Mãe, quando crescer quero ser divulgador de Ciência

Mãe, quando crescer eu quero ser cientista
Lagos, múmias e pedras. O que acontece na Tanzânia?

Vi uma discussão (eu tenho que dizer que é "no bom sentido", pois para o brasileiro médio, "discussão" significa sair na porrada) sobre o papel de blogueiros de divulgação de Ciência, seu alcance e como fica em frente ao que chamamos lix… digo, sessões de ciência dos sites de notícias.

Particularmente, eu não sei como surgiu esta discussão e nem acho que isso seja relevante, enquanto discutamos (vem cá! vem pra porrada, anda!) a discussão discutida.

Para princípio de conversa, vamos encarar a dura realidade: as pessoas de uma maneira geral não gostam de Ciência. Não gostam de cultura geral. Não gostam de nada que as faça pensar. Não gostam nem de quem gosta. Os veículos de "informação" fazem tudo, menos informar, já que suas rendas não vêm da informação e sim da publicidade atrelada e só conseguem bons anunciantes se conseguirem uma quantidade excelente de visitação. Daí, o que os veículos fazem? Dão ao povo o que o povo quer; e se o povão quer ler besteiras, vamos dar besteiras. O povo quer teorias de conspiração? Vamos dar isso. O povo quer alguma coisa que sugira envolvimento de entidades mágicas? Opa, tamos aí!

Eu me lembro quando o Discovery Channel e o History Channel traziam respectivamente ciência e história. Agora, passa um bando de idiotas vendendo quinquilharias em lojas de penhores, malucos descabelados falando "ALIEEEEEEEEEEENS" e aquelas baboseiras mediante o que está em voga, como Illuminatis, Jesus (figurinha recorrente), espíritos sei lá do que e investigações que chegam ao seu final sem conclusão nenhuma.

As pessoas ficam vidradas neste monte de lixo. Que me importa se o cara chegou numa loja (devidamente filmada, iluminada, e o pessoal que chega lá de "surpresa" já maquiado e bem arrumado) para vender uma faca do avô na Segunda Guerra. As pessoas realmente levam aquilo a sério! Aliás, nunca entendi o conceito de "reality show". Você fica acompanhando um monte de gente fazendo… nada! Quando muito, intriga etc. Vejo gente levando programas vagabundos como "O Aprendiz" como se aquilo fosse verdade, como se algum dono de uma mega empresa fosse ficar dando tarefa para gentinha se candidatar a um cargo executivo, quando a realidade se resume a currículos, nepotismo e favores sexuais.

Se você acha que não é assim, então saia da sua idade mental pré-puberdade.

Sites como G1, Terra, UOL, R7 etc não estão interessados em divulgar Ciência e sim em ter visitantes, para estuprá-los com publicidade até não poder mais. Alguns portais vagabundos só deixam você entrar para ver a notícia se clicar no "like" do Facebook, ou você simplesmente NÃO PODE ler a notícia. Eu me recuso a fazer isso e daqui a pouco voltarei a este assunto.

Temos então os blogueiros de ciência, normalmente gente interessante, culta letrada, incrível, fantástica, inteligente, magnífica e muito modesta como eu. Ah, sim, também há vários outros, desde o Atila Iamarino, passando pelo Cardoso, Roberto Takata, Carlos Hotta etc. Nesse vai-vém de comentários, fiquei conhecendo o Polimerase de Mesa, da Mariana Fioravante. Blog novinho, mas que merece receber umas visitas e eu quebrarei as suas pernas se você não o fizer.

Em uma das postagens do Polimerase, discute-se o alcance dos blogs de ciência. O que mais me chamou a atenção foi a passagem:

Ainda pensamos que o "correto" é o que vem dos grande veículos de imprensa e não de um blog sobre o assunto, ou mesmo de uma revista que tenha menos acessos. O valor dado a cada uma das produções não é o mesmo. Compartilhando uma pesquisa rápida que fiz esses dias, olhando número de seguidores no twitter e likes pelo Facebook. Aqui vai a lista, com números simplificados:

— Super Interessante: 830 mil follows (twitter), 613 mil "curtir" (facebook) 
— Revista Galileu: 70 mil follows (twitter), 100 mil "curtir" (facebook) 
— Revista Ciência Hoje: 36 mil follows (twitter), 22,3 mil "curtir" (facebook) 
— Science Blogs Br: 5,1 mil follows (twitter), 36,5 mil "curtir" (facebook)

É difícil competir com a Super Interessante, onde um bando de manés segue porque ela é famosa e pelo LIXO que trazem e várias pseudociências assuntos moderninhios. Em segundo lugar, vamos prestar atenção nesses números: o ScienceBlogs BR INTEIRO tem 5,1 mil "follows" no Twitter e 36,5 mil "curtições" no Facebook. Se dividirmos por cada blog dentro de lá (porque o SciencdeBlogs não é UM blog e sim vários), temos que esse retorno das redes sociais é menor ainda frente aos supracitados.

