Quer divulgar Ciência? Pare aí e leia este memorando!

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Ontem, relembrando época antigas, eu fui xingado por dar a minha opinião. Afinal, se você dá a sua opinião, você é arrogante. Humildade é você baixar a cabeça e concordar bovinamente com as "estrelas" da Internet. Isso porque tinham divulgado o lançamento de um livro que "ensina" a divulgar a Ciência em redes sociais. Então, eu, no uso das atribuições dadas pelo artigo 5º da Constituição Federal, externei a opinião que se a pessoa não consegue falar sobre seu trabalho ou o que gosta no twitter, com 140 caracteres, essa pessoa é incompetente.

Isso ofendeu os coraçõezinhos das pessoas. E daí, partiu-se pra todo tipo de besteira, culminando em Ad Hominem, o recurso quando você perde a linha e não tem como rebater.

Fico impressionado como as pessoas criam religiões, clubes etc. De um lado, temos os idiotas que se digladiam por causa de sistemas operacionais de computadores, marcas de celulares, jogos etc. Nem menciono mais time de futebol, pois isso já é carne de vaca.

Aí, eu fiquei conhecendo outro tipo de culto à personalidade: getinha que se acha mais divulgador científico que os demais e leem muitos livros sobre como divulgar ciência, como se isso tivesse algum sentido. O livro em questão é Redes Sociais para Cientistas, cujos autores desenvolveram para a NOVA Escola Doutoral, da Universidade de Lisboa.

De acordo com o livro, trata-se de uma obra baseada num "curso de três dias, onde estudantes de doutoramento, investigadores e professores são iniciados na utilização das redes sociais na investigação científica e na docência".

Vamos ver o material que eles se basearam: e trabalhos de outros especialistas em comunicação de ciência. Químicos? Físicos? Astrofísicos? Não. Neil deGrasse Tyson? Phil Plait? Seth Shostak? Jim Al-Kalili? Brian Fox? Derek Muller (canal Veritasium)? Henry Reich (Minutes of Physics)? Não. Esses divulgam Ciência. Não têm tempo de ler sobre divulgar ciência. Isso está aparecendo aquele pessoal que vai em empresas e universidades fazer palestras sobre determinado tema, sendo que eles não trabalham nessa área. São especialistas em fazer palestras. São como pedagogos, que ensinam a professores como dar aula, sendo que eles mesmos falam que pedagogos não dão aula.

Sério, gente. Prestem atenção e acompanhem o óbvio: Você precisa de um manual para divulgar ciência no Facebook? Vamos ver uma página aleatória. Ciência e Astronomia. Você posta uma imagem e um teco de informação. Não é difícil. Entendam, não estou falando de fazer algo muito bem produzido como o Manual do Mundo ou o Nerdologia. Você domina um tema (deveria, né? Principalmente se tiver formação na área), você explica um tema para as pessoas. Qual a dificuldade? A dificuldade está no velho axioma "Se você não consegue explicar sua teoria para uma garçonete, é porque você mesmo não entendeu a sua teoria".

Eu escrevo um artigo sobre Vidro, outro sobre Vidro de Safira e mais um sobre Termodinâmica. A desculpa usada pelas "estrelas" da divulgação científica (muitos deles com o hábito de ROUBAR artigos meus)? Meu site é ruim e eu não escrevo direito. Não é engraçado? Os magníficos divulgadores científicos, que vivem lendo sobre como divulgar ciência, mas não produzem nada que preste, leem Ceticismo.net e falam mal. O mantenedor do Ceticismo.net não lê o dos outros por considerá-los ruins. E nem faço divulgação deles, pois sigo a norma pessoal de só compartilhar algo que eu considero como "que presta".

Mas vocês aí que falam de mim estão lendo isso agora e sabem que estou falando de vocês. amanhã podem voltar. Terei artigo novo. 😀

Voltemos aos autores do livro: Ana Sanchez, Gabinete de Comunicação de Ciência. Não tem página própria. Encontrei várias páginas no Facebook com este nome (inclusive de faróis acesos). Twitter? Não, nada.

Antonio Granado, jornalista (fuén!). Tem twitter, tem Facebook. Divulga Ciência bem pra cacete. SQN!

