Garrafa no ânus, gritaria e a destruição de um país

Chegou até mim no Twitter o caso de um estúdio de design japonês que criou uma garrafa de cerveja diferenciada. A postagem não dizia, mas isso ocorreu em 2023, quando o designer japonês Kenji Abe apresentou na 2ª Conferência Internacional sobre Design para Ambientes Oceânicos, na AXIS Gallery de Tóquio, uma garrafa de cerveja com a base cônica e pontiaguda, projetada para ser fincada diretamente na areia da praia. O projeto ainda incluía um apelo ecológico, já que a garrafa poderia ser triturada após o uso e transformada em areia novamente, integrando-se à coleção “Objects for the Ocean”, que Abe desenvolvera com a mesma filosofia de funcionalidade litorânea.

O escritor e podcaster norte-americano Dan Savage resumiu o sentimento geral com a precisão de quem já ouviu muitas histórias ruins: “Em breve, em um pronto-socorro perto de você”. Apesar de isso ser uma constância em muitos hospitais pelo mundo afora, há um caso documentado, o ponto de partida para um dos maiores colapsos geopolíticos da Europa no século XX: o Colapso da Iugoslávia.

Para entender por que um objeto de vidro no lugar errado foi capaz de derrubar um país inteiro, é preciso primeiro entender o que era a Iugoslávia. E aqui vai a resposta honesta: era uma experiência política que já nasceu com prazo de validade impresso na testa, segurada por uma combinação de autoritarismo carismático e cola ideológica que escondia seis repúblicas, duas províncias autônomas, cinco línguas, quatro religiões, três alfabetos e pelo menos uma centena de razões para se odiar mutuamente.

O Marechal Josip Broz Tito manteve tudo isso coeso pela força do próprio prestígio (e mão de ferro) durante décadas, funcionando como o único prego que segurava um quadro impossível, e, como todo prego submetido a peso demais, ele precisou de mais do que carisma para não entortar. Parte dessa sustentação vinha de um arranjo menos nobre e raramente discutido em tom oficial: a relação pragmática com redes criminosas iugoslavas que operavam no exterior.

Durante a Guerra Fria, enquanto a Iugoslávia se equilibrava entre o bloco soviético e o Ocidente, o regime tolerava, e em certos casos instrumentalizava, grupos envolvidos em contrabando, tráfico e outras atividades ilícitas fora de suas fronteiras. A regra tácita era simples: não transformar o país num campo de caça doméstico e, em troca, ter garantido um porto relativamente seguro para retornar, lavar dinheiro e desaparecer sob a sombra do Estado. Em um sistema que vivia de equilibrar tensões internas explosivas com uma economia frequentemente capenga, esses fluxos paralelos ajudavam a manter a máquina funcionando quando os meios oficiais não bastavam. Não era exatamente o que poderíamos chamar de “plano de governo”; era mais um pacto silencioso entre necessidade e conveniência.

Isso não tornava o regime forte, tornava-o funcional. Era uma estabilidade que dependia de vigilância constante, de repressão seletiva e de uma rede de lealdades que misturava ideologia, medo e oportunidade. Funcionava enquanto Tito estava vivo para arbitrar o jogo e garantir que ninguém atravessasse certas linhas. Quando ele morreu, em 1980, não foi apenas o prego que saiu, foi também o único árbitro capaz de manter esse ecossistema informal sob controle. O que restou não foi um Estado sólido, mas uma estrutura que parecia firme porque estava sempre sendo remendada, inclusive com ferramentas que jamais poderiam ser exibidas em público. O quadro começou a cair imediatamente, mas era um quadro grande e demorou um pouco para chegar ao chão.

Kosovo era a rachadura mais profunda e antiga. Habitada majoritariamente por albaneses étnicos e ainda assim considerada pelos sérvios o berço mítico da sua nação, a província carregava séculos de camadas sobrepostas de identidade, rancor e narrativa traumática. Desde a Batalha de Kosovo de 1389, quando os otomanos derrotaram o príncipe sérvio Lazar e inauguraram quinhentos anos de dominação islâmica nos Bálcãs, o sérvio médio foi educado a enxergar albaneses (muçulmanos, herdeiros culturais daquele passado) como uma extensão viva do opressor histórico.

