Lago ácido, quente, venenoso e mortal. Que lugar melhor para se ter vida?

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Astrobiologia é um ramo… interessante. Ele estuda algo que não se sabe se existe: vida em outros planetas, em outros sistemas, em algum lugar da galáxia. Sim, eu sei que parece coisa de maluco, mas há de se começar a pesquisa de alguma forma, e isso é feito achando lugares esquisitões aqui na Terra que sejam semelhantes a outros lugares em outros planetas. É aquele pensamento: “se encontrarmos algo vivo aqui, em Marte será fichinha”. Alguns desses lugares pesquisados são lagos vulcânicos, que são quentes, fedidos e tóxicos (não necessariamente nesta ordem).

Por falar em lagos vulcânicos, um grupo de pesquisadores descobriu micróbios vivendo em um, e eles estão traçando um paralelo nos dias antigos de Marte.

O dr. Brian Hynek é professor adjunto do Departamento de Ciências Geológicas e pesquisador associado do Laboratório de Física Atmosférica e Espacial, ambos da Universidade do Colorado. Alguns dos principais interesses de Hynek são pesquisas a respeito da história geológica, hidrológica e climática do planeta Marte e todas as coisas se relacionam com estes temas. Sendo assim, e levando em conta que o Uber pra Marte anda meio carinho, Hynek colocou sua equipe para catar outros lugares que fossem semelhantes.

Laguna Caliente (ou lago quente) é um dos lagos que se situam no topo do vulcão Poás, um estratovulcão ativo de 2.708 metros no centro da Costa Rica, dentro do Parque Nacional do Vulcão Poas. Um estratovulcão é um vulcão em forma de cone, formado pelo magma extravasado. Conforme vai ocorrendo as erupções, mais a montanha ganha a forma de cone, já que a lava extravaza e escorre pelas paredes da montanha.

O Poás é bem ativo. Ele já entrou em erupção 40 vezes desde 1828, incluindo abril de 2017, quando visitantes e moradores tiveram que ser evacuados com urgência, ou a coisa ia esquentar pro lado deles, e como esta válvula de pressão terrestre não é confiável, a ida ao vulcão e ao parque ao redor estão fechados por tempo indeterminado, com um perímetro de segurança de 2,5 quilômetros ao redor da cratera. Tem que ser muito maluco pra ir naquela insanidade de lugar.

Ok, você pode pensar que Laguna Caliente, por ser um lago, é um oásis naquela desolação fumegante. Enganou-se redondamente. Laguna Caliente está a uma altitude de 2.300 m em uma cratera de aproximadamente 0,3 km de largura e 30 metros de profundidade. É um dos lagos mais ácidos do mundo! A acidez varia após a chuva e mudanças na atividade vulcânica, chegando a atingir um pH de quase zero, mas chuvinha muda pouca coisa. Se você prestou atenção nas aulas do ensino médio, a escala de pH é logarítmica. Sendo assim, para passar de pH zero para pH 1, seria preciso dissolver o lago com 10 vezes a sua capacidade com água destilada. Este lago é praticamente um açude feito com ácido sulfúrico, lindamente aquecido a temperaturas próximas à ebulição.

Tá ruim o bastante pra você? Calma que piora!

O fundo da Laguna Caliente é formado por uma bela camada de enxofre líquido, com óxidos de enxofre diluídos, o que mantém o sistema químico formando ácido sulfúrico. Tá ruim o bastante? Calma que piora. Os gases escapam para a atmosfera. Lembra da parte que se chovesse, teria que ser em uma quantidade dez vezes maior que o volume do lago para o pH se alterar um uma unidade? Pois é, não vai acontecer, já que a umidade atmosférica se mistura com os óxidos e o que chove é mais ácido, mesmo. Toda a região é coberta por uma nuvem de ácidos em suspensão e, por isso, não tem plantinhas bonitinhas, nem florzinhas. Aquilo foi um trabalho muito bem feito de Morgoth para mostrar aos meros mortais o que significava estar de mau-humor. Chegar lá sem roupas apropriadas é garantia de irritação dos olhos e pulmões, além de queimaduras severas na pele. Tipo o que aconteceu com os colaboradores do Hynek, aquelas mulas!


Vai encarar?

Eles foram lá coletar amostras de água da referida lagoa para saber se algo que não tenha nascido nos Pântanos Mortos conseguiria sobreviver ali. Motivo? O local é bem parecido com o que era Marte há muito tempo. S[ó é melhor que Vênus porque a Lagoa Caliente não é tão caliente ao ponto de chegar aos 500ºC.

Já de volta pro laboratório (e alguns pesquisadores indo pro hospital) Hynek e seu pessoal escanearam as amostras de água do lago para determinação de DNA. E não é que eles descobriram a assinatura da bactéria Acidiphilium cryptum, lá? Pois é, esta bactéria gram-negativa heterotrófica adora aparecer em locais muito ácidos. É a prova que seres podem aparecer em vários locais, mesmo os mais inóspitos do planeta. Tudo isso como obra e graça de um projetista inteligente, que teve esta excelente ideia, por motivo nenhum, apenas para tirar onda que é inteligente, afinal, tudo tem um motivo oculto que Deus, digo, o Projetista Inteligente que não é Deus (afinal, Criacionismo não é uma religião) decidiu fazer.

Nah, nada disso. De inteligente este “projeto” não tem nada.

Então, o raciocínio é: se tem uma bacteriona badass capaz de viver num lago hiper-ácido e quente pra caramba, então, pode haver seres vivos nos locais mais inóspitos dos planetas mais horríveis de se morar, como Marte há milhões de anos, Vênus hoje e a Cidade de Deus. É uma tese interessante, mas há uma pequena falha: estas lindinhas do gênero Acidiphilium não apareceram por mágica. Precisou alguns bilhões de anos de evolução biológica, e a história da formação da Terra não vai ser repetida absolutamente igual em outros lugares. O surgimento da vida não será (totalmente) igual e o processo por seleção natural pode sofrer vieses aleatórios que aniquilem tudo o que estava desenvolvendo no local e só a Terra passou por várias extinções em massa. Isso significa que se deve jogar tudo pro alto e desistir? Óbvio que não, mas deve-se manter os pés no chão e aceitar que, sim, extremófilos sempre dão um jeito. Mas isso não significa que teremos vários deles por aí. Afinal, algum planete teria que desenvolver vida primeiro. Por que não o nosso?

A pesquisa foi publicada no periódico Astrobiology.

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Sobre André Carvalho

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