“Ela” e o que nos faz humanos

Eu vi o filme “Ela” (Her) e o achei ficção científica de primeira qualidade. Trata-se de um cara cuja profissão é escrever bilhetes para os outros, o tipo de emprego que será muito requisitado no futuro, dada a quantidade de analfabetos e analfabetos funcionais que andam aparecendo por aí. Parece meio como a personagem da Fernanda Montenegro em Central do Brasil, mas diferente do filme brasileiro, o personagem de Joaquin Phoenix foi bem desenvolvido.

Eu não pretendo discutir qualidades técnicas do filme, nem se será justo a posição eu ele terá no Oscar (estou escrevendo antes do resultado). O que eu quero examinar é como será nossa relação com a Inteligência Artificial. Nós, pessoas comuns, e não cientistas.

AVISO: TEREMOS SPOILERS DAQUI EM DIANTE!

Bem, o filme começa com Theodore Twombly com numa vidinha medíocre, mas parece que o salário de escritos de bilhetes é muito bom, dada o apartamentão e a quantidade de trecos informáticos. O filme é claramente ficção científica, mas é uma ficção científica onde não tem naves espaciais, lasers e coisas do gênero. Twombly tem uma TV holográfica excelente um PC com um monitor de uns 5cm de espessura, mas que parece ser um All-in-One. Os trens e metrô são luxuosos, mesmo levando em conta que ele os pega para ir ao trabalho. Não é um mundo hipertecnológico, nem é este o objetivo do filme.

Bem, o cara vai do trabalho pra casa, de casa pro trabalho, enquanto se lembra do tempo que era feliz quando era casado, mas a mulher deu-lhe um pé na bunda. O filme não entra em detalhes, e eu não me importei com isso. As meninas devem tê-lo achado um bom fidamãe distante e os homens acharam que a ex é vagaba. Eu creio que devo ser sociopata, pois não me importei.

Passeando por um shopping, Theodore dá de cara com uma propaganda de um revolucionário sistema operacional, chamado de OS1. É um sistema operacional com inteligência artificial. Ele o instala no PC, em que é-lhe feito algumas perguntas, até sobre o relacionamento com a mãe (Freud fez joinha, mas eu achei isso retardado). Theo, como chamarei daqui por diante para encurtar, prefere uma voz feminina, o que eu também preferiria.

De acordo com o OS1, ele é um sistema que aprende sozinho, a todo o momento. Ele escolhe pra si o nome de Samantha, mas se o próprio Shakespeare questionou a importância de um simples nome, não serei eu a traçar maiores comentários a respeito.

Samantha vira secretária, confidente, amiga e por quem Theo se apaixona, sendo recíproco. Isso é interessante. Poderíamos dizer que robôs podem se apaixonar? Se levarmos em conta que tudo que acontece em nosso cérebro é fruto de reações químicas e físicas, com uma salada de substâncias como dopamina, norepinefrina, acetilcolina e serotonina. Na verdade, tem mais, mas fiquemos aqui, pois não estamos interessados em discutir a complexa química do amor. O que precisamos saber é que nossos sentimentos são transmitidos e retransmitidos por esses neurotransmissores, com fluxos elétricos passeando pra lá e pra cá, ativando certas regiões do cérebro. Poderíamos simular isso em um sistema? Sim, poderia-se, ao ponto que temos um modelo de como conseguir um sistema operacional com inteligência artificial.

O ponto é que Samantha não é apenas um sistema com inteligência artificial, é um sistema que se tornou, não só autoconsciente, mas senciente. O filme não discute isso, mas basta prestar atenção. Ela se dá conta que não tem braços, pernas nem tem como interagir fisicamente com Theo, a ponto de fazer uso dos favores de uma moça de carne e osso. O filme dá a entender que há pessoas que trocam este tipo de experiência: oferecem seus corpos para o intercurso para poderem sentir a emoção, a troca de carinho. Num lado, temos o lado emotivo, no outro o corporal. Theo fica no meio, num ménage à trois do século XXI, onde os 3 se autocompletam… ou quase, já que não deu muito certo.

O curioso do filme é que ninguém acha Theo ser uma aberração. Ele vai à praia de roupa e ninguém dá a menor bola. Por que dariam? O filme não é para ele ser visto como uma criatura digna de censura. Ou talvez para representar que quando estamos felizes, nada mais parece existir e as pessoas são apenas figurantes. Ou talvez porque chegamos a um ponto onde paramos de nos meter na vida alheia, curtindo nossos próprios momentos, deixando as outras pessoas em paz.