Então, temos outros detalhes: o que significa 1 curtição no Facebook? Para vocês, pode ser muita coisa. Para mim é alguém que apenas clicou em "Like" exigindo um esforço semelhante a um cágado olhando pra uma alface. Dar RT no twitter está a um clique também. então pergunto: quantos desses milhares realmente interagem de forma que não envergonhe a raça humana? porque, se eu liberasse os comentários aqui no Cet.net e/ou usasse o sistema de comentários do Facebook, eu teria muito mais retorno, ganhando de presente.. bem, ganhando de presente o comentador médio das redes sociais: um bando de idiotas retardados, que mal têm uma notocorda que controle a temperatura corporal e respiração cadenciada.

Eu tenho poucos seguidores no twitter (nem sei como eu TENHO seguidores lá), mas pouquíssimos interagem e cheguei a achar que sou um afortunado por isso. Em contrapartida, besteiras como Anti Nova Ordem Mundial tem muito mais alcance, pois o número de gente estúpida que não consegue aceitar que o mundo não tem nada de tão misterioso assim tem um alcance muito maior, e por mais que você traga provas, este bando de acéfalos ainda achará que o Homem não foi à Lua, já que foi uma grande conspiração americana por causa da Guerra Fria, quando a União Soviética muito provavelmente estava infiltrada com o pessoal da maçonaria, pois ninguém se deu ao luxo de fazer os americanos passarem vergonha.

Vemos bem o que as pessoas se interessam, quando a minha postagem sobre a Galinha Pintadinha ser coisa de Satã teve uma explosão de visitantes, quando assuntos muito mais legais que eu coloco sobre astronomia, química, biologia evolutiva etc nem chegam perto. Sério, eu já vi blog crente me citar como fonte, porque pegaram um único parágrafo, deixando o sentido fora de contexto (e ainda me linkaram!).

Então, um bando de ateus de fim de semana me cita nos "feices" da vida. Leram mais alguma coisa do Cet.net? Não, nem vão. No máximo, estão compartilhando o screenshot que eu tirei (eu devia ter colocado marca d’água,mas deixa pra lá. Não ia dar maiores retornos, mesmo). É difícil fazer seu conteúdo competir com a falta de gente interessada em conteúdo.

De acordo com uma matéria da Revista Fapesp, há muito pouca publicação online de divulgadores de ciência aqui no Brasil. Eu nem preciso entrar em muitos detalhes, basta um: tempo e dinheiro. Ou você tem um ou tem o outro.

Blogueiros de ciência como eu normalmente são pessoas com uma coisa chamada "vida". Não nos dedicamos integralmente aos nossos blogs, pois infelizmente somos seres heterótrofos que não vivem de luz, água e sais minerais. Eu ainda não adquiri a capacidade de fazer fotossíntese, dependendo de comprar comida, pagar contas etc. Já houve tempos em que eu postava 3 artigos diariamente. Já bati o recorde de 4 artigos num único dia (não me lembro qual, mas eu fiz. Juro!). Também já passei uma semana sem colocar uma linha sequer e ninguém vem aqui me ajudar com meu trabalho profissional. Cet.net virou mais um lazer, um exercício criativo e nem sempre tenho disposição ou vontade. Falta de matéria? Também acontece, mas como não ganho para escrever, posso me dar ao luxo de não me esforçar em procurar. Voz dos Alienados? Eu coloco quando tenho vontade ou algum maluco veio com alguma idiotice bombástica, mas não necessariamente é colocada por falta de assunto. Poderia fazer isso todos os dias.

Diferente do estagiário do G1, que e pago para arrumar um monte de maluquice por aí, escreve alguma merda (ou joga alguma matéria tendenciosa de outros veículos no Google translator e manda pra vitrine).

O jornalismo científico do Brasil é uma verdadeira merda, salvo o Salvador Nogueira e o Reinaldo José Lopes. Gostaram? Comparem com o twitter de dois jornalistas científicos "de lá": Ed Yong e Carl Zimmer.

Se quem é pago para interagir com leitores não faz, quem não é pago tem maiores dificuldades, e mesmo assim temos uma presença mais… atuante? Ainda assim, vai depender muito de nossa atividade profissional. Eu não posso nem vou largar meu emprego (vocês sabem: férias, 13º e outros benefícios atrelados) para tomar conta de blog. Só se fosse para eu ficar escrevendo merda, postando vídeo retardado e memes idiotas. AÍ SIM! Eu teria um número considerável de leitores. No atual molde, o máximo que consegui foram propostas de parcerias caracu, como esta aqui. Ter "ceticismo" no nome não ajuda, apesar de eu gostar dele e vou manter de qualquer forma, os outros que se ralem se se sentem ofendidinhos se acham que isto aqui é um site ateu, como muito crente idiota e ateuzinho estúpido acha que é.

Escrever conteúdo leva tempo. Temos que ler o que saiu, analisar o artigo original do cientista, melhorar o entendimento, reduzir a verborragia (coisa que não estou fazendo agora) e mandar pra grande rede de computadores, como é dito pelos jornaleiros, digo jornalistas.

Ser jornalista científico nos moldes do Brasil é moleza: Lê-se por alto o que saiu por aí e escreve alguma besteira em cima, com um português sofrível. Ou então basta ver uma foto e comentar alguma besteira, como o retardado que disse que uma foto de longa exposição eram meteoros que caíam em uma trajetória circular. Como? Isso é exagero meu? Até mesmo o Cardoso comentou isso.

O cientista é aquele que não só trabalha em ciência, mas a divulga. O cara que fica enfurnado no laboratório, sem compartilhar o que descobre ou suas opiniões é cientista? Eu acho que não. O mundo não é apenas para quem pode ou está disposto a pagar pelos artigos científicos. Eu já tinha falado sobre isso a respeito do Paywall. A saída para a divulgação científica seria as publicações de acesso aberto? Até pode ser, mas depois que um artigo falso passou a perna em mais de 150 deles, nem mesmo eles são tão confiáveis assim. A saída seria os próprios pesquisadores compartilharem via redes sociais, mas aí dependeriam de um público imbecil, idiota e que segue apenas para que haja gente seguindo de volta, a fim de se sentirem populares, cuja única interação é "mim çegui qui ti çigo". Não quero falar com este tipo de gente não, obrigado. Vemos como as pessoas adoram redes sociais, mas apenas para inflar seus números. Eu não acesso (nem posso, a bem da verdade, mesmo que eu quisesse) redes sociais durante o horário de serviço. Muitos fazem, para depois reclamarem quando o chefe dá esporro e manda o administrador de rede bloquear tudo, já que as pessoas não têm medidas. Eu tentei fazer um facebook informativo dentro do colégio onde trabalho e o máximo de interação com os pouquíssimos seguidores é mensagem de Nossa Senhora.

Isso vai cada vez mais tirando a vontade de postar mais, interagir mais, já que não ganhamos para isso. Preferimos, então, deixar nosso tempo livre para nossos familiares ou ver filme, show, ouvir música ou lermos outros que escrevem coisas que gostamos de compartilhar. Nosso círculo acaba restrito e ninguém ganha com isso. Mas quem disse que a maioria das pessoas está interessada?


Siga as hastags #twitciencia e #blogciencia para saber o que o pessoal anda falando a respeito.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • rodrigoaramburu

    Que desabafo, depois dele tive que me manifestar, sou parte da massa muda, que não interage, basicamente por não ter nada a acrescentar e é melhor ficar calado que fazer ruido. Mas saiba que mesmo não gostando muito do tom de vários de seus posts gosto de vários assuntos abordados, e pode ter certeza que teus leitores levam os assuntos lidos aqui muito mais adiante(em seus raios de influencia) do que os leitores das revistas citadas

  • “Curti” seo dizabafo. Vô cumpartilhá nu Fêici.

  • Liero

    Eu leio os artigos publicados neste blog e além de outros como Scienceblogs, HypeScience e Wired Science através do meu agregador de notícias. Conferí o Polimerase de mesa que você citou. Que outros blogs de conteúdo científico você recomendaria?

