Os 50 anos de uma tragédia da Era Espacial

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“Era uma vez um homem que teve um sonho: Ir até alua, colocar os pés lá e voltar em segurança”. Isso até podia ser início de algum seriado dos anos 80 (bem, quase isso), mas foi Kennedy, não por amor à Ciência ou ao espírito aventureiro, mas para mostrar pros soviéticos que se eles podiam mandar o Homem à Lua, eles podiam meter um ICBM no meio do Kremlin quando quisesse.

Assim começou o Projeto Apollo, mas nada é como nos filmes. Ninguém tem um insight genial que salva tudo de uma hora para outra. Às vezes merdas acontecem, e a tribulação da Apollo 1 foi testemunha disso.

Hefesto, o ferreiro dos deuses não estava muito de bom humor no dia. Ele olhou feio para a nave Apollo/Saturn 204 (AS-204), cuja tripulação era formada pelo comandante Virgil Grissom e os astronautas Ed White e Roger Chaffee. Essa era a missão Apollo 1, e visava treinar os astronautas para pousar na Lua. A data de lançamento estava prevista para o dia 21 de fevereiro de 1967.

Ele não aconteceu.

Hefesto achou que a Humanidade estava avançando muito e construindo coisas tão maravilhosas quanto as que ele fazia, e resolveu se vingar.

Durante o treino num ensaio de lançamento em 27 de janeiro no Complexo de Lançamento da Estação Aérea Cape Kennedy nº 34 o maior dos medos se tornou em pavor, depois tragédia. Um curto circuito ocasionou um incêndio que destruiu o Módulo de Comando. Os 3 astronautas morreram de uma forma não muito bonita. Foi a primeira tragédia da Aventura Espacial dos norte-americanos.

O Congresso ficou puto da vida (mais por causa da propaganda negativa do que para perda de vidas, já que, como diz Frederick Forsyth, políticos não fazem nenhuma objeção a perda de vidas, contanto que, pessoalmente, não apareçam como responsáveis direto aos olhos do público.

A pressão política estava enorme. A NASA convocou o Conselho de Revisão de Acidentes Apollo 204 para determinar as causas do incêndio, com o Congresso investigando também (aka, metendo o bedelho em tudo, sem fazer a menor ideia do que estavam investigando).

A culpa maior foi de uma coisa chamada Física e Química.

O curto-circuito fez aparecer pequenas chamas, mas o interior do módulo tinha materiais feitos de nylon, que é inflamável. A pressão maior e excesso de oxigênio fez com que o fogo passasse a ter poderes infernais. O calor era excessivo e muita fumaça. A equipe de apoio tentou resgatá-los, mas sem sucesso. A alta pressão atmosférica da cabine impedia o resgate. As roupas protegeram os astronautas do fogo, mas o calor era muito e eles inalaram muita fumaça. Foram longos minutos de terror que acabaram em tragédia.


Interior do módulo depois do acidente. Inferno é pouco!

Poderia ter sido evitado? Bem, o senador casca grossa Walter Mondale praticamente esfregou na cara de todo mundo um documento interno da NASA citando problemas com o principal contratante da Apollo North American Aviation. Só que o então diretor da NASA, James E. Webb, não sabia desse relatório. Por que ele não sabia? Porque não foi parar na frente dele. Por que não foi parar na frente dele? Aí começou o climão.

O disse-me-disse acabou colocando paninhos quentes e eu imagino quantas notinhas trocaram de mãos. O relatório foi arquivado e decidido que aquilo não tinha nada a ver com o acidente.

Hoje é dia 27 de janeiro. Faz 50 anos que Grissom, White e Chaffee perderam suas vidas. Podia ter sido evitado? Em retrospecto tudo poderia ter sido evitado. A invasão da Polônia, a Inquisição e seu cunhado vindo passar uns dias aí. Toda catástrofe pode ser evitada, mas História é História. Ela registra o que aconteceu, sem especular como poderíamos ter evitado na época. Mas Ciência não para. Não é porque antes cometeu-se erros que não possamos evita-los no futuro. Engenheiros e técnicos remodelaram todo o módulo. Sistemas de certificação foram criados. Tudo foi refeito do zero.

Os voos tripulados da Apollo foram suspensos por 20 meses enquanto os problemas do Módulo de Comando não fossem solucionados. Em 7 em outubro de 1968 tripulação reserva assumiu e foi um êxito. Uma vitória sobre as adversidades. As mortes de Grissom, White e Chaffee não foram em vão.

Em 1969, pousamos na Lua. Daí em diante foi um festival de maravilhas, ainda que tenham havido outros acidentes. Mártires em prol de algo maior. Eles acreditavam no que estavam fazendo, a despeito das briguinhas políticas entre as nações.

Você acessa a Internet, faz telefonemas interurbanos e internacionais, assiste TV, consulta a previsão do tempo e usa ferramentas que só foram possíveis graças a esses homens e mulheres que deram a vida em prol do desenvolvimento técnico-científico.

A vantagem de um país que não odeia Ciência (fica quieto, Trump) é o reconhecimento de esforços. no NASA’s Kennedy Space Center, Florida há um memorial em honra a estes astronautas. Não, dificilmente você verá coisa assim no Brasil.


Um caminho árduo nos leva até as Estrelas!

Sim, 50 anos se passaram desde a tragédia da Apollo 1, mas todo campeão de atletismo foi criança, tropeçou e caiu. Assim é com a Ciência, assim é desde que olhamos para as estrelas e nos perguntamos o que tinha lá, enquanto ainda nem sabíamos o que era o fogo.

Desculpe, Hefesto. Mas Apollo sempre será melhor que você!

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Sobre André Carvalho

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  • cloverfield

    Pela descrição das condições da cabine parece que ela virou uma panela de pressão gigante.

    Carl Segão respondeu:

    Sabe o que é o pior? Que a escotilha abria pra dentro, usando o sistema de plug door, e o ambiente estava pressurizado com O2, por isso que não conseguiram abri-la para o resgate.

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    cloverfield respondeu:

    Tipo uma tampa de panela de pressão.