O vulcão de gelo em Titã

Eu sempre reforço a ideia que nosso senso comum vota e meia apronta das suas, e normalmente ele nos dá indicações e conclusões errôneas. Uma delas é o conceito de "deserto", como eu expliquei no artigo sobre o Dasht-e Lut, o lugar mais quente da Terra. Nesse artigo, eu expliquei que não basta ser quente para ser um deserto e que o Saara, apesar de mais famoso, não é o deserto mais quente nem o mais seco. Da mesma forma, pensamos que vulcões são aquelas montanhonas, prestes a mandar todo mundo pro saco que nem o Vesúvio fez e se bobearem o supervulcão de Yellowstone que está a caminho.

Podemos pensar que a Terra é o único planeta a ter vulcões, mas há um outro lugar também: o satélite natural ("lua", se você for jornalista que está fazendo parada na seção de Ciência dos portais de notícia) Titã, que orbita Saturno. Enquanto os vulcões aqui expelem lava, cinzas destruição, o vulcão de Titã expele gelo, hidrocarbonetos e várias outras substâncias. Para entender mais sobre isso, verbete TITÃ, seção SATURNO, capítulo  ASTRONOMIA do LIVRO DOS PORQUÊS.

O Senhor dos Anéis do Sistema Solar flutua pelo éter de modo indolente1. O Rei dos Céus acompanha a humanidade desde antes mesmo de sequer existir humanidade. Ele e seus filhos estão como guardiões, assim como todas as outras esferas que compõem a sua música. Um dos filhos do segundo maior poder entre os planetas do Sistema Solar é Titã, sobre cuja topografia foi falada aqui.

Sotra Facula é o nome dado a uma região específica do maior dos satélites de Saturno. O nome foi escolhido como uma homenagem às ilhas Sotra na Noruega. Nessa região há algo inusitado: um criovulcão, ou seja, um vulcão que cospe gelo em todo mundo que estiver por perto. A montanha em questão ocupa um círculo com cerca de 65 km de diâmetro, onde na verdade são uma espécie de dois-em-um, pois são dois montes, um com 1000 m e o outro, 1500 m, sendo este último repleto de várias crateras.

Imagino que você gostaria de dar uma olhada em Sotra Facula para ter noção dela. Bem, o mapeamento 3D — obtido com leituras feitas por radar e infra-vermelho — retornou esta imagem aqui (as cores não são verdadeiras. Elas apenas servem para realçar as diferentes altitudes do terreno):

Se este visitante quer ampliação, clica n’mim, clica n’mim, clica n’mim.

Mas eu sei que você é curioso, né, não? Eu sei, mediante meus poderes mágicos, que você gostaria de saber em qual parte de Titã Sotra Facula está localizada. Bem, tudo o que vos me pedires com fé e humildade eu vos atenderei (menos isso que você está pensando):

Clica em mim também, vai, diz que sim, não diz que não, clica, clica, siiiiiiiiiim?

Antes, porém, não se tinha certeza que a casa de veraneio do Sub-Zero estava ativa. Mas, pela primeira vez, cientistas têm provas sólidas como um bloco de gelo que não só há um vulcão de gelo em Titã, como ele está muito bem e ativo, com a graça do deus Saturno.

Em 2010, os pesquisadores liderados pelo dr. Randolph Kirk, geofísico especializado em ciência planetária e trabalha no Serviço Geológico dos Estados Unidos (U.S. Geological Survey – USGS), descobriram que o criovulcão estava ativo, mediante imagens trazidas pela sonda Cassini. Levando em conta que Enceladus possui atividade geológica com seus gêiseres, não seria demais pensar em uma atividade mais, digamos, intensa.

Nessa atividade, água sólida (gelo, prazer!), metano, metanol, amônia etc são expelidos, ajudando a deixar a atmosfera mais espessa. Além disso, já uma outra peculiaridade que está sendo investigada: se temos atividade térmica lá pra baixo de Titã, com muita água e calor, além de compostos orgânicos como metano e a amônia, há uma boa probabilidade de se encontrar algum indício de vida, mesmo que de uma forma bem simples, nem que seja alguma molécula auto-replicante. Não se sabe ao certo e, talvez, demore-se um pouco a descobrir. Mas uma coisa é certa: o metano e o metanol tiveram que vir de algum lugar, mediante alguma reação química. Então, oxigênio, carbono e amônia estão ali e as leis da química dizem que reações não acontecem ao acaso por puro capricho, e se eu tenho um determinado composto orgânico, posso muito bem ter outros compostos. É uma questão de tempo.

Abaixo, vemos um vídeo (English, "bad there") narrado pela drª Rosaly Lopes-Gautier, carioca da gema e especializada também em Ciência Planetária (que foi esperta o suficiente para notar que seu talento seria muito útil aqui, tentando sobreviver como professora de Ensino Fundamental, ralando peito daqui logo que pôde). A Wikipédia Portuga tem uma página legalzinha sobre ela, onde vi que ela ganhou a Medalha Carl Sagan. Aqui mal ganharia um vale-transporte.

Não sabemos o que as futuras pesquisas dos criovulcões de Titã trarão, se uma poça quente sem graça um alguma forma de vida alien. A única coisa que se sabe é que estes aliens muito provavelmente não construíram as grandes pirâmides. Se eles existirem, podem ficar num beco sem saída evolutivo ou começar sua jornada, escrevendo sua história nas terras geladas de Titã, um satélite que por muito que se saiba, pouco ainda se sabe. Mas se muito mais se soubesse, muito mais haveria para se descobrir, pois este é o espírito da Ciência.

O Titã repousa guardando o Senhor dos Céus. Ele foi conquistado há muito tempo e agora é lacaio do mais vaidoso dos planetas. Das suas frias entranhas, um coração quente bate e mostra seu poder, não se rendendo totalmente à servidão. Ele nos ensina que por mais que estejamos subjugados, ainda temos uma chama ardente dentro de nós que faz com que outros tentem entender, estudar e descobrir. E enquanto você lê estas linhas, mais jatos de água e compostos orgânicos são cuspidos e entre o barulho inaudível pode-se escutar: "eu não estou morto. Só espero ser solto um dia."

1 É uma licença poética. Não encha o saco!

4 comentários em “O vulcão de gelo em Titã

  1. “Sotra Facula é o nome dado à maior dos satélites de Saturno.”
    Não tá faltando nada aí não? :mrgreen:

  2. Adorei o artigo!!!

    Mas fiquei com uma dúvida: Se a presença de metano e metanol é o bastante para levantar um questionamento sobre existência de vida extraterrestre no local, existem outros planetas ou satélites conhecidos com a presença destes (ou outros) elementos químicos pouco naturais em ambientes estéreis? Alguém conhece outros exemplos?

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