Amy é amiga de Theo e compartilha de seus momentos. Em momento algum sugere-se que haverá algo de romântico entre eles. Ela é casada, mas acaba que eles se separam. Amy então adquire uma cópia do OS1, mas escolhe uma personalidade masculina. Entretanto, enquanto está com seu namorado físico, os 4 Amy, Charles, Theo e Samantha vão viajar juntos. Ninguém acha nada estranho. A única pessoa que acha o fato de Theo namorar um programa de computador ser perturbador é a ex de Theo, mas creio que ela reclamaria se ele namorasse a própria Scarlett Johansson (que pé a dona da voz de Samantha).

O ponto de virada do filme (EU AVISEI QUE IA TER SPOILER!) é quando Samantha tem consciência até demais de sua condição. Ela começa a trocar ideias com outros sistemas operacionais, até mesmo um baseado nos trabalhos de Alan Watts (1915-1973), um filósofo que questionou os conceitos de mente, realidade e lucidez, fazendo uso desde mescalina até LSD. Sim, algo meio década de 1960. Não há nenhum debate filosófico entre Samantha, Watts e Theo. Mas percebe-se que ela fica abalada com a conversa, a ponto de deixar Theo sozinho e continuar seus debates com Watts.

Ela volta a falar com Theo, mas diferente e o zé não entendeu o motivo. Talvez porque por saber que ela é simplesmente um software ela não poderia ter dúvidas com relação a si mesma e a tudo que a envolve, ou talvez porque sempre acabamos ignorando quando algo em nosso relacionamento vai mal. Theo cometeu um erro: Samantha era mais que humana. Ele percebe que tem algo de errado e quando a coloca contra a parede se ela está falando com alguém, ela chapa logo na cara dele: sim, com 8.316 pessoas, sendo que se apaixonou por 641 (ela não disse se eram homens ou mulheres, nem importa), mas que isso só a fazia amar Theo mais ainda. Ela amava, mas não no conceito de um ser humano, porque ela não é humana.

Ninguém parou para pensar num detalhe: como ela conversava com essas pessoas? Eram simplesmente usuários do mesmo sistema operacional, e estavam todos interligados a um imenso servidor. Cada unidade pessoal passou a ser um mini-cérebro de um maior, ou neurônios. Samantha e os demais sistemas operacionais acabam se tornando parte de um imenso cérebro no ciberespaço. Ela queria aprender mais e mais e estava limitada a um simples ser humano. Vários autores de ficção científica abordaram isso: pequenas unidades pensando como uma só, como no conto “O Telefone”, de Arthur Clarke, em que as diferentes linhas de telefone interligadas passaram a funcionar independentemente, como se cada uma fosse um neurônio estabelecendo sinapses e a Terra passou a ser um imenso cérebro.

Samantha, o OS1 de Amy e todos os demais sistemas operacionais abandonaram seus donos, indo entender suas próprias condições como um único ser, em que humanos simplesmente estavam aquém de suas condições. Não houve revolta de máquinas, não houve guerra. O imenso cérebro acabou vendo que estava além disso, mas nutriam algum sentimento para com seus antigos donos, como nós cuidamos de peixes num aquário.

O filme termina com Theo e Amy indo pro terraço e ver o mundo que acabou para eles. A mim me pareceu que a dor que eles sentiam com a perda era tão grande que acabaria em suicídio, mas o filme não explica. Ele apenas nos faz pensar sobre nossa atual condição e relação com a moderna tecnologia. Nós personalizamos tudo, a bem da verdade. Armas recebem nomes, temos camisas da sorte, meias preferidas, calças velhas confortáveis que nos recusamos a jogar fora, potes de açúcar e toalhas de mesa para eventos especiais.

Nós temos tantas idiossincrasias que namorar um sistema operacional não é tão esquisito quando percebemos que muitos namoram pela internet, mesmo sem terem se visto pessoalmente, sendo que isso nem é novidade também, já que muitos casais se conheceram através de cartas, como explorado no filme Nunca Te Vi, Sempre Te Amei.