Em 1981, quatro anos antes do incidente que iria desencadear uma guerra, o Kosovo já havia explodido em grandes manifestações albanesas pedindo status de república, reprimidas com violência pelo governo federal. A população sérvia na província caía progressivamente — de cerca de 15% em 1961 para menos de 10% em meados dos anos 80 —, não por perseguição organizada, como os nacionalistas alegavam, mas por emigração econômica e maior taxa de natalidade albanesa. Não importava: o sentimento de cerco estava instalado, e sentimentos raramente pedem laudos periciais.

Foi nesse barril de pólvora que um agricultor irrelevante no Grande Esquema das Coisas chamado Đorđe Martinović acendeu o fósforo, ainda que involuntariamente, num complicado dia em que ele chegou cambaleando até o hospital de Gnjilane (ou Gjilan, como a chamam os albaneses locais) em estado grave e apresentou uma versão aterrorizante dos fatos: dois ou três homens que falavam albanês o teriam surpreendido enquanto trabalhava no campo, violentado com uma garrafa e uma estaca, e o deixado à beira da morte. Quase não conseguiu rastejar até a estrada onde foi encontrado. Os cirurgiões que o operaram descreveram as lesões como graves. A notícia vazou para a imprensa local quatro dias depois e o enquadramento foi imediato: ataque terrorista albanês contra sérvio inocente. O primeiro dominó havia tombado.

O problema é que a história complicou-se antes mesmo de ganhar manchete nacional. Sob interrogatório conduzido por um coronel do Exército Popular Iugoslavo, claramente preocupado com o que aquilo significava politicamente, Martinović teria admitido que as lesões eram autoinfligidas, resultado de uma tentativa de saciar certos desejos carnais com material improvisado que deu terrivelmente errado. O relatório dos investigadores, redigido com a secura burocrática que só o socialismo real conseguia produzir, concluiu que o lesado “realizou um ato de autossatisfação no seu campo, colocou uma garrafa de cerveja num graveto fincado no chão e sentou-se na garrafa”. A versão constrangedora estava registrada em cartório. O assunto, supunha-se, estava encerrado. Não estava.

Antes de prosseguir, “lesado” significa que ele tinha sofrido lesão, mas o lesado no atual uso corrente também pode ser muito bem aplicado.

Martinović foi transferido para Belgrado, onde uma comissão de especialistas representando quatro das seis repúblicas iugoslavas examinou as lesões, porque aparentemente a federação entendia que a dignidade retal de um fazendeiro kosovar era um assunto de interesse nacional representativo. A conclusão foi a oposta: as lesões eram inconsistentes com acidente solitário e provavelmente teriam exigido a força de “pelo menos dois ou mais indivíduos”. A versão da agressão albanesa voltou à mesa, desta vez com verniz “científico”. Uma terceira comissão, liderada pelo médico legista esloveno Janez Milčinski, ofereceu um meio-termo: Martinović poderia ter inserido o objeto num graveto e escorregado durante a masturbação, quebrando-o com o próprio peso. A inteligência militar e a polícia secreta (UDBA) inclinaram-se por esta última versão. No total, três laudos, três conclusões diferentes, e um Estado tentando decidir, com toda a seriedade institucional que conseguia reunir, o que havia acontecido com uma garrafa no reto de um cidadão.

O desfecho judicial foi nulo: o caso arquivado sem indiciamento, nenhum dos alegados agressores procurado com qualquer seriedade, os laudos médicos eventualmente soterrados nos arquivos militares. O que não ficou soterrado foi a narrativa que a intelectualidade sérvia construiu a partir dali, com eficiência industrial. E aqui está o ponto mais revelador de toda a história: o que transforma um incidente constrangedor e ambíguo em símbolo nacional não é a sua verdade, mas a sua utilidade. A Sérvia de 1985 estava faminta por uma narrativa de vitimização que justificasse a escalada nacionalista que seus intelectuais e políticos já queriam promover. Martinović chegou na hora certa, no lugar certo, com o corpo marcado da maneira certa.

O caso foi imediatamente adotado pela Associação de Escritores da Sérvia, que dedicou uma assembleia inteira ao tema. Críticos literários compararam a situação dos sérvios em Kosovo às “experiências fascistas mais assustadoras da Segunda Guerra Mundial”. O escritor Branislav Crnčević declarou que a experiência de Martinović equivalia a “Jasenovac para um homem”, referência ao campo de concentração onde dezenas de milhares de sérvios foram assassinados durante a guerra. O pintor Mića Popović criou uma tela monumental inspirada n’“O Martírio de São Filipe”, de José de Ribera, substituindo os algozes históricos por albaneses de solidéu erguendo Martinović numa cruz de madeira, com um dos personagens segurando, devidamente, o objeto do escândalo.

