Bruxaria do dia: Pode-se digitalizar livros sem abri-los

Há a expressão que determinada coisa ou pessoa é “um livro aberto”, significando que é facilmente “lido”, isto é, facilmente de se conhecer e antecipar as atitudes. Isso, obviamente, vem do conceito que é preciso abrir um livro para se conhecer o conteúdo lá dentro, e um livro aberto é muito mais fácil de se saber o que tem dentro. O problema é que livros antigos, verdadeiras raridades, não podem ficar expostos ao ar, ou sus páginas irão se deteriorar rápido. Em contrapartida, é um crime ter uma preciosidade dessas e não desvendar os segredos de suas páginas. Pode a Ciência ajudar?

Sim. Ela entrega uma garrafa pro estagiário e diz “segura minha cerveja que eu vou ler este livro sem abrir”.

O dr. Barmak Heshmat, diferente da Bel Pesce, é pesquisador do MIT. Também diferente da Bel Pesce ele trabalha com nanofotônica e ainda diferente da Bel Pesce, ele não ganha dinheiro com palestra motivacional; embora semelhante à Bel Pesce, ele nunca foi algo expressivo no Vale do Silício. Shit happens.

O dr. Heshmat e seu pessoal estão desenvolvendo um sistema de imagem que pode ler livros fechados. Pronto, resumi? Sim, resumi e você não entendeu patavinas!

(quem hoje em dia escreve “patavinas”. Isso é denunciar muito a idade)

O que Heshmat – que tem nome de demônios que deram origem a balrogs – e seu pessoal fez foi criar algoritmos capazes de adquirir imagens de folhas individuais em pilhas de papel.

Não, você não leu errado. Você pega um blocão de fólios e digitaliza tudo de uma vez só, se separar um único fólio.

Mas o que diabos é um fólio?

Muito boa a sua pergunta. Fico feliz em saber que você presta atenção em tudo o que eu escrevo! Um fólio, indo direto ao assunto é uma folha. Simples assim. Só que os fólios são feitos de papiro ou pergaminho. O papiro vem de uma planta, enquanto o pergaminho é pele de animal seca e tratada até ficar fina e branca, pronta para escrever, muito mais durável que o papiro.

Antes, tudo era feito à mão, e um determinado autor escrevia algo uma única folha, melhor dizendo, num único fólio. Um poema, uma cantiga uma oração, uma receita para transformar sua sogra em sapo. Muitos deles se perderam, e os Evangelhos não são exceção. Histórias para lá, histórias para cá. Sujeito lia uma parte, esquecia as demais e assim por diante. Isso vale para todas as obras literárias.

Para não perder estes fólios, eles eram então encadernados juntos, muitas vezes um não tendo nada a ver com o outro. Isso era o antecessor dos atuais livros e era chamado de “códex”.

Como vocês podem imaginar, estres fólios são sensíveis, dados os séculos de idade, em que a tinta com o passar do tempo se esmaecia e/ou atacava o papel. O oxigênio da atmosfera é um destruidor. Manusear com mãos nuas é crime que, para um bibliotecário, historiador e até químicos com mania de divulgar ciência acham que deveria ser punível com pena de morte depois de 20 anos de chibatadas. O suor e a oleosidade das mãos apatacam este material sensível e velho. Tem que ser manuseado com luvas, num ambiente adequado, ar filtrado e em luz de preferência vermelha, pois é de grande comprimento de onda e baixa energia.

Mas é História. É um vislumbre de nossa cultura, de nossos pensamentos, de nossos estilos de vida de séculos de idade. Tem que ser preservado e estudado por todos os especialistas do mundo e pessoas como eu e você deveriam ter o direito de apreciar estes trabalhos. Infelizmente, nós, mortais, não temos acesso a este rico material. Seria bom tê-los online, certo? O problema é manuseá-los e meter num scanner.

A bruxaria que Heshmat e seus colaboradores conseguiram é sem precedentes e algo que nos enriquecerá muito. Não pelo dinheiro, cujo papel se desfaz e moedas se perdem, mas pela cultura.

O sistema desenvolvido utiliza Raios Terahertz, Também chamados Raio-T. São uma faixa de radiação eletromagnética entre as micro-ondas e a luz infravermelha, com alto poder de penetração (êpa!) mas sem ser danosa ao frágil material dos fólios. Os Raios-T podem ser emitidos rajadas curtas, cuja distância pode ser medida pela diferença entre o tempo de emissão e o tempo em que refletiu no material e chegou no sensor. Lembrou de algo? Sim, a mesma técnica do radar, mas em nanoescala.

Diferentes substâncias químicas absorvem diferentes frequências de radiação terahertz, conforme diz a Lei de Beer-Lambert, e que nada tem a ver com cerveja. Isso gera uma assinatura de frequência distinta para cada substância, o que pode ser plotado num gráfico, matematizado e retraduzidos para informação visual.

Ou seja: criamos uma máquina de xerox em nanoescala que reproduz imagens mesmo em grandes blocos de folhas, pois podemos direcionar o raio-T para a folha que quisermos, bastando mapear o códex, jogar no computador e ele nos dizer através de equações em que lugar do espaço, com coordenadas precisas quem está onde.

Jarbas, nós temos vídeozinhos?

Yes, milorde. Direto dos pais da criança:

Jarbas, nós temos paper?

Yes, milorde. Nature Communications. E está totalmente disponível for your Grace.

2 comentários em “Bruxaria do dia: Pode-se digitalizar livros sem abri-los

  1. Muito bom!
    Acabei de ler “O Nome da Rosa” e só imagino aquela biblioteca sendo escaneada assim. Frei Guilherme choraria de emoção.
    Pensando a que nível de detalhes vão conseguir chegar.

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