Grandes Nomes da Ciência: Maria Vitória Valoto

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Eu tenho muitos motivos para dizer que o Brasil odeia ciência, e todos eles são plenamente justificáveis. Essa pocilga que chamamos de “política científica” e nada é a mesma coisa, enquanto que temos deputados defendendo a profissionalização de ufólogos; o que até faz sentido quando Homeopatia é especialidade médica e astrologia é profissão, além de cartas psicografadas serem aceitas em julgamentos.

Por sorte, nós ainda temos pessoas que se recusam a aceitar isso. Pessoas que mostram amor pela Ciência, tendo certeza que ela que nos tira da barbárie, só ela que nos salva de nós mesmos. Só ela é capaz de garantir uma melhoria de vida. Um exemplo dessas pessoas é a menina Maria.

Maria Vitória Valoto é uma menina de 16 anos e mora no Paraná. Seu pai, por causa das loucuras de nosso código genético, é intolerante à lactose. Nada de errado com isso. Só passamos a ser tolerantes à lactose há mais ou menos uns 7 mil anos, o que fez muita diferença, já que pudemos ter uma excelente fonte de alimento: leite. O problema é que intolerantes à lactose caem nas garras de Evil Darwin se tentarem se alimentar com produtos contendo lactose, o que os obriga a adquirirem leite e derivados isentos de lactose.

Problema: esses produtos não são lá muito baratos.

Claro, menina Maria poderia reclamar dos políticos, da indústria, do Capitalismo, de Jesus ou do vizinho hiponga. Mas menina Maria sabe que existe uma lanterna que ilumina nossos caminhos, e esta lanterna é a Ciência.

Grande maioria das pessoas (e nem podemos dizer “normais”, já que, como eu falei, antes não metabolizávamos lactose) secreta uma enzima chamada “Lactase”. Como toda enzima, ela catalisa, isto é, proporciona condições para que certas reações químicas ocorram. A lactase hidrolisa a lactose produzindo glicose e galactose. Em outras palavras, a lactase usa seus poderes mágicos dados por Nosso Senhor Lavoisier e transforma uma substância que lhe faz mal pra cacete em outras que eu corpo tira de letra. Pessoas que não sintetizam lactase têm sérios problemas gastrointestinais se ingerir qualquer derivado de leite que contiver o açucarzinho safado.

A indústria produz laticínios isentos de lactose, o que pode soar esquisito, mas não é, já que não é apenas a lactose que caracteriza o leite como sendo leite. Pessoas intolerantes à lactose podem então ingerir alimentos ricos em vitaminas, proteínas e cálcio, mas isso tem um custo, e não é muito barato. Por causa das leis do Mercado, os produtos sem lactose têm um público pequeno, o que acarreta na elevação dos preços.

Versão TL;DR: Uma andorinha só não faz verão e não justifica produção em larga escala de algo que vai decorar prateleiras.

Só tem um detalhe. A quantidade de pessoas é pequena se pegarmos o mundo como um todo. No Brasil, 40% das pessoas são intolerantes à lactose, embora hajam dados que 70% da população do Brasil tenha intolerância à lactose, o que eu acho exagerado. Mas levando em conta que qualquer número acima de 20% já é alto, temos um problema sério aqui, ainda mais levando em conta que intolerância à lactose não é algo que acometa só ricos, e pessoas de baixa renda não podem se dar ao luxo de pagar por produtos muito mais caros só porque não contém lactose. Será que a Ciência pode nos ajudar mais uma vez.

Sim, pode, e menina Maria sabia disso; mas então ela pensou “e se eu mesma puder tirar a lactose do leite?”. Sendo assim, depois de estudar um bocado, menina Maria teve a ideia de usar sachês, não com lactase, mas com beta-galactosidase, que catalisa a hidrólise de diversas substâncias através da quebra de uma ligação glicosídica, ou seja, ela quebra substratos como gangliosídeo GM1, lactosilceramidas e várias glicoproteínas.

Versão TL;DR: beta-galactosidase também manda lactose pra vala.

Maria Vitória não cursa faculdade de Química. Sequer é um curso técnico. Mas o colégio dela, que fica em Londrina, PR, é algo diferente do mundinho paulofreireano. Lá tem uma disciplina chamada Iniciação Científica, que é considerada como todas as demais até a Oitava Série (ou Nono Ano), em que os alunos têm que desenvolver um projeto científico.

De acordo com o que Maria me falou via Twitter, quando chegam no Ensino Médio, a disciplina deixa de ser obrigatória, já que temos que encher os alunos com baboseiras pro vestibular, ENEM etc., mas ela quis continuar, só que tinha um pequeno problema: laboratórios de colégios não são lá hiper-equipados. Assim, ela foi se informar com seu professor se ele tinha indicação de alguma Universidade que a aceitasse para desenvolver alguma pesquisa. Ele entrou em contato com a Unopar, Universidade Norte do Paraná. Bem, eles enviaram uma lista de ideias que podiam ser desenvolvidas lá dentro. Uma delas era exatamente o sachê do bem, matador de lactose sem-vergonha.

Vocês querem saber mais? Querem videozinho? Então, que tal o da própria Mavi?

O projeto “Desenvolvimento de cápsulas reutilizáveis da enzima beta-galactosidase destinadas aos intolerantes à lactose.” Foi para o FEBRACE e hoje é finalista da Feira de Ciências do Google. Vocês podem ler detalhes sobre a pesquisa AQUI 

Eu espero sinceramente que ganhe, mas mesmo que não ganhe, o melhor prêmio é saber que apesar das vicissitudes, ainda há esperança. Se pudermos mostrar para qualçquer criança que ela pode alcançar muito e, para isso, basta um incentivo, se tivermos um retorno de 1%, rechearemos estre país de cientistas e, quem sabe, passe-se a dar mais valor a  pessoas que apesar de tudo caminham com uma vela na escuridão. A vela é o nosso conhecimento, e uma dessas pessoas é Maria Vitória, um dos Grandes Nomes da Ciência.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας