Curiosity identifica vestígios da existência de oxigênio gasoso em Marte antigamente

Oxigênio, enquanto elemento, não é bem uma raridade no universo. Tê-lo em forma gasosa é. O problema do oxigênio é ser o elemento com a segunda maior eletronegatividade (o maior é o flúor, como você não se lembra das aulas de Química no colégio). Isso faz com que ele seja muito reativo e oxidante; e aliás, o termo oxidação veio dele, até descobrirem que várias substâncias oxidam as outras, isto é, roubam elétrons.

Uma das grandes dúvidas era saber se Marte teve atmosfera com oxigênio. Sempre se imaginou que sim, através de evidências indiretas, como os tons avermelhados das rochas e solo marciano, devido à presença de óxido de ferro. Aquelas rochas vieram de algum lugar, claro. Ação do ferro com o oxigênio gasoso? Ou a formação dessas rochas se deu durante a acreção do planeta? Bem, uma recente pesquisa mostra que, sim, há evidências diretas que o Planeta-Guerreiro já teve oxigênio em sua atmosfera.

A drª Agnes Cousin-Pilleri trabalha no Laboratório Nacional de Los Alamos, EUA. Diferente do que você possa pensar, ela se diverte com algo muito legal: o robô Curiosity, mas não é sendo babá de robô. A parte que ela trabalha é REALMENTE a melhor parte: dar tiros de lasers em pedras. O que poderia ser mais divertido que pew! pew! pew! em qualquer lugar sem que alguém lhe chame de psicopata. E lembrando: tudo fica melhor com lasers.

A brincadeira começa com o ChemCam, que longe de ser alguma rede social de químicos despidos, trata-se de um equipamento composto por dois instrumentos. Um espectrômetro induzido por laser (LIBS, na sigla em inglês) e um sistema de microimageamento remoto de alta resolução (RMI). Estas gracinhas estão instaladas no Curiosity e a forma como trabalham é bem simples em toda a sua complexidade.

O LIBS é capaz de analisar composições elementares de rochas e solos em distâncias de 1,5 a 7 metros, adquirindo a sua emissão de luz e detectando a maioria dos elementos principais e muitos elementos menores, tais como lítio, estrôncio, bário e rubídio. Como? Por aquilo que você estudou no primeiro ano do Ensino Médio.

De acordo com o que foi ensinado, o postulado de Bohr diz que quando se cede determinada quantidade de energia a um átomo, o elétron que fica lá na dele orbitando na sua camadinha feliz recebe um determinado quanta de energia e pula para a órbita mais externa. Depois de um tempo, este elétronzinho safadinho e excitado perde a graça e volta para a camada de origem, devolvendo a energia recebida sob a forma de emissão eletromagnética de comprimento de onda bem definido (aka luz). Dependendo do elemento, as cores irão mudar, mas cada elemento tem a sua cor característica.

Este postulado explica porque, ao aquecermos determinadas substâncias no fogo, elas adquirem cores como verde, amarelo, vermelho etc. O melhor uso para isso que você com certeza conhece?

Em laboratório, chamamos isso de “Teste de Chama”.

Mas como o ChermCam funciona? O emissor dá 30 disparos de lasers de alta-potência na rocha a ser analisada; daí são quantificadas as abundâncias dos oligoelementos presentes, utilizando um algoritmo de mínimos quadrados parciais, que é um método de regressão linear multivariável, mediante calibração univariada utilizando um conjunto de dados de calibração de laboratório anteriormente definidos para inferir os elementos, processando áreas de pico. As calibrações são analisadas utilizando um banco de dados do laboratório, e estas calibrações são sempre melhoradas, obtendo-se sempre dados cada vez mais precisos. Simples, não?

HEEEEEEIN?

Aquela droga de robô chega, dá 30 motherfucking tiros seguidos, a câmera (que é melhor que essa porcaria de tekpix que você tem aí) capta tudo em alta velocidade e as corzinhas frescurentas são analisadas por um computador de verdade, não essa merda da Positivo que você tem em cima da mesa. Este PCzão do mal diz que bosta tem ali naquela pedra idiota. ‘Tendeu agora?

O que acontece é que o laser praticamente vaporiza a rocha. As cores produzidas, em diversos comprimentos de onda, indicam a composição do que tem ali. Removendo a camada superficial da rocha, as câmeras conseguem captar o que tem ali embaixo, protegido da erosão e reações químicas. É a versão high-tech do geólogo com seu martelinho de bolso.

A linha verde contínua representa o tiro de laser dado na rocha. A linha tracejada representa a imagem captada pelas câmeras e a imagem debaixo é como ela diferencia cada coisa. Seja alumínio, cobre ou basalto. Claro, essas linhas são uma mera representação. Você não consegue ver o laser, já que são disparos que acontecem em frações de segundo, e são invisíveis de qualquer forma. Esqueça os phasers da Enterprise.

Você é feio e chama as pessoas de idiotas. Não tem gente mais bonitinha explicando, não?

Tem: a drª Nina Lanza, que por sinal adoro a bio dela do Twitter.

As análises do ChemCam determinaram que 3% das rochas têm alta concentração de óxido de manganês. A princípio, isso significa que bastou oxigênio reagir com manganês, certo? Seria e é. O problema é que para que isso ocorresse era necessário altas concentrações de oxigênio, e tal coisa não ia acontecer no Espaço. É preciso haver água para facilitar o processo. E água no Espaço não é meio reativo, porque, não sei se você sabe, água congela em temperaturas abaixo de zero grau celsius, e o Espaço é um pouquinho mais frio que isso.

O lugar onde a rocha com o óxido de manganês foi encontrado era um antigo lago, e os pesquisadores ainda não determinaram a idade exata dela. Mas, com certeza, para este MnO2 ter sido formado, era preciso uma concentração bem expressiva de gás oxigênio nessas águas, o que só poderia ter acontecido se a atmosfera de Marte tivesse O2 em abundância.

Ok, mas o que eu faço com esse tipo de informação?

Por si só, pouca coisa, mas devemos pensar que, como dito, oxigênio é muito reativo. Ele foi o responsável pela primeira grande extinção na Terra. Talvez, e isso é apenas uma especulação minha, ele tenha sido responsável por uma grande extinção em Marte que, diferente da Terra, não separou seres vivos capazes de sobreviver. Limou tudo. Já era. Bye bye, so long.

Talvez, e apenas talvez, isso venha explicar porque não haja seres vivos em Marte e, se tivesse havido, não passou de algo semelhante a bactérias. Tem coisas que dão muito errado. Assim, o que restou foi uma assinatura química. Algo escondido em rochas esperando alguém com tecnologia para ler a história antiga, em que assassinos tentaram passar impunes, mas estamos aqui para desvender o mundo, mesmo quando não seja o nosso mundo


Fonte: New Scientist via informações do Encontro da União de Geofísica Europeia (obrigado, Sérgio. Visitem o Space Today)


Artigo publicado na Astronomy & Astrophysics

9 comentários em “Curiosity identifica vestígios da existência de oxigênio gasoso em Marte antigamente

    1. Interessante e curioso! Que tipo de vida poderia ter existido em Marte, começou parecido com a Terra, mas evoluiu de maneira diferente?!

      1. Acho que no futuro, quando desembarcamos em Marte, vamos ter muitas supresas.
        Um robo pode fazer muitas coisas la, mas nao chega nem perto do que a mente humana consegue fazer.
        Quem sabe encontremos fosseis que iriam nos mostrar que mesmo nesse cantinho obscuro do universo pelo menos em dois planetas do mesmo sistema solar a evolucao deu as caras.
        Ou podemos nao encontrar nada… o que tambem seria interessante, ja que no passado Marte era bem parecido com a Terra e vamos perguntar o que aconteceu.
        So espero estar vivo pra ver isso.

          1. “You may say, I’m a dreamer
            But I’m not the only one
            I hope someday you’ll join us
            And the world will live as one”

  1. Sem falsa modéstia, Dr. André, eu tinha entendido a presepada antes do “HEIN?”. A matemática é complicadinha (E quem liga? Temos o motherfucking Excel para resolver, muahahahaha!), mas a ideia é bem simples.

    1. Também não encontrei dificuldades de entender sobre o assunto,mas a parte depois do “HEIN?” ficou realmente muito engraçada e deu um baita de um resumo do assunto.

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