O mundo molhado de Ganimedes

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Ganimedes já causava fascinação no século XVII, quando Galileu o observou pela primeira vez. Ele era a prova que os mundos podiam ser como a Terra (ok, não são. Mas Galileu não tinha como saber). Não somos só nós que temos "luas" (a rigor, "satélites naturais"). Júpiter, o Rei dos Planetas também tem, e não é só isso. Ganimedes é o maior satélite do Sistema Solar. Ele consegue ser maior que Mercúrio, mas é menor que a Terra. Já sabemos sobre a topologia de Ganimedes, mas agora sabemos mais.

O velhinho, mas muito eficiente Telescópio Espacial Hubble nos deu evidências de um grande oceano de água salgada nos subterrâneos de Ganimedes. É tão grande que ele pode ter mais água que a própria Terra. Mas como ele conseguiu?

Vamos logo dizendo: Identificar a água líquida em temperaturas ideais é importantíssimo na busca de mundos habitáveis ??além da Terra e para a busca de vida como a conhecemos… ou outros tipos que nós nem imaginamos. Pode ser desperdício de dinheiro para muita gente, mas o Brasil torrou 1 bilhão de reais a troco de nada, graças à sua proverbial incompetência ao zelar pelo erário público.

O dr. Joachim Saur é professor de Geofísica da Faculdade de Matemática e Ciências Naturais, do Instituto de Geofísica e Meteorologia, da Universidade de Colônia, na Alemanha. Não, não é uma universidade que faz perfume diluído.

Ele estava de bobeira com os trocentos computadores processando as imagens do Hubble quando ele imaginou "E se eu usasse aquela bagaça de outra forma?". Fora as brincadeirinhas iniciais que deve ter rolado sobre o uso do Hubble como aparelho de observação de Urano, Saur imaginou se não poderia usar o Hubble para olhar dentro dos corpos celestes. Mas como?

Obviamente, o Hubble não tem visão de raio-X… Quer dizer, tem, mas não a visão de raio-X do Super-Homem. No caso, o Hubble enxerga no comprimento de onda dos raios-X. Só que não foram raios-X o que o Hubble viu. O que ele viu foram as auroras.

Sim, isso mesmo. Assim como a Terra, Ganimedes possui um núcleo que gera um campo magnético que envolve o satélite. Eu já falei várias vezes sobre auroras aqui e como elas são formadas quando partículas emanadas do Sol são desviadas pela magnetosfera, fazendo aquele espetáculo de luz e cores. O que Saur fez foi apontar o Hubble e procurar pelas auroras. Aí é hora de botar a cabeça pra funcionar.

Sabe-se, através de medidas anteriores, que a densidade de Ganimedes não chega a 2g/cm3. Isso significa dizer que ele tem densidade pouco maior que a da água a 4 ºC (dH2O= 1g/cm3). Isso implica que ele não é feito de rocha sólida. O melhor candidato seria água ou gelo. Mas podemos provar de outra maneira?

O que Saur apostava era que a presença de um oceano salino (e isso é óbvio, pois muito dificilmente a água seria água 100% pura) afetaria o campo magnético. Esse campo magnético está… como direi?… tomando umas porradas do campo magnético de Júpiter. Modelos computacionais calcularam como seria o comportamento do campo magnético de Ganimedes com e sem a presença de um oceano, o que, claro, influenciaria no aparecimento das auroras.

O resultado deu que pela observação das auroras, o balanço magnético de Ganimedes levava a crer na existência de um grande oceano subterrâneo com sais dissolvidos. Essa camada teria cerca de 100 km de profundidade, quase 10 vezes maior que a Fossa das Marianas. Este oceano estaria enterrado numa espessa camada de gelo de cerca de 150 km., e isso demonstraria o porquê da baixa densidade do satélite.

Essa pesquisa nem é nova. Na década de 1970 já se usou a técnica de medir o campo magnético de Ganimedes para saber o que tinha em seu interior, mas por causa das limitações da tecnologia da época, não era possível fazer medições constantes, por longo espaço de tempo.

O Hubble, ainda que meio idoso, deu aos cientistas mais de sete horas de dados. Mas ao longo desses 25 anos, o Hubble se mostrou uma das mais maravilhosas ferramentas de pesquisa astronômica, com um volume astronômico (desculpem!) de dados. É fantástico viver num tempo em que podemos ver ao vivo, e em tempo real (ou quase, já que tio Einstein gosta de zuar com nossa festa) o que se passa nos confins do Sistema Solar ou mesmo da Galáxia.

Um dia o Hubble será descomissionado, mas deixará saudades. enquanto esse dia não chega, podemos apreciar todas as belezas que ele tem para trazer até nossos olhos.


Fonte: NASA

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Sobre André Carvalho

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  • EiligKatze

    O Hubble é mesmo fantástico, será que já estão providenciando a “versão 2.0” dele?

    Bruno Bastos respondeu:

    Sim. O Telescópio Espacial James Webb. Viva a ciência! o/

    Eu respondeu:

    Na verdade o James Webb não seria o “Hubble 2.0”. Seria apenas um “ajudante” pro Hubble atual. Estão começando a estudar a viabilidade de um substituto para o Hubble, li dia desses, mas preciso confirmar a info.