As pinturas antigas que apresentam uma cor azul mais antiga ainda

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Um dos grandes problemas na produção de corantes é que eles são muito difíceis de se obter. Antes de Perkin (algum dia teremos artigo sobre ele), os corantes eram produzidos praticamente por processo artesanal, valendo-se de produtos naturais. Antes dos corantes sintéticos, valia-se de raízes, frutos, solo e animais para se obter cores, e elas não eram em tão grande variedade. Para os artistas trabalharem, era uma dor de cabeça já na Renascença, agora imagine na Antiguidade!

Ao examinar antigos quadros, especialistas deram de cara com algo inusitado: o azul egípcio. Uma tonalidade de cor que os romanos usavam para controlar os tons de seus quadros e murais. Mas como assim azul egípcio?

Vamos falar sobre os egípcios primeiro, e isso porque eu estava falando com o Ronaldo Gogoni do Meio Bit e surgiu o assunto: os antigos egípcios tingiam suas roupas de azul? Na verdade, eu fiquei meio em dúvida, mas a verdade é que, sim, egípcios dominavam o uso da cor azul. Mas de onde vinha aquilo?

Se você prestou atenção na Natureza, encontrar plantas azuis é algo meio difícil. Tudo muito bem, mas a tumba do Rei Tutancâmon estava ornada com muitas jóias pintadas de azul. Bem, isso não é porque eram corantes, mas pigmentos. Um pigmento é uma suspensão sólida em um veículo, digamos assim, é como você colocar aquele corante Xadrez em pó (ele não dá um padrão xadrez na sua parede. “Xadrez” é o nome da marca, espertão). Análises dos pigmentos do túmulo de Perneb (cerca de 2650 A.E.C.), concluíram que o pigmento vermelho vinha do óxido de férrico, das hematitas; já o amarelo consistia de argila contendo ferro ou amarelo ocre; para se obter a cor azul, fazia-se uso de lápis lazúli triturado, enquanto que o azul claro era oriundo de minerais ricos em carbonato de cúprico, provavelmente azurita, enquanto o verde vinha da malaquita. Preto era obtido através de carvão ou ossos carbonizados.

Mas pigmentos, apesar de serem ótimos para jóias e afrescos, são uma bosta para pintar roupas. E, bem, vestígios arqueológicos mostram que egípcios tinham roupas na cor azul, mas eram raras. Isso porque era muito difícil de se fixar essas cores (como eu falei: pigmentos eram uma bosta para serem empregadas para tingir roupas). Só durante o Novo Reinado é que eles desenvolveram essa técnica. As cores da paleta egípcia eram apenas seis: vermelho (desher), verde (wadj), azul (khesbedj e irtiu), amarelo (kenit e khenet), preto (khem ou kem) e branco (shesep e hedj). Branco, claro, sempre mais fácil de se obter, por isso a maior parte das vestimentas eram nessa cor, e quanto maior o uso de cores, maior era a ascensão social. Não entendeu o motivo? Porque eram caras, meu filho. O azul era a mais cara de todas, porque o corante para tingir roupas vinha de um molusco chamado Murex brandaris (imagem ao lado) entre outros da família Muricidae, os quais produzem o famoso Púrpura de Tiro.

Como você pode imaginar, ficar esperando vômito de molusco era algo demorado, para se obter quantidades razoáveis de cor azul saía bem caro. Não é à toa que a cor azul era a cor da realeza, sendo a faixa roxa característica dos imperadores romanos. Quando os reis do Egito iam para as batalhas, eles usavam uma coroa com a cor azul, para ficar claro que ele ali é quem comandava a bagaça, mas isso foi antes do tempo que chefes de Estado se escondiam em seus palácios, mandando a peãozada se ferrar. Era o tempo que reis, para serem reis, tinham que ser machos pra cacete.

A roupa usada por homens e mulheres era feita normalmente de linho. Enquanto os homens usavam uma espécie de saiote e uma camisa, as mulheres usavam vestidos compridos que iam até o tornozelo. Alguns vestidos tinham mangas curtas, mas algumas mulheres usavam túnicas curtas amarradas sobre seus ombros.

Apesar das roupas serem predominantemente de origem vegetal, às vezes reis e rainhas usavam roupas cerimoniais decoradas com penas. Com o tempo, o Egito passou a comercializar seus corantes, e muito provavelmente foi aí que Roma tomou conhecimento de seus pigmentos e corantes, e basta um dinheiro trocando de mãos e você tem acesso a tudo.

