Lagos, múmias e pedras. O que acontece na Tanzânia?

Mãe, quando crescer quero ser divulgador de Ciência
Artigo científico fajuto passa a perna em 157 periódicos no mundo

Começou a espalhar uma notícia sobre um lago com poderes mágicos de transformar qualquer animal que toque nele em pedra. Isso me fez dar uma risadinha em imaginar como um corpo vivo vira pedra, mas isso durou até eu ler as explicações. Aí eu passei da risadinha para a gargalhada, por ver que o ensino realmente anda uma bosta e as pessoas fazem jus quando dizem que odeiam química, já que se tivessem estudado, veriam a insanidade daquilo.

Tudo começou com o Lago Natron. Ele fica na Tanzânia, cuja única contribuição que preste para a humanidade foi William Kamkwamba Erasto Mpemba. Assim como o lago Retba, o lago Natron é meio róseo, devido a uma proliferação de algas.

Então, um monte de (risos) portais de notícia (risos+risos) trouxeram a informação (gargalhadas) que o lago Natron petrificava animais, deixando-os como estátuas de pedra, que nem fazia a mitológica Medusa. Como larga maioria dos blogueiros repete as coisas que nem papagaios, um monte de gente deu a maravilhosa informação que a grande quantidade de bicarbonato de sódio e soda cáustica (NaOH) estavam calcificando os corpos dos animais, assim que tocavam o lago maldito (e eu aprendi com filmes de Terror, que qualquer lago abriga um ser demoníaco, um fantasma ou um psicopata).

Primeiro de tudo: COMO, em nome das sagradas calcinhas de Hera, uma mistura de um sal e base contendo cátion sódio pode calcificar algo? Calcificação é acúmulo de cálcio; então, ou a Natureza desenvolveu um lago com propriedades de transmutação nuclear de núcleos atômicos estáveis, ou jornalista falando de Ciência CONTINUA sendo a mesma coisa que tartaruga tentando costurar.

A Revista Galileu traz essas mesmas fotos, ampliadas. Elas foram tiradas pelo fotógrafo Nick Brandt, uma espécie de Sebastião Salgado gringo. Aliás, no livro Carvoeiros, o Sebastião traz várias daquelas fotos mostrando a miséria, que intelectuais idiotas curtem de montão, mas estão muito pouco preocupados com os "modelos", por assim dizer. E, particularmente jamais penduraria alguma daquelas porcarias na minha parede, assim como achei as fotos de Brandt uma boa merda.

Afinal, o lago tem poderes petrificadores? Petrificado fico eu com a burrice alheia. O próprio Brandt escreveu:

Eu inesperadamente encontrei as criaturas – todo tipo de pássaros e morcegos – ao longo da costa do Lago Natron, no norte da Tanzânia. Ninguém sabe ao certo exatamente como eles morrem, mas parece que o lago reflete bastante a luz e isso os confunde. Assim como pássaros colidem com janelas de vidro, eles caem dentro do lago.

A água possui um teor extremamente alto de base e sal, tão alto que consumiria a tinta das minhas caixas de filme Kodak em poucos segundos. A base e o sal fazem as criaturas se calcificarem, perfeitamente preservadas, à medida que secam.

Eu tirei essas criaturas de onde as encontrei no litoral e, em seguida, coloquei-as em posições “vivas”, trazendo-as de volta para a “vida”, por assim dizer. Reanimados, vivos outra vez na morte.

Esta citação está no livro Across the Ravaged Land, e mostra não há nada de misterioso. Ele simplesmente recolheu um monte de carcaça de vários animais, arrumou-os bonitinho e tirou a foto.

O que acontece é que como o pH da água é bem alto (entre 9 e 10), a alcalinidade destrói os tecidos moles, mantendo os tecidos duros. Não ataca o osso, pois o equilíbrio é deslocado em direção à formação do sal correspondente ao ácido fraco, isto é, o fosfato de cálcio dos ossos, juntamente com a queratina. Estes só seriam destruídos através de ataque ácido, isto é, com pH abaixo de 7. Não tem nada a ver cálcio com a história. O que temos aí é uma preservação como se os corpos tivessem sido mumificados, ficando sequinhos e esturricados, graças à alta concentração de hidróxido de sódio, vulgarmente conhecido como soda cáustica ou limpa-fogão.

Não, queridos leitores (pedante o suficiente?). Não há calcificação de nenhuma espécie nem mesmo petrificação. Os animais não viraram pedra só porque encostaram no lago, onde pouquíssimos animais vivem naquelas condições extremas. Eu imagino que o sal e a base ali presentes aumentarão o coro contra os efeitos malignos do sódio, o vilão da vez. No mais, é apenas um trabalho de gosto questionável, sem nada de muito misterioso nisso.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Pensei que você tinha se baseado no texto que o Gilmar publicou, quase que ao mesmo tempo que você. Esse aqui: http://www.e-farsas.com/lago-na-tanzania-transforma-animais-em-pedra.html

    Como não podia deixar de ser, além de portais de notícias e blogs terem reportado a notícia bombástica, essa notícia e as imagens foram compartilhadas aos montes nas redes çossiaus (subentenda-se feicibuqui). Mais uma vez o feicibuqui mostrando que o QI médio de quem usa a Internet é menor que a temperatura ambiente.

    Só uma correção. William Kamkwamba não é da Tanzânia. Quem é da Tanzânia é o Erasto Mpemba.

    Administrador André respondeu:

    1)Eu tinha visto antes e ele publicou no momento que eu estava escrevendo.

    2) Corrigido.