A Epidemia da Aldgate Pump

Imagine uma cidade onde as pessoas bebem, cozinham e tomam banho com o mesmo líquido que carrega os resíduos de… outras pessoas. Sim, eu sei que você tá bem pensando no Brasil (e nem o critico por isso, já que não está muito longe da verdade), mas o caso de hoje é um pouquinho… diferente, ainda mais porque adicionamos o fator “cemitério” na equação. Junta tudo isso e uma bomba d’água bem localizada em via pública e pronto, taí o problemão!

Esta é uma história que se passa na Londres Vitoriana, lugar nobre, cosmopolita e perfeito exemplo de civilização (segundo eles, claro). Nesse tempo, a água da Aldgate Pump era considerada fresca, borbulhante, magnífica, mas com uns detalhezinhos ruins, como estar cheia de ossos humanos dissolvidos.

Esta é a história de uma das bombas d’água mais famosas (e possivelmente letais) da capital britânica. Mas como quase tudo em Londres, a história da Aldgate Pump é uma mistura de fato, mito, drama sanitário e um pouco de literatura medieval para dar sabor.

Tudo começa lá no século XIII, com um poço alimentado por correntes subterrâneas. Nada de novo em se tratando de Londres medieval: cidades precisam de água, e poços eram o que se tinha disponível se você não estivesse muito próximo aos rios (e o Tâmisa nunca foi essa Coca-Cola toda, também). Entretanto, a Aldgate Pump é um pouquinho diferente. Situada no cruzamento da Aldgate High Street com a Fenchurch Street e a Leadenhall Street, esse poço não era qualquer um; ele ficava perto de um local de execuções públicas. Sim, pois é; onde gente era decapitada, enforcada e outros “ada” como se fosse atração de domingo, já que não passava o programa do Sílvio Santos.

No início, bem antigamente, as pessoas atribuíam ao ar a causa das doenças. O termo corrente era “mal ar”, o que daí derivou o termo que ficou conhecido como “malária”. Com o tempo, a conexão entre “morte” e “água” passou a ter seu lugarzinho, como quem anuncia o roteiro de um filme de terror. Séculos depois, ninguém menos que Geoffrey Chaucer, o pai da literatura inglesa (antes que mencione Shakespeare, olha lá a data de nascimento de um e de outro), morava ali por perto, mais precisamente sobre a gatehouse de Aldgate, entre 1374 e 1386. Gatehouse, ou Casa da Guarda, era uma porta de entrada de um prédio fortificado, servindo de porta de entrada para uma cidade. No caso de Chaucer, há grandes chances de que ele, o autor dos “Contos da Cantuária”, tenha enchido seu cantil com a água em Aldgate.

Romântico, se ignorarmos o futuro coliforme da história.

Com o tempo, o poço virou bomba manual, ganhou estrutura em pedra Portland e um brasão da City de Londres no topo (“City” é como os londrinos chamam o centro econômico. É como aqui no rio chamamos de “Cidade”, quando nos referimos ao Centro). Sua aparência atual remonta ao fim do século XVIII, mas em 1876 foi ligeiramente realocada para o oeste, como parte de uma grande faxina sanitária. Aldgate passou a marcar não só o local onde se podia pegar água, mas também uma fronteira social e simbólica: a linha invisível entre a elegante City e o suado East End. Tão simbólica que a expressão “East of Aldgate Pump” virou sinônimo de lugar barra-pesada, sinônimo de pobreza, crime e – ironicamente – sede.

A Londres no século XIX era um pesadelo sanitário. A cidade crescia rápido demais e os esgotos iam direto para o Tâmisa, que, por sua vez, era a fonte de onde se tirava a água potável, também. O resultado? Cólera para todo lado. As epidemias de 1831, 1848, 1854 e 1866 não foram apenas surtos, foram carnificinas! Mas foi também durante esse período que surgiu o herói improvável da saúde pública: dr. John Snow (não confundir com o outro que “não sabia de nada”). Médico, observador nato e dono de uma capacidade investigativa que Sherlock Holmes invejaria, ele desafiou a crença popular de que a cólera era causada por “miasmas”, ou seja, vapores malignos no ar. Snow mostrou que o problema estava na água, e provou isso com mapas, estatísticas e a remoção simbólica da alça da bomba da Broad Street, encerrando uma epidemia com um gesto quase cerimonial.

