “levados à beira da sepultura”, só faltando dizer que ia livrar o mundo das cáries. Pura enganação!

Para os ricos, a mistura doméstica de medicamentos pode envolver longos períodos de preparação e métodos complexos de destilação. Para os médicos menos abastados, a simples era a forma mais comum de tratamento. Simples eram itens que geralmente eram comuns à casa ou facilmente adquiridos localmente, e que eram tomados puros, sem misturá-los com qualquer outra coisa.

Com o passar do tempo, mais pessoas chegavam à classe média e, com isso, houve um aumento do consumo, já que mais pessoas tinham condições de se tratarem em médicos formados e comprar medicamentos pré-fabricados nas lojas. Boticários vendiam esses medicamentos, mas também livreiros, cabeleireiros e até mesmo papelarias. Os remédios estavam baratos com a industrialização e o aumento do poder de compra acarretou num boom de vendas.

Muitas vezes, o conteúdo desses medicamentos patenteados permaneceu o mesmo que suas versões caseiras anteriores. Ruibarbo, alcaçuz e hortelã eram ingredientes comuns. Itens importados do exterior também foram cada vez mais incluídos, incluindo açúcar, chocolate, especiarias e plantas.

Ao longo dos séculos, o uso de plantas medicinais e remédios caseiros vem sendo uma prática comum entre muitas culturas diferentes. No entanto, com o tempo, essas receitas antigas de remédios têm sido esquecidas, e hoje em dia muitas pessoas tendem a recorrer a medicamentos sintéticos para seus problemas de saúde, quando poderiam fazer uso de medicamentos fitoterápicos, sejam industrializados ou não, dependendo do problema de saúde.

Com isso, houve outro boom: os livros de receitas caseiras, que basicamente era uma compilação do que se falava de boca em boca, só que algum esperto compilou, botou no papel, organizou e mandou para os jornais, sendo cada dia publicado uma receitinha de algum remédio show de bola. Sucesso imediato! Mas calma que a coisa ia melhorar, ainda mais porque o mercado impresso estava prosperando na Inglaterra do século XVIII e a proliferação de jornais deu aos colecionadores de receitas a oportunidade de se envolver com conselhos publicados colando papel de jornal em seus manuscritos.

Alguns indivíduos, alternativamente, copiaram conselhos em suas coleções. Certamente, nem todo livro de receitas do século XVIII inclui informações médicas de jornais. Mas as coleções que têm papel de jornal mostram disposição por parte do compilador de se envolver com uma forma popular de mídia e abraçar, ou pelo menos considerar, inovações na medicina comercial como parte da saúde doméstica e da tradição de colecionar receitas.

Muitas destas receitas ancestrais de remédios são baseadas nos conhecimentos que as pessoas tinham a respeito de plantas (medicinais ou nem tanto assim), usadas há séculos para curar doenças. Outra vantagem dessas antigas receitas é que muitas delas são fáceis de preparar e usar em casa. Por exemplo, os remédios à base de chá são uma prática comum usada para aliviar problemas como constipação, problemas de pele e dores musculares. As antigas receitas de remédios ainda têm muito a oferecer. Embora não substituam os medicamentos prescritos por um profissional médico, elas podem ser usadas para tratar uma variedade de doenças ou, pelo menos, os sintomas.

Isso, claro, não implica que chá de alho vai curar câncer. Não vai. Ainda assim, vale a pena lembrar que as receitas antigas de remédios ainda oferecem uma variedade de benefícios; como por exemplo, elas podem ser usadas para tratar desde dores de cabeça e constipação até problemas de pele e dores musculares, só se lembrando do velho adágio: ao persistirem os sintomas, procure seu médico.

Um comentário em “Como remédios e tratamentos eram receitados de boca em boca

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s