Joana Lobo Antunes. Tem doutorado em Química Orgânica, mas parece que isso não deu dinheiro. Tirou um pós-doutorado em Ciência da Comunicação (uma espécie de Doutorado em Pedagogia, querendo ensinar professores que corrigir com caneta vermelha traumatiza as crianças). Tendo graduação na área, deve divulgar ciência pra cacete, certo? Vejamos seu Twitter. Além das selfies, ela divulga que escreveu um livro ensinando a divulgar ciência.

Mas EU que sou arrogante. Porque acho que se você quer divulgar algo, você senta a bunda e fala ou escreve ou sei lá. Você divulga dados do NOAA e explica o que é aquilo. Pega uma das "notícias" do G1 e demonstra porque aquilo não faz sentido. Pega um boato e desmistifica. Será que eu sou tão fodástico que não preciso de bibliografia ensinando a fazer divulgação de ciência para explicar explicar por que a Lua parece tão grande nas fotos? Ah, não. Eu sou arrogante. Onde eu li isso antes?

Fatalmente se o fanático ver que não vai conseguir te converter de forma alguma, ele vai partir a lhe imputar alguma forma caricata de defeito pessoal que te “impede de ver a glória do senhor”. O mais normal costuma ser qualificar a pessoa como arrogante e sem “a qualidade da humildade”. Convém apontar que a humildade inclui tentar converter todo mundo, como quem pensasse diferente estivesse errado ou perdido.

A questão é que o fato de uma pessoa ter uma opinião diferente não a qualifica como arrogante; e se ela tiver um conhecimento mais embasado sobre o que acredita realmente, não vai existir motivo algum para ela mudar de opinião se não forem apresentados argumentos à mesma altura e com o mesmo nível de profundidade. Isso não é arrogância é apenas ser seguro de si, não implica a pessoa desrespeitar crenças diferentes ou ser incapaz de se importar com outros seres humanos. Qual sentido teria uma pessoa que estuda a vida toda mudar de ideia baseado em um argumento falho? Existe uma beleza e poesia na simplicidade, verdade, contudo essa simplicidade necessita ter profundidade não ser simples pelo mero fato de pobreza de ideias.

Em geral isso acaba consolidando um conflito cultural entre pessoas cultas e pessoas desinformadas, e como cada um vai ter de definir um ao outro através de suas perspectivas pessoais para justificar a si próprios seus estilos de vida diferentes. Talvez ambos estivessem vivendo no mesmo ambiente cultural seriam bons amigos, mas nessa situação a comunicação mútua se torna completamente truncada e incompreendida.

De onde tirei isso? Das Típicas Justificativas Religiosas. Olhem o tópico 31. Esses "astros" de divulgação científica não divulgam ciência. São um bando de retardados incapazes de publicar na Nature ou Science. No máximo, na Revista Fapesp, órgão que premiou o japa filosófico que disse que próteses são eugenia. São mestres, professores, doutores que apenas conseguiram um título, mas não fizeram nada melhor com eles do que ficar colocando "Dr." na frente e ficarem surtando na Internet.

Claro, vão pros ataques "você não tem, você não faz. mimimimimi" Simplesmente porque meus artigos não são de modo empolado como se fosse um artigo científico com peer review. Coitados. Eu não quero divulgar pra quem sabe. Eu divulgo pra quem não sabe. Mas eu não busco a glória efêmera da Internet, não busco ser famoso ou com trocentos seguidores, que com mais 6 reais compra um chopp.

Então, não esqueça. Antes de você divulgar Ciência ou algo que gosta, leia o memorando antes. Leia o maravilhoso livro que diz que o twitter é "uma rede de mensagens curtas, criada em 2006, que permite aos seus utilizadores escrever mensagens de 140 caracteres". Muito obrigado. Eu jamais saberia disso nem é algo que eu aprenderia na Wikipédia. Também, se não fosse pelo livro, eu jamais aprenderia que dá para colocar vídeos no YouTube ou fotos no Instagram. Leiam bastante e divulguem depois, ok?

Mas eu não faço isso. Eu sou arrogante. Se esse é o preço a pagar por não ser imbecil como essa gente e ajudar a ensinar um pouco mais às pessoas, é barato. Pago com prazer. Pois nas palavras de Nelson Rodrigues, "Modéstia é a desculpa do incompetente".

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Sobre André Carvalho

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