Como a Lua pode ser tão grande nas fotos?

Esta semana me fizeram uma pergunta sobre a Super-Lua, quando a Lua encontra-se no perigeu e eu expliquei aqui o que era isso. A pergunta era "Se a Lua não fica tão grande assim, como as fotos mostram-na muito grande?"

É uma boa pergunta, que à primeira vista pode ter um quê de misterioso, mas nada é tão misterioso quando a gente sabe o porquê das coisas. Se ao menos os Porquês estivessem organizados num livro, eu o chamaria de Livro dos Porquês, com capítulo em Óptica e Fotografia.

Vemos no site da NBC uma galeria de fotos mostrando o Perigeu em vários pontos do mundo. A Lua imensa! Gigante! E… apenas uma questão de geometria e óptica. É um efeito bem conhecido por fotógrafos (os de verdade, não quem compra um celular e sai tirando selfies feias para mandar pelo wahtsapp. E mesmo ter uma câmera megabasterultrafodona não fará de você um fotógrafo. Just saying).

A compressão de perspectiva usa propriedades da distância focal das lentes, dando efeitos muito interessantes na composição das fotos. Quando na época da Copa, as imagens geradas pela FIFA mostravam a belíssima imagem do Maracanã, totalmente iluminado, mas com o Cristo Redentor em primeiro plano. A imagem, realmente, era muito bonita.

Lindo, não é? Bem pertinho um do outro, não é? Maracanã é grande à beça, não é?

Não, não é! Quer dizer, pelo menos, é bonito. Vamos dar uma olhadinha no mapa como é a distância entre eles?

A distância entre os dois não é nada pequena e o Maracanã, apesar de ser grande, não é tão enorme assim. O que esta foto mostra? Mostra uma aulinha de como saber usar seu equipamento resulta num trabalho incrível! Vamos dar uma olhadinha em outra foto?

O Maracanã, agora, parece bem mais longe. Por quê? Por causa da distância focal da lente que você estiver usando. Quanto menor essa distância focal, maior será a distância (aparente, claro) entre o objeto em primeiro plano e o cenário em volta. Se você usar lentes com comprimentos focais maiores, a distância aparente entre os objetos parecerá menores. Mas não é só isso.

Não basta ter a lente escolhida para dar o efeito que você quer. É preciso saber a distância exata, ou você deformará o objeto em primeiro plano. Assim, fotos como os da Lua Kal-El devem ser tiradas bem longe dos objetos em primeiro plano.

Este efeito é tão legal e tão expressivo que é usado até em cinema. Hitchcock usou muito e este efeito ficou conhecido como Vertigo Effect ou Dolly Effect. O nome deriva do uso pela primeira vez em Um Corpo que Cai (Vertigo, no título original). Então, foi usado em muitos filmes.

Ele varia a posição da câmera, juntamente com a distância focal, mantendo o objeto em primeiro plano sempre enquadrado no mesmo tamanho aparente, enquanto tudo ao fundo muda. Isso é explicado pela animação abaixo:


Mais informações direto da Faculdade de Ciências Físicas e Engenharia Nuclear da República Tcheca.

Não importa que a câmera esteja se afastando dos objetos, isso é compensado pelo zoom e a abertura focal, forçando a perspectiva. Isso aliado à trilha sonora muda todo um contexto da cena e traz ao espectador elementos que de outra maneira ele não perceberia (veja na parte de Os Bons Companheiros (The Good Fellas) como você acaba prestando atenção ao cara que sai do carro, mesmo quando a câmera foca os protagonistas em primeiro plano. Você não perde nenhum dos elementos).

Mas isso não explica por que eu vi a Lua grande no céu, sem usar uma máquina fotográfica ou telescópio etc.

Claro que não explica. A explicação para isso é outra! Você conseguiu ver a lua grandona no céu – e ela estava maior, sim, no céu – mas apenas cerca de 10 a 15%. O que fez você vê-la tão grande foi basicamente por dois motivos:

1) Seu cérebro gambiarrento fez a informação. Você queria ver algo maior e você efetivamente viu maior.

2) Ilusão de Ponzo (mais uma vez, graças ao seu cérebro gambiarrento), conforme eu expliquei no primeiro capítulo publicado do Livro dos Porquês. Por que a Lua parece maior quando está próxima do horizonte?

A Lua Kal-El é algo incrivelmente bonito? Sim, o perigeu realmente é fantástico de se admirar. É mágico? Não. Inusitado? Mais ou menos, não é tão incomum assim. Podemos aprender algo com ele? Sempre! Ainda mais quando, ao invés de apenas colocar fotos muito bem tiradas por fotógrafos muito competentes, adicionamos informação sobre Astronomia, Física, Óptica, Perspectiva, História da Arte etc.

Mas sites de notícia só noticiam (mal e porcamente, claro). Se fossem para explicar, seria um blog como o meu, é claro!

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