Ruídos, mineiros, fantasmas e alucinações

No artigo imediatamente anterior, eu comecei falando sobre como a Humanidade deixou uma das maiores marcas de sua presença no mundo: poluição. Não apenas em termos de petróleo derramado, mas outro tipo de poluição: barulho. Pode-se dizer que não há mais nenhum lugar na Natureza onde em algum momento do dia não haja um som produzido por algum invento humano. Mas como é nossa relação com o barulho e outras manifestações sensoriais? O que aconteceria se vivêssemos num ambiente desprovido de sensações?

A verdade é que não evoluímos para viver em silêncio absoluto. Quando isso acontece, nosso cérebro entra em parafuso e começa a inventar coisas que não existem. Estamos, praticamente, à beira da loucura; ou, pelo menos,foi isso que alguns mineiros pensaram na década de 1930, na Alemanha. Nas profundezas da Terra, eles tinham muito pouco estímulo visual ou auditivo, só tinham a si mesmos. Eles passaram a se queixar que tinham visões, sentiam cheiros, um medo vindo dentro deles mesmos que não sabiam explicar.

O dr. Wolfgang Metzger, psicólogo nascido em Heildeberg, Alemanha, resolveu estudar o caso. Os relatos eram sempre os mesmos e Metzger achou que isso tinha a ver com o isolamento e privação de estímulos externos, onde o cérebro, aquele malandrinho, aprontava das suas. Assim, Metzger idealizou o experimento Ganzfeld (Campo Total), em que deixava a pessoa com o mínimo do mínimo de  informações externas.

Durante o tempo que estamos acordados, o corpo secreta várias substâncias e uma delas é a adenosina, a qual se atribui a sensação de cansaço e sono. Mas, se você precisa ficar acordado, basta tomar uns bons goles de café. A cafeína se liga aos mesmos receptores que a adenosina, impedindo esta última de fazer o efeito chave-fechadura. Em outras palavras, a cafeína impede que seu corpo saiba que você está com sono e você não dorme. Outros alcaloides têm a mesma ação, mas estamos falando apenas daqueles que são lícitos.

Enquanto isso, temos a melatonina, um hormônio que é produzido pela glândula pineal. Sua função é impedir o estado de alerta, fazendo com que você lentamente entre num estado de suspensão de consciência e adormeça. Ela é uma substância fotossensível e só consegue atuar na falta de luminosidade. Por isso, é mais fácil dormir de noite do que de dia.

Metzger criou um sistema de forma que houvesse o mínimo de estímulo possível. Assim, a cobaia, digo, voluntario ficava num quarto com luz vermelha. Sendo uma radiação eletromagnética visível de grande comprimento de onda e baixa energia, a luz vermelha inibe bem pouco a ação da melatonina. Para impedir estimulação visual, Metzger cobriu os olhos das cobaias com a metade de uma boa de ping-pong. O formato esférico dá uma sensação de infinitude. Para isolar a estimulação auditiva, Metzger colocou um rádio se estar captando nenhuma estação, só estática (o chamado "ruído rosa").

O resultado foi que por falta de estímulos e informações chegando ao cérebro, o órgão mais zuado do corpo humano surta e começa a inventar as próprias informações e a pessoa entra num estado alucinógeno. Não sei nem por que enchem a bunda de maconha, metanfetamina, cocaína ou outras "ína".

Com estes experimentos, Metzger foi um dos criadores da Gestalt, a psicologia onde as formas podem variar mediante nosso posição enquanto observadores, como podemos representar pela clássica imagem ao lado. Ou vemos uma taça, ou vemos dois rostos ou vemos a taça e os rostos alternando entre si. A falta de padrões de referência faz com que nossa gambiarra neurológica busque sentido e crie a informação.

Outro que pesquisou a natureza da consciência foi o dr. John Lilly, médico, psiquiatra e neurocientista. Ele criou uma câmara de privação de sentidos que é usada até hoje. Ela se baseia numa câmara (eu ia dizer caixãozão) com água salgada na mesma pressão osmótica do nosso corpo, com cerca de 10 cm de profundidade e totalmente escura. Uma portinhola que não fica trancada é a única forma de entrada e saída de qualquer coisa (inclusive você), mas que estando fechada impede que ruído ou luz entre na câmara. Você fica lá, flutuando, no escuro e sem ouvir nada além dos ruídos do seu próprio corpo. Hoje em dia, elas são mais modernosas:

Estudos de alteração de estados de consciência mostram como somos suscetíveis a entrar em parafuso e nosso cérebro feito na base da gambiarra inventa informações. Duendes, espíritos, bruxas, divindades, anjos, extra-terrestres, mula-sem-cabeça, monstros. Isso nos faz questionar até o conceito de consciência, de mundo real. Estaremos apenas num sistema que gera informações direto no nosso cérebro? Aqui é o 13º andar da Matrix? Tomamos uma pílula de somma e estamos num holodeck? Bem, aí deixou de ser ciência e sim filosofia barata de ficção científica. Talvez, nem esta consciência que temos seja nós mesmos. Somos apenas um sonho do deus Brahma.


Para saber mais: Alterações da Consciência – PsiqWeb

2 comentários em “Ruídos, mineiros, fantasmas e alucinações

  1. Este mecanismo explicaria então o porquê dos episódios de revelações presentes em diversas religiões serem relatados como ocorrendo em locais isolados, tais como cavernas e desertos.

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