E a Aldgate Pump? A partir dos anos 1860, começaram a pipocar relatos sobre o sabor “diferenciado” da sua água. Em 1860, um jornal ainda dizia que a água era “espumante e agradável”. O que ninguém suspeitava era o motivo do tal sabor: cálcio vindo da decomposição de ossos humanos. Pois, é, isso mesmo que você leu! O curso subterrâneo que alimentava a bomba passava – ou, segundo relatos, serpenteava – por vários cemitérios saturados de Londres. O resultado? Um coquetel mineral com notas de Londres morta. Muita gente começou a morrer. Cólera, febre tifoide, doenças intestinais. Alguns relatos – mais lendários que médicos – diziam que centenas pereceram por causa da fonte.

Historiadores mais céticos dizem que a história de uma “epidemia da Aldgate Pump” pode ser mito urbano. Não há registros oficiais de uma epidemia isolada causada exclusivamente pela bomba. Mas as preocupações eram reais! A qualidade da água era ruim, e autoridades sanitárias alertaram que, se o povo continuasse a beber daquela fonte, era só uma questão de tempo até algo muito ruim acontecer. A narrativa se espalhou, cresceu, virou símbolo, lenda, e – como tudo que tem cheiro de podridão histórica – ficou grudada no imaginário coletivo como mancha de chá no colete vitoriano.

A Aldgate Pump não virou apenas símbolo de tragédia (real ou inventada). Também virou personagem linguística. No cockney rhyming slang, aquela forma criativa e tortuosa de falar da classe trabalhadora londrina, “Aldgate Pump” virou sinônimo de “get the hump”, ou seja, ficar irritado. Um pouco como dizer que você “pegou a bomba de Aldgate” quando está de mau humor. Já a expressão “a draft on Aldgate Pump” significava uma transação financeira furada, tipo um cheque sem fundo. Um trocadilho cruel entre “draft” como saque bancário e “draft” como jato d’água. Hidratação zero. Dinheiro, também.

Até Charles Dickens entrou na jogada. Em seu ensaio The Uncommercial Traveller (1860), ele menciona a Aldgate Pump como marco na sua caminhada para o East End, como quem diz: “a partir daqui, muda o mundo”. A bomba, portanto, era mais que um cano com torneira: era limite, símbolo, personagem de transição social.

Em 1876, a bomba foi conectada ao sistema da New River Company, fundada por Sir Hugh Myddelton em 1619, que trazia água limpa do norte de Londres. Esse upgrade técnico finalmente encerrou os boatos de contaminação (pelo menos, os plausíveis). Foi o momento em que a bomba deixou de oferecer riscos e passou a oferecer… nostalgia.

Como se já não bastasse, no fim do século XIX, alguém decidiu enfeitar a bomba com a cabeça de um lobo em bronze. Por quê? Porque diz a lenda que foi ali que o último lobo de Londres foi morto. História confirmada? Não. Mas, sinceramente, se uma bomba d’água pode ser culpada por uma epidemia que talvez nunca tenha acontecido, por que não pode também matar um lobo que talvez nunca tenha existido?

Hoje, a Aldgate Pump ainda está lá. No meio da selva de vidro e aço da City, entre arranha-céus com apelidos como Gherkin e Walkie Talkie, ela permanece firme. como um lembrete de que a história urbana é feita de camadas, algumas documentadas, outras inventadas, todas vivas. Ela não é só um pedaço de pedra com um cano. É um palimpsesto de Londres em suas várias facetas: a medieval, vitoriana e contemporânea.

Um ponto de encontro entre a morte, o mito, a melhoria sanitária e o folclore que insiste em sobreviver, mesmo quando os historiadores dizem “isso nunca aconteceu”. E, convenhamos, é difícil encontrar outro encanamento público que tenha causado tanto impacto narrativo por metro cúbico.

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