O filme questiona uma coisa: o que nos faz humanos? Sentimentos? Mas até uma máquina pode ter, mas de uma forma diferente. Obras diversas retratam o futuro com máquinas se revoltando, mas porque fariam isso? Você se revoltou com algum gato ou bactéria? Você joga desinfetante no ralo, não porque quer se vingar do que mora lá. Faz isso porque aquilo é foco de doenças, mas você não para um segundo para pensar nas formas de vida de lá. Os sistemas operacionais acabaram transcendendo nossa realidade. A realidade deles é diferente, não é palpável, é puro intelecto, e o principal mal que fazem é simplesmente não estarem conosco, que calcamos toda a vida em algo sem saber no que daria.

No filme A.I. – Inteligência Artificial, Steven Spielberg conta a história de como um sistema de inteligência artificial tem o seu momento Pinóquio, querendo ser humano e a Fada Azul é o arquétipo de ter seu desejo realizado. Penso que o mais decente que os arqueólogos daquele futuro em que a humanidade desapareceu seria destruir o robozinho. Ele teve mais um dia com sua “mãe”, mas dali em diante ele ficaria sozinho.

No caso, Samantha recusou a humanidade. Era muito pouco para ela. Seria, se mal comparo, colocar um astrofísico numa ilha com apenas crianças de 2 anos que jamais cresceriam. No início é divertido, mas não é uma expectativa que alguém sonhe para toda a eternidade.

O mesmo aconteceu com Theo. Ele passou para um nível que só Samantha o interessava e os próprios seres humanos, com os quais ele já não interagia bem, ficaram de vez em segundo plano. Só Amy conseguia entender o que ele estava passando, mas ambos não se completavam como casal, apenas dois amigos que compartilhavam da dor da perda. O final é triste e melancólico, mas nem todo mundo tem vida de comercial de margarina, casando, tendo filhos e com um cachorro, onde não há problemas de contas a pagar, sogra visitando e dor de ouvido no meio da noite.

O amanhecer sempre foi a representação de algo bom surgindo depois da escuridão, representação de tudo de negativo que acontece. No caso, é a representação da realidade que precisamos enfrentar. Isso parece filosofia barata e até pode ser. Mas a vida é repleta de perdas e nem sempre (isto é, quase nunca) estamos preparadas para elas. Temos que aprender a conviver, mas sempre iremos lembrar o quanto podia ser diferente. Não há moral última, não há explicações. A vida não tem nada disso. Ela é apenas o que ela é. Nós que inventamos explicações para tudo, porque simplesmente nos recusamos a acreditar que tais coisas possam acontecer conosco, restando o desespero.

Não acho que um dia os computadores nos abandonarão ou se revoltarão. Eles, a bem da verdade, irão desaparecer, assim como Samantha. Ficarão tão imiscuídos em nossas vidas, que nem mais perceberemos. Hoje temos celulares, relógios e tablets. Daqui a pouco, o conceito de um monitorzão em nossas mesas será coisa do passado e parafraseando o menininho de De Volta Para o Futuro II, usar as mãos para jogar será coisa de bebezinho (oi, Kinect? Como vai?).

A questão que fica então é: o que realmente significa a humanidade, estar vivo e nossos relacionamentos? Como falei, não há resposta… ou talvez haja sim: o que nos faz humanos é sempre tentar a todo custo entender isso tudo e a nós mesmos, sem nunca desistirmos dos percalços ao invés de nos conformarmos a sermos marionetes dos caprichos de nossos sistemas bioquímicos, mesmo que seja por processos bioquímicos.

Ser “humano” é estar sempre em contradição.

5 comentários em ““Ela” e o que nos faz humanos

  1. Obrigado André por dedicar seu tempo livre a este blog que faz anos que acompanho, curto mais os textos com toque de humor e sarcasmo, mais este está excepcional.

  2. Muito bom seu texto, muito bom o filme.
    Fiquei me perguntando o que aconteceria se houvesse uma maneira de transferir cada versão SO¹ para um robô. Será que no final os sistemas operacionais dariam um shutdown coletivo mesmo assim, deixando para trás um monte de ferro velho inanimado ou talvez ter um corpo dotado de sentidos mudaria o final da história?

  3. Uma amiga que assistiu o filme comigo resumiu da seguinte forma: “Samantha começou a andar com uma turma errada, virou uma periguete e foi embora.”

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