Por que Hodor só diz “Hodor”? Ciência (como sempre) explica

Austrália bota quente e vai cortar benefícios de pais que não vacinam os filhos
O que são rios voadores? Como ensinar sobre isso?

Vai começar a 5ª Temporada de Game of Thrones, série que o pessoal adora por causa da literatura densa, personagens bem construídos, estilo de narrativa magnífico. Não, péra. Pessoal vê por causa das mortes e da sacanagem generalizada, mesmo. Mas, claro, eu não vou falar sobre série de TV – que não assisti um episódio até agora, nem me interesso – se não fizer alguma observação sobre Ciência junto; e o melhor exemplo, talvez, seja o caso do Hodor, o personagem que tem as melhores falas e o papel mais difícil: só falar "Hodor".

O que se pode dizer sobre Hodor? É o momento em que ficção e medicina se encontram. A Fantasia e a Realidade. E isso para além da 5ª Dimensão. Um lugar onde se abre o Livro dos Porquês.

Walder, seu verdadeiro nome, tem um probleminha nas ideias, e, por isso, só fala "Hodor".  Os "fãs" da série, tal qual John Snow, não sabem nada, nem mesmo o verdadeiro nome de Walder, cujo nome sabemos no capítulo 24 do primeiro livro das Crônicas de Fogo e Gelo: A Guerra dos Tronos, nome que batizou a série, através das palavras da bisavó de Hodor. Como quando ele foi encontrado, Hodos só sabia falar "Hodor", então, o pessoal que só ouvia Hodor dizer "Hodor" resolveu chamar Hodor de "Hodor".

Trabalhando como cavalariço dos Starks, sem ter nenhum gênio da engenharia lá, o grandão do Hodor é meio abobado, mas muito leal à família. Mas por que Hodor só fala "Hodor"? Bem, isso é explicado por uma  condição neurológica chamada "afasia expressiva".

A afasia é o nome dado à condição da perda da capacidade de utilizar a linguagem, devido a uma lesão na área do cérebro que a controla. Normalmente, as pessoas com afasia estão parcial ou totalmente incapacitadas para compreender ou exprimir as palavras. Os problemas da linguagem têm muitas formas. Uma pessoa pode perder somente a capacidade para compreender as palavras escritas (alexia), enquanto outras pessoas não conseguem nomear os objetos ou reconhecer os seus nomes (anomia). A anomia também pode ser quando não se lembra da palavra correta, vindo o fenômeno "está na ponta da língua". Já a disartria é uma perturbação da articulação da linguagem. Embora a disartria pareça um problema de linguagem, na realidade é causada por uma lesão na parte do cérebro que controla os músculos utilizados para emitir sons e coordenar os movimentos do aparelho vocal.

As pessoas com afasia de Wernicke falam com fluidez e pronunciam de maneira correta. O problema é que fazem uma algaravia com as palavras, misturando-as, mandando o significado da frase pro ralo. Mas o caso de Hodor foi descrito por Paul Broca.

Pierre Paul Broca nasceu em Sainte-Foy-la-Grande, França, em 28 de junho de 1824, filho de Benjamin Broca, um médico e ex-cirurgião a serviço de Napoleão. Como filho de peixe, Broca é, Pierre entrou para a escola de medicina em Paris, quando ele tinha apenas 17 anos (claro, contar com os favores de um imperador ajuda), formando-se aos 20 anos. Passado algum tempo, e alguns estágios, Broca com o anatomista Pierre Nicolas Gerdy, tornando-se seu assistente dois anos depois.

Em 1848, Broca fundou uma sociedade de livres-pensadores, Simpático às teorias de Charles Darwin, em que costuma-se citar que ele tenha dito algo como "eu preferiria ser um macaco transformado do que um filho de Adão degenerado", mas isso é apócrifo e pouquíssimo tem a ver sobre o que estamos falando.

Paul Broca foi o responsável pela descoberta do centro de produção da fala do cérebro, localizada na região ventroposterior dos lobos frontais ao estudar os cérebros de pacientes afásicos. Esta região foi denominada "Área de Broca".

Em 1861, Broca ouviu falar de um paciente, chamado Leborgne, no Hospital Bicêtre. Ele seria mais um sujeito pancada das ideias indo parar no hospital, mas havia algo curioso no sujeito. Leborgne vinha sofrendo perda progressiva de fala e apresentava uma certa paralisia, mas não perdera a capacidade de compreensão nem a função mental, isto é, ele conseguia entender o que lhe era dito e não era imbecil, diferente de 80% dos comentaristas de sites de notícias. Leborgne foi apelidado de "Tan", devido ao fato de só conseguir falar "tan" e mais nenhuma outra palavra. Lembraram de alguém?

Leborgne morreu poucos dias depois, e Broca realizou uma autópsia, dando principal atenção ao cérebro dele. Como previsto, Leborgne tinha uma lesão no lobo frontal do hemisfério cerebral esquerdo. A apresentação de Broca do cérebro de Leborgne à Société Anatomique (leia AQUI. Em inglês) tinha fornecido a primeira prova sólida anatômica da localização da função cerebral. E, no final daquele ano, mandaram pra ele um segundo paciente com sintomas semelhantes aos da Leborgne. Este paciente chamava-se Lelong, e era um homem de 84 anos de idade que havia sofrido um derrame no ano anterior. Por causa desse derrame, ele era capaz de proferir apenas cinco palavras:  oui, non, toi, toujours e Lelo, isto é, "sim", "não", "três" (ele não pronunciou direito "trois"), "sempre" e o seu próprio nome, pronunciado errado, também. Após análise, Broca descobriu que a lesão no cérebro de Lelong era aproximadamente na mesma região de Legorne.

Certos autores creditam a Marc Dax o pioneirismo nesse trabalho, ao estudar a mesma coisa pelo menos um ano antes. O problema é que Dax morreu logo, sem fazer maiores análises. Broca apresentou dados mais completos, já que, depois de Lebrogne, ele autopsiou cerca de 12 pacientes que tinham a mesma condição (claro, foi depois que eles morreram, engraçadinhos).

Em 2007, um grupo da Universidade da Califórnia reexaminou os cérebros de Leborgne e Lelong, metendo os dois cérebros num aparelho de ressonância magnética. O mais fascinante, é que as lesões se estendem muito mais fundo do que Broca havia relatado, sugerindo que várias regiões do cérebro foram afetadas. Mas falar isso quase um século e meio depois é mole, né?

Link pro artigo da pesquisa.

Claro, você deve estar pensando que Groot deve ser o mesmo caso. Não é, pois ele é uma árvore-alien. De qualquer forma, será que George R. R. Martin pensou nisso tudo para compor o personagem? Hodor tomou um pancadão na cabeça, sofreu um AVC ou a mãe deixou o moleque cair de cabeça? Acho que pouco importa. O importante é a empatia que o personagem traz; entretanto, se pudermos aproveitar sempre que possível para falar sobre Ciência, nós o faremos.

Hodor para todos vocês.


ATUALIZAÇÃO

O Canal MASPQ, do Jimmy John, que está produzindo vídeos de divulgação científica, se baseou neste artigo para fazer um vídeo.

Austrália bota quente e vai cortar benefícios de pais que não vacinam os filhos
O que são rios voadores? Como ensinar sobre isso?

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

Quer opinar? Ótimo! Mas leia primeiro a nossa Polí­tica de Comentários, para não reclamar depois. Todos os comentários necessitam aprovação para aparecerem. Não gostou? Só lamento!