Poetas publicaram versos evocando o empalamento otomano como metáfora direta da violência albanesa. Uma petição assinada por intelectuais proclamou que “o caso de Đorđe Martinović tornou-se o caso de toda a nação sérvia no Kosovo”. Três anos depois, mulheres sérvias marcharam ao parlamento federal em Belgrado declarando que “não podemos mais ficar a ver nossos irmãos empalados numa estaca afiada”. O que merece atenção não é o exagero em si, mas o papel deliberado desses agentes culturais como amplificadores conscientes de uma narrativa conveniente. Escritores, pintores e jornalistas sérvios não foram arrastados pelo furor popular: muitos o produziram, embalaram e distribuíram. O caso foi citado com destaque no Memorando da Academia Sérvia de Ciências e Artes, de 1986, considerado até hoje o documento fundador do nacionalismo sérvio moderno. Casos como o de Martinović não são subprodutos do nacionalismo; são sua matéria-prima.

Slobodan Milošević entendeu isso melhor do que ninguém. Em 1987, visitou Kosovo num contexto de distúrbios entre sérvios e policiais albaneses e proferiu o famoso “Ninguém deve ousar bater em vocês”, frase simples que transformou um aparatchik do Partido Comunista num messias da causa sérvia. O mecanismo era preciso: você pega um caso isolado de vitimização, real ou fabricado, multiplica por mil discursos, e converte o resultado em mandato político. A sequência é conhecida: revogação da autonomia de Kosovo em 1989, declarações de independência da Eslovênia e Croácia em 1991, guerras com limpeza étnica, o sítio de Sarajevo, Srebrenica e, no final, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia em Haia processando líderes que, uma década antes, recitavam a história de Martinović como prova de um povo perseguido. Cada dominó foi derrubado pelo anterior, e o primeiro estava fincado, com precisão cruel, no lugar mais improvável possível.

Quanto ao próprio Martinović, a fama lhe chegou com juros que ele nunca pediu para contrair. Após cinco cirurgias, viu-se pressionado a vender suas terras em Gnjilane e mudou-se para a aldeia de Čitluk, perto de Kruševac. Na Sérvia, era tratado como mártir; entre albaneses, croatas e eslovenos, havia virado piada nacional permanente, “o homem da garrafa”, símbolo do oposto exato do que os sérvios queriam que ele representasse. A indenização prometida pelo Estado nunca foi paga. Seus filhos e dois netos mais velhos foram mobilizados durante os bombardeios da OTAN em 1999. Đorđe Martinović morreu em 6 de setembro de 2000, aos 71 anos, deixando a esposa Jagodinka, três filhos, uma filha e dez netos, sem que ninguém tivesse chegado perto de responder definitivamente o que aconteceu naquele campo em Primeiro de Maio de 1985. A verdade foi com ele.

As guerras que acompanharam o colapso da Iugoslávia, entre 1991 e 2001, deixaram um saldo estimado entre 130 mil e 140 mil mortos, resultado não de um único conflito, mas de uma sequência de guerras sobrepostas que foram desmontando o país gradualmente. A mais sangrenta foi a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995, com cerca de 100 mil mortos, seguida pela Guerra da Croácia, entre 1991 e 1995, com aproximadamente 20 mil vítimas, e pela Guerra de Kosovo, no fim da década de 1990, que adicionou cerca de 10 mil mortes ao total.

A isso se somaram-se conflitos menores, como os da Macedônia, elevando ainda mais o número final. Além das mortes, milhões de pessoas foram deslocadas e houve episódios de limpeza étnica em larga escala, incluindo o Massacre de Srebrenica, em que mais de 8 mil pessoas foram assassinadas, consolidando o período como um dos mais violentos da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

A garrafa que penetrou o reto de Đorđe Martinović saiu pela ferida aberta da Iugoslávia porque encontrou uma sociedade que não queria saber o que havia acontecido de fato; queria saber o que aquilo significava. O fato bruto era ambíguo e constrangedor. A narrativa era perfeita: a vítima, o agressor, o trauma histórico, o intelectual indignado e o político oportunista, todos no lugar certo, todos cumprindo seu papel. Os nacionalismos não precisam de fatos. Precisam de símbolos suficientemente maleáveis para que milhões de pessoas projetem neles o que já queriam acreditar. Martinović foi esse símbolo.

E a Iugoslávia foi o preço.

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