O uso do azul egípcio como pigmento pelos romanos está sendo investigado em um conjunto de quinze pinturas do período romano de Tebtunis, Egito, atualmente encontrando seu repouso Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia, Berkeley.


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O dr. Marc Walton é professor adjunto do Departamento de Ciência dos Materiais e Engenharia na Escola McCormick de Engenharia e Ciência Aplicada na Universidade Northwestern. Ele e sua equipe trabalham usando as mais modernas tecnologias para estudar… arte. Enquanto o pessoal de Humanas fica com intermináveis blábláblás, Mary Ellen Marc mete a mão na Ciência, dá na cara de todo mundo e analisa obras de arte mais antigas que a sua avozinha, retratos antigos, expressões de famílias antes que selfie fosse moda. O que o tio Bob Marc descobriu foram os pigmentos utilizados pelos artistas, a ordem de como as tintas foram aplicadas e em quais regiões, inclusive determinando o estilo de pinceladas que usaram. Os detalhes dos pigmentos e sua distribuição levou os pesquisadores a concluir que três das pinturas analisadas vieram da mesma oficina e podem, mesmo, terem sido pintados pela mesma mão, dado o estilo de pincelada usada.

Claro, estamos falando de pinturas com dois milênios. Todo cuidado é pouco. Assim, o lance foi usar um método não-invasivo, isto é, “tocar” na pintura sem tocar na pintura. Para tanto, foi usada a técnica de infravermelho próximo, isto é, emissões infravermelhas com comprimento de onda bem próximo do vermelho (que se situa na faixa entre 625-740 nanômetros).

Bem, o “azul egípcio” empregado tem uma peculiaridade: ele apresenta forte resposta de luminescência quando submetido ao IV próximo, mas imagino que os antigos romanos não sabiam disso. Era na base de tentativa e erro, mesmo, mas o resultado final era impressionante, mesmo sem ninguém saber direito o motivo.


A técnica se baseia na excitação (êpa!) e emissão de energia. Os pesquisadores “Iluminam” a pintura com o IV próximo, e analisam como a pintura reage opticamente. Ao fazer isso na pintura, os pesquisadores foram para suas tabelinhas para identificar o que foi usado.  Não entendeu? Vamos explicar.

Vamos supor que você impregne um papel com nitrato de prata. O nitrato de prata reage com ultravioleta. Alo bombardear uma substância com emissões eletromagnéticas de diferentes comprimentos de onda, basta ver sob qual comprimento de onda ele reagirá. Depois, é só consultar. No caso do AgNO3, você vai bombardeá-lo com luz infravermelha até amanhã, que não acontecerá nada. Meteu ultravioleta, ele ficou pretinho, bem, há fortes indícios que ali tem nitrato de prata, apesar de poder ter outras substâncias. Assim, testa-se com outros métodos e vai se construindo uma marcha analítica.

Quando olhamos para os retratos de Tebtunis, não podemos dizer, a olho nu, quais os pigmentos usados ali. Mas quando aplicaram o IV próximo, e a pintura começou a cintilar, ficou claro que ali tinha o famigerado azul egípcio. Ensaio puramente físico. Nenhum reagente foi aplicado ali, garantindo a integridade da obra.

Seis das quinze pinturas contém o azul egípcio, e pelo que ficou evidenciado, os mestres pintores empregaram o pigmento por baixo da pintura, de forma a dar “volume” na pintura, um efeito mágico que se descortina aos olhos. Claro, depois de mais de 2 mil anos, as pinturas não estão tão bonitas e resplandecentes como quando tinham acabado de secar na parede, mas mesmo hoje podemos ter uma noção, ainda que vaga, da maravilha que era quando recém-pintada.

As câmaras computacionais capturaram uma série de imagens dos retratos, sob diferentes ângulos de iluminação para analisar a forma da superfície dos objetos. Usando um algoritmo de imagem chamado estéreo-fotométrico, os pesquisadores foram capazes de recuperar medições quantitativamente de marcas de pincel e ferramentas.

O método também foi utilizado para determinar a forma como o artista camadas de tintas e para estabelecer a ordem dos vários pigmentos usados ??nas pinturas.

Sim, temos videozinho, e se eu fosse você, não perderia a oportunidade de assisti-lo;.

A pesquisa ainda está em andamento, e a cada dia descobrimos um pouco mais sobre as obras de arte de nosso avós. A Northwestern pretende uma parceria com o J. Paul Getty Museum para digitalizar e disponibilizar essas pinturas via Internet, de forma que você também possa apreciá-las. Enquanto isso, você pode dar uma checada no artigo publicado na Applied Physics


Fontes

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Sobre André Carvalho

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