
Existe uma ideia muito popular, suficientemente errada para incomodar, de que as mulheres entraram no mundo dos negócios em algum momento entre a Segunda Guerra Mundial e a invenção do blazer feminino. A História, no entanto, tem o péssimo hábito de não cooperar com narrativas convenientes. Por volta de 1850 A.E.C., enquanto a Europa estava lá, na Idade do Bronze, sem nem saber escrever direito e se matando e trabalhar com uma agricultura plantada ainda de maneira tosca, mulheres assírias administravam empresas, faziam investimentos em sociedades de capital compartilhado, concediam empréstimos a juros e se correspondiam por escrito sobre fraudes financeiras com uma fluência que envergonharia muitos diretores financeiros de hoje.
Tudo isso gravado em tabuletas que sobreviveram 4.000 anos para nos lembrar que a Humanidade não mudou tanto assim; principalmente em termos de golpistas, salafrários, vagabundos e trapaceiros.
O cenário é a cidade de Assur, no norte da Mesopotâmia, e sua colônia comercial em Kanesh, a atual Kültepe, no centro da Anatólia, hoje território turco. Entre essas duas cidades corria uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo antigo, percorrida por caravanas de jumentos carregados de tecidos e estanho, que voltavam com cobre e metais preciosos. A viagem levava seis semanas, atravessando estepes sírias, as montanhas Tauro e planícies anatolianas, e não havia GPS, seguro de carga nem contrato com transportadora. Havia argila, um estilete e muita determinação. O período de maior atividade desse comércio, entre aproximadamente 1950 e 1830 A.E.C. (o que os arqueólogos chamam de “Antigo Período Assírio”), deixou um registro arqueológico impressionante: mais de 23 mil tabuletas cuneiformes escavadas em Kültepe, um arquivo de quatro milênios que nenhuma empresa moderna conseguiu replicar.
Nesse sistema, os maridos partiam para Kanesh e ficavam por anos gerenciando o lado anatólio do negócio. As esposas ficavam em Assur, e aqui vem a parte que contraria o imaginário coletivo: elas não apenas “cuidavam da casa”. Enquanto os maridos atravessavam montanhas e desertos, elas dirigiam verdadeiras fábricas têxteis domésticas, supervisionavam dezenas de tecelãs, controlavam a qualidade e a padronização dos produtos para exportação, e decidiam onde investir os lucros. Com o dinheiro que geravam, investiam em novas expedições comerciais, emprestavam prata a outros mercadores e gerenciavam portfólios de ativos que incluíam empréstimos, imóveis e cotas em sociedades de longa distância.
As mulheres eram, em todos os sentidos, sócias plenas do negócio familiar, possuindo patrimônio próprio, separado do marido, algo extraordinariamente raro na Antiguidade. Cécile Michel, assirióloga francesa que organizou e traduziu centenas dessas cartas no volume Women of Assur and Kanesh, documentou esse papel ativo com base em milhares de tabuletas: cerca de 10 a 15% das cartas privadas identificadas são de autoria feminina, número impressionante para qualquer época anterior ao século XX.
As cartas encontradas em Kültepe são um arquivo humano extraordinário. Uma mulher chamada Taram-Kubi, por volta de 1860 A.E.C., escreveu ao marido Innaya, em Kanesh, depois de ele criticar a qualidade dos tecidos que ela enviara. A resposta, preservada em cuneiforme para a posteridade, tem a elegância furiosa de quem sabe que tem razão: ela lista em detalhes o trabalho envolvido, o cuidado na produção, e basicamente pergunta, com toda a delicadeza do mundo antigo, quem ele pensa que é. Ishtar-bashti, outra mulher documentada, desenvolveu um selo cilíndrico pessoal, uma espécie de assinatura digital em barro, para autenticar suas cartas à filha Zizizi em Kanesh, que construiu ali uma carreira bem-sucedida como credora. Mãe empresária, filha banqueira. O networking familiar funcionava bem mesmo sem o LinkedIn.
Mas é Ahaha que concentra talvez o drama mais moderno de toda essa história. Vivendo em Assur por volta de 1850 A.E.C., após a morte de sua mãe Lamassi, ela herdou o controle do patrimônio familiar e passou a investir em sociedades comerciais, incluindo uma gerenciada pelo sócio de seu pai, Pazzur-Aššur. Confiou a gestão de sua cota a um de seus irmãos, Buzāzu, erro clássico que qualquer advogado de família reconheceria imediatamente: nunca misturar irmão com dinheiro sem testemunhas em argila.
Buzāzu, o sacripanta, aproveitou a posição para desviar os fundos da irmã em proveito próprio. Ahaha investiu ainda numa caravana de jumentos entre Assur e Kanesh, com promessa de receber prata como lucro quando a caravana retornasse. A prata nunca chegou. Em tabuletas preservadas em Kültepe, ela escreveu a outro irmão com a urgência inconfundível de quem está sendo arruinada financeiramente:
Não tenho nada além desses fundos… Age de forma que eu não seja arruinada!… Que chegue até mim uma carta detalhada sua pela próxima caravana, dizendo se vão pagar a prata… Este é o momento de me fazer um favor e me salvar do aperto financeiro!
A tabuleta foi encontrada. A resposta, nunca.

O que torna a história de Ahaha ainda mais irritante, por proximidade histórica, é que ela não foi a primeira nem a última vítima de um mercador desonesto naquela região. Cerca de um século depois, em Ur, na Babilônia meridional, um homem chamado Nanni escreveu ao comerciante Ea-nasir uma carta que o Guinness World Records reconheceu como a mais antiga reclamação de cliente já descoberta, datada de aproximadamente 1750 A.E.C.
Ea-nasir viajava ao Golfo Pérsico para comprar cobre e revendê-lo na Mesopotâmia, negócio perfeitamente respeitável, não fosse o detalhe de que o cobre entregue estava consistentemente abaixo do padrão contratado. Nanni enviou seu servo com o pagamento para retirar a mercadoria. O servo voltou de mãos abanando, várias vezes, tendo sido tratado com grosseria por Ea-nasir. A carta de Nanni, escrita em cuneiforme acadiano e hoje conservada no Museu Britânico, dispensa sutilezas: “O que você acha que é para me tratar com tamanho desprezo?”, pergunta ele, e segue com uma lista de afrontas que demonstra que a indignação do consumidor lesado é um sentimento completamente atemporal.
Ea-nasir era um sistema de fraude ambulante, e não parecia ver problema nisso: arqueólogos encontraram mais de uma dúzia de tabuletas de reclamação de outros clientes nas ruínas de sua provável residência, todas com o mesmo tema: cobre ruim, pagamentos retidos, servidores maltratados. O homem tinha um modelo de negócios consistente, pelo menos.
Ea-nasir e Buzāzu, separados por um século e algumas centenas de quilômetros, são o argumento definitivo contra qualquer romantismo com o passado. O comércio organizado e a desonestidade organizada chegaram juntos, como gêmeos inseparáveis, e as mulheres de Assur e Kanesh tiveram de navegar nesse ambiente com as mesmas ferramentas que os homens: contratos em cuneiforme, selos de autenticação, redes familiares e, quando necessário, a fúria bem articulada de quem sabe que foi roubada e tem provas em barro.
Que essas provas tenham sobrevivido quatro milênios enquanto tantas outras histórias se perderam é, dependendo do ângulo, uma ironia da história ou uma justiça poética. Ahaha nunca recuperou sua prata, mas 4.000 anos depois, ainda sabemos seu nome, e o de seus devedores.
PAGUE O QUE DEVE, BUZĀZU!!!
