
O Grande Rei repousa. Por mais de 3 mil anos em seu sono, o rei repousa esperando o pós-vida, quando reviverá e poderá fazer uso dos seus pertences. Comida, ouro, cama, joias, carruagem, mais joias, cadeiras, ouro pra cacete, miniaturas de servos e soldados que irão lhe proteger (também chamados “shabtis”), muitas pedras preciosas, trombetas, jói… trombetas?
Sim, trombetas.
Tutancâmon assumiu o título de Rei do Egito (parem de falar “faraó”) – pertencendo à 18ª Dinastia do Novo Reino – em 1332 A.E.C., governo esse que não durou muito: até 1323 A.E.C.; a rigor, ele foi um rei meio “meh”, e só ficou famoso por causa da descoberta de sua tumba quase intacta, que na verdade tinha sido violada antes e tiveram que recolocar as coisas todas. Daí saquearam mas estavam com pressa e deixaram um monte de coisa pelo caminho.
Mas há algo interessante na tumba de Tut. Ok, tudo lá é interessante, mas eu só vou falar de uma coisa: trombetas. Sim, tinha trombetas lá, mas não eram quaisquer trombetas; eram trombetas militares. As trombetas militares de Tutancâmon são um dos três exemplos conhecidos deste instrumento preservado do antigo Egito, e foram feitas de folhas de metal cobertas de ouro.

O bocal tem um formato cilíndrico, com um anel prateado na extremidade externa, fixado a um tubo. Do lado de fora do sino, há um painel representando o rei usando o Khepresh, a coroa real, e segurando o cetro “Heka”. Ele está diante de um santuário contendo a figura do deus Ptah na forma de uma múmia.
A inscrição diz: “O Grande, Ptah, ao sul de sua muralha, Senhor da Verdade, Criador de tudo o que o rei recebe, Vida de Amon-Re, Rei de todos os Deuses. Aquele que apoia a outra mão nos ombros do rei, atrás do deus com cabeça de falcão, Ra-Horakhty, o deus bom, Senhor do Ouro”. Todas as figuras são mostradas sob o sinal hieroglífico do céu e a linha de base simboliza a terra.

Uma das trombetas é feita de prata esterlina, ou prata “de lei”, que possui 92,5% de prata, sendo o restante metais para fazer uma liga resistente. A outra trombeta é de bronze com alto teor de cobre. Elas são consideradas as mais antigas trombetas operacionais do mundo e os únicos exemplos sobreviventes conhecidos do antigo Egito.
No antigo Egito, as trombetas eram usadas em ambientes militares por serem instrumentos com som alto e distinto, sendo portanto, útil na sinalização e repasse de comandos cuja simples ordem verbal não seria compreendida. Era um som assustador para quem não estava acostumado com elas, ou seja, para soldados do exército adversário. Imagens da época de Ramsés II e III, por exemplo, mostram soldados tocando trombetas em cenas reais de batalha.

Os deuses egípcios também gostavam de música de trombeta. Sabemos que trombetas militares apareciam em procissões religiosas. Mas a pista mais reveladora vem de uma imagem sobrevivente de um período posterior, que mostra uma mulher, quase certamente Ísis, tocando trombeta para o deus Osíris, que parece estar derramando lágrimas. Osíris é o deus dos mortos. Consequentemente, os egiptólogos presumiram que a música da trombeta estava associada à ressurreição e à vida após a morte.
De acordo com alguns estudiosos, as trombetas de Tutancâmon não eram para mero entretenimento. Ade fato, com os bocais que elas têm, não seria possível tocar melodias, mas sim apenas “uma boa nota”, e isso nos explica muita coisa. Uma nota não faz muito numa festa ou desfile, mas pode ser apenas o suficiente para ressuscitar os mortos. Para um grande rei, é preciso de um som alto e límpido para acordá-lo no pós-vida.
Ambas as trombetas são bastante longas, mas a trombeta de prata é a mais longa: 58,2 cm em comparação com 49,4 cm da de bronze. Elas ficaram em silêncio por mais de 3 mil anos até que seu som foi ouvido novamente por pessoas de todo o mundo depois que a rádio BBC a gravou em 16 de abril de 1939. Um trompetista do exército britânico chamado James Tappern ficou diante de um microfone de estúdio, inseriu um bocal moderno nas trompas de 3.500 anos e fez música. Cerca de 150 milhões de pessoas ouviram a transmissão enquanto ele tocava fanfarras compostas por apenas três notas.
Sem o uso de um bocal moderno, essas trombetas antigas só são capazes de tocar “uma boa nota”, nas palavras de Percival Robson Kirby, que havia tentado uma apresentação anterior enquanto visitava o Cairo em 1933. Kirby ficou chateado com a transmissão posterior da BBC, que apresentou uma interpretação enganosa da música de trompete do antigo Egito.
Essa música não deveria ser bonita. Plutarco nos conta que algumas cidades do antigo Egito pararam de usar trombetas porque soavam como o zurro de um burro, mas isso não significa muita coisa, já que as trombetas eram para dar uma única nota mesmo, então, tentar tirar melodia delas seria impossível. Kirby, no entanto, presumiu que a inserção de bocais modernos se deu para proteger a trombeta e, especialmente, para evitar amassados.
Os antigos egípcios acreditavam que essas trombetas possuíam propriedades mágicas, e até mesmo alguns egípcios modernos concordam. Pouco tempo depois de soar a trombeta, em um fatídico 1º de setembro aquele ano, as tropas alemãs invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Outra apresentação foi tentada em 1941, embora desta vez tenha sido usada uma réplica da trombeta de prata, porque a original havia sido danificada na tentativa anterior. Em 7 de dezembro, os japoneses atacaram Pearl Harbor.
Segundo a tradição popular, a mesma coisa aconteceu antes da Guerra dos Seis Dias de 1967 e da Guerra do Golfo de 1991. Quando a trombeta de bronze foi roubada durante os distúrbios egípcios de 2011, a curadora do museu, Hala Hassan, alertou que “sempre que alguém a sopra, ocorre uma guerra”. Apenas uma semana antes dos tumultos da Primavera Árabe, um membro do pessoal do museu teria alegadamente tocado a trombeta durante uma sessão fotográfica, e rapidamente houve violência nas ruas.
Talvez seja mito, talvez seja verdade. Talvez quem roubou a trombeta em 2011 pode ter sofrido consequências da maldição, talvez só tenha ficado com medo, ou apenas Hórus tocou o seu coração e ele resolveu devolver a peça; não se sabe. O que se sabe é que a trombeta foi devolvida em circunstâncias tão misteriosas quanto quando foi levada.
Há muitas coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a vã filosofia dos mortais, enquanto o Grande Rei repousa.

2 comentários em “O Troar das Trombetas de Tutancâmon”