  • Monique Paula

    Infelizmente as mídias do Brasil não querem informar a realidade, porque a realidade não tem graça, não vende. A maioria das pessoas quer ler o que as satisfazem, algo que elas já estão acostumadas e não faça com que elas pensem, reflita. Pensar é custoso, saber a realidade sobre algo demora, a maioria das pessoas quer agora, já! E quando leem sobre algo, leem o título e assim já formulam o conteúdo da informação e repassam essa informação como algo fidedigno. A internet é um ótimo meio de comunicação, interação e para obter conhecimento, isso quando usada corretamente, no mais ela só serve para emburrecer ainda mais as pessoas, pois elas não sabem, e acham que sabem. E me por mais que doa me incluo nessa, eu também, na realidade, não sei nada, sei muito pouco.
    É revoltante perceber que muitos artigos científicos são divulgados sem revisão e falsos. Porque se dependemos disso, pelo menos disso, para saber o que é real, ou pode ser um caminho pra saber o real está muitas vezes à mercê.
    É incrivelmente irritante quando um blog informa uma notícia “científica” e você lê os comentários e as pessoas associam com suas crenças, ou usam suas experiências próprias para discordar de algo e generalizar todo o resto, isso quando elas tentam refutar a ciência filosofando.
    Você disse que o mundo não é misterioso, o mundo é misterioso, não como algo mágico, sobrenatural, mas não conhecemos muitas coisas do mundo, e esse desconhecimento o torna misterioso.
    Obrigada por tentar oferecer uma informação digna, e não apenas fazer isso por ter status na rede. 😉

  • Altair5

    Eu também não comento com frequência mas acompanho o site diariamente e considero o conteúdo muito relevante.Para mim o que conta é a qualidade por isso
    estou aqui. 😉

  • Pingback: Mae, quando crescer eu quero ser cientista » Ceticismo.net()

  • cloverfield

    Bons tempos quando o Discovery Channel e o History Channel passavam apenas matérias relacionadas com ciências… O Nat Geo ainda tenta resistir a onda de “besteirização”, mas até quando?
    A Superinteressante também começou assim. Ainda me lembro que a primeira matéria da primeira edição foi sobre supercondutores… ainda me lembro da edição comemorativa dos 200 anos da queda da Bastilha ou da edição especial que tinha as peças para montar um astrolábio…

    Guilherme Nascimento respondeu:

    @cloverfield, 6. cloverfield disse:
    outubro 6th, 2013 em 18:26

    “Bons tempos quando o Discovery Channel e o History Channel passavam apenas matérias relacionadas com ciências…”

    Hoje em dia esses canais só passam “guias de sobrevivência ensaiados e ridículos com atores idiotas” (Desafio em dose dupla, Bear Grylls (carinha branquelo com a voz do goku), Ufologia, mythbusters (com um carequinha bem parecido com o Dr.Eggman do Sonic).
    Enfim, não podemos confiar em canais que se intitulam ser “fonte de conhecimento e boa cultura”. Nós temos que filtrar tudo aquilo que vemos e pesquisar a fundo pra saber se trata-se realmente de uma verdade.
    Afinal, já reparou que os documentários desses canais demoram um bocado pra chegarem aqui no Brasil? Sinal de que alguem manipula o que entra nessa pátria tão iletrada.

    Administrador André respondeu:

    Não é manipulação. Simplesmente, as pessoas não se interessam. Entre programa de pagode e um com música clássica, qual dará mais retorno em termos de publicidade e espectadores?

    cloverfield respondeu:

    @André, Se for reparar bem uma entrada em um concerto de música clássica pode sair até de graça enquanto que uma apresentação “popular” passa fácil dos R$ 200,00.

    cloverfield respondeu:

    @Guilherme Nascimento, Pessoalmente gosto muito de Mithbusters e achei alguns programas que passaram recentemente no Discovery e HC muito interessante principalmente os que foram apresentados pelo Morgan Freeman e pelo Marcelo Gleiser. No HC gostei muito de um que passou esse fim-de-semana, a Segunda Guerra vista do espaço (tirando o ufanismo americano foi muito bom).
    Ainda existe programação boa.

    Guilherme Nascimento respondeu:

    @cloverfield, Sim, ainda existem programas estimulantes nestes canais. Só não gosto quando exibem em canais com naipe de educativos, programas de ufologia (Que por sinal, passa bem longe de ser ciência) e de sobrevivência na selva (Se é pra ver atores fingindo estar em perigo no deserto prefiro assistir a trilogia Mad Max).

  • Verme

    André, eu frequento este blog quase diariamente já faz alguns anos, e só agora resolvi me registrar para tentar expressar o meu sentimento de gratidão
    pelo seu trabalho.
    E este é um lugar onde encontro conhecimento, gente inteligente, diversão (gente não tão inteligente assim, rs), e também, pra mim este é um lugar onde não me sinto tão só neste mundo, por não pensar como a maioria.
    É totalmente compreensível seu desabafo, mas as assim como o próprio artigo diz nas entrelinhas, quantidade raramente significa qualidade, e se existir algum lado bom nisso, é mais ou menos como disse Marcelo Nova: “não tenho um público grande, mas é um público fiel”.
    É, eu sei, o problema é que isso não dá $$$, mas devemos continuar tentando fazer deste mundo um lugar melhor.
    Parabéns pelo seu esforço e pelo seu excelente trabalho!!!