Grandes Nomes da Ciência: Marcela Uliano

Cientista diz ser possível transplante de cabeças. Mas devemos?
De células-tronco surge um fígado. Bebuns comemoram!

Este país é tão vergonhoso que pesquisa científica agora é feita literalmente com o pires na mão. Pessoas com brios e um tanto de vergonha jamais pedem dinheiro às pessoas para resolver seus problemas. Cientista quer porque quer saber das coisas e aí, amiguinho, o brio que se dane, dá essa grana aqui para que possamos trabalhar; como foi o caso de uma pesquisadora que pediu dinheiro pra galera para poder fazer sua pesquisa. O pior, digo, MELHOR é que conseguiu!

Isto eu vi no Meio Bit. É o caso da doutoranda em Biofísica Marcela Uliano, que pesquisa um molusco desgraçado, uma espécie invasora vinda da China, muito provavelmente no mesmo navio que traz minhas bugigangas da Deal Extreme.

Seu trabalho estuda uma espécie invasora que traz problemas por não ter predadores naturais. A Seleção Natural deu de ombros. Não é culpa dela se o mexilhão malvado estava apto para sobreviver por estas bandas. Como pesquisa no Brasil é encarada com desdém por quase todo mundo, arrumar verba é algo complicado; por isso, resolveram apelar para a "vaquinha" (ou no português internético "crowdfunding"), onde os pesquisadores estavam pedindo doações para ajudar a tocar a pesquisa. E o melhor de tudo, conseguiram a grana desejada (se não tivessem conseguido, teriam que devolver todo o dinheiro para as pessoas que contribuíram). Abaixo, um vídeo explicativo sobre a pesquisa

Entretanto, eu gosto de não só noticiar sobre as pesquisas. Às vezes, pouco sobre o cientista é divulgado, sobre suas ideias e como ele vê sua própria pesquisa. Para isso, eu entrei em contato com Marcela Uliano e fiz uma microentrevista.

1 — Fale um pouco de você e seu trabalho.

Sou bióloga pela Universidade Federal de Santa Catarina e comecei a fazer iniciação científica já no primeiro período da faculdade, no lab de Defesas Celulares – Bioquímica, liderado pelo prof. Alcir Dafré. No último ano da graduação me inscrevi num curso promovido por meu atual orientador, prof. Mauro Rebelo, aqui da UFRJ. Ele me ofereceu um projeto de mestrado interessante, que complementaria tudo o que eu tinha aprendido na iniciação científica. Era o sequenciamento do transcriptoma, o mRNA (os genes expressos) do mexilhão dourado. Nessa época, a informação genética sobre essa espécie era escassa e nós queríamos aumentar substancialmente o volume desta informação. Para os seres humanos, por exemplo, se conhece a sequência nucleotídica dos 30 mil genes. Para nossa espécie, nessa época tínhamos a informação de somente 85 sequências. Por isso, no mestrado, sequenciei e montei um conjunto de dados para as sequências expressas do mexilhão dourado. E foi nesse processo que torno-se claro para nós que somente o genoma iria nos ajudar a responder com acurácia as perguntas biológicas que estávamos levantando. No doutorado então, resolvi encarar esse desafio e sequenciar o genoma inteiro, que inclui os genes expressos e mais uma grande parte, correspondente a quase 90% do genoma, que são as regiões não codificantes do mesmo, responsáveis pela regulação da expressão gênica. E algumas dessas regiões ainda não tem função elucidada.

2 — Pode explicar para nossos leitores o que é e pra que serve Biofísica?

Como disse Carlos Chagas Filho, homenageado que nomeia o nosso Instituto aqui na UFRJ, “biofísica é tudo o que se faz no instituto de biofísica”. Rs.. A biofísica envolve várias áreas, é interdisciplinar. Faz uma ponte entre a biologia e a física, estudando fenômenos físicos nos sistemas biológicos: nisso entram os fenômenos termodinâmicos, bioquímicos, membranas biológicas, fisiologia e biologia molecular.

3 — Por que você decidiu pesquisar o mexilhão dourado?

A eficiência em invadir e se estabelecer em ambientes aquáticos tão diversos é algo bastante espantador e certamente sua biologia molecular pode nos falar muito sobre os mecanismos evolutivos das espécies invasoras. Além disso, atualmente podemos considerar as espécies invasoras como os novos poluentes: nosso comércio e relação intensa ao longo do globo facilitou muito a introdução de espécies invasoras em novas áreas, e é nossa responsabilidade evitar os danos causados por essa globalização, ou remediá-los. O estudo da biologia molecular do mexilhão dourado vai ajudar na luta contra a sua invasão, mas também servirá de base para os estudos moleculares de qualquer outra espécie invasora, pois os mecanismos moleculares das diversas espécies presentes na terra hoje não diferem muito um do outro.

4 — Quais as maiores dificuldades de fazer pesquisa no Brasil? O que fazer para melhorar este quadro?

São muitas as dificuldades. A desvalorização das bolsas de estudo para os pós-graduandos é algo bastante sério. Para se especializar e virar cientista você precisa fazer pelo menos 6 anos de pós-graduação, e nesse período você recebe uma bolsa desvalorizada, que via de regra não é ajustada nem para cobrir a inflação anual. Você não tem direitos trabalhistas, porque apesar de trabalhar muito, você é considerado um estudante. E muito menos férias legalizadas. Depois disso, o mercado de trabalho não é muito promissor: atualmente o trabalho do cientista do Brasil está preferencialmente dentro da universidade, não há muitas opções fora disso. Mas o número de doutores excede o número de vagas na universidade. Dessa forma, não é necessário somente gostar muito do que faz, mas você tem que estar disposto a correr o risco de ficar desempregado.

Outra questão muito relevante é a burocratização para importação de material para o trabalho. Como o Brasil não produz a tecnologia utilizada nos nossos laboratórios, temos que importar tudo. Mas a importação de artigos científicos enfrenta as mesmas leis que a importação de outros materiais na Anvisa, e muitas vezes não conseguimos importar: mais de 80% dos pesquisadores brasileiros já perderam material preso na Anvisa, os reagentes perderam a validade ou nunca chegaram. Quando chegam, eles demoram em média 6 meses a mais do que pra chegar em países estrangeiros que também importam. Nesse processo, a ciência brasileira perde competitividade internacional, pois não conseguimos produzir inovação científica no mesmo ritmo que outros países. É um caos. O deputado Romário tem tentando nos ajudar na redução dessa burocracia, ele apresentou um projeto de lei que está nesse momento sendo avaliado pela Comissão de Seguridade Social esperando parecer da relatora. Vamos torcer!

5 — O uso do crowdfunding deu muito certo com vocês. De quem foi a ideia? Outros pesquisadores aí usam, também?

A ideia partiu do meu orientador Mauro Rebelo em conjunto comigo. O professor Mauro já trabalha há muitos anos com divulgação científica, e digerir essa informação científica para um publico não cientista é uma das políticas do nosso laboratório. Atualmente estamos querendo incentivar outros jovens cientistas a fazer o mesmo. Veja esse vídeo:

6 — Muitos pesquisadores acabam deixando o Brasil para ir trabalhar no exterior (e o governo até está fomentando isso). Você pensa em algo neste sentido?

Já estive em laboratórios na Inglaterra e na Itália, tudo isso com MUITA ajuda financeira do meu pai e dos meus orientadores, porque não é fácil não. Acho bastante interessante esse intercâmbio, principalmente porque a ciência é algo (supostamente) livre de ideologia, que lida com fatos, e você discutir cara a cara com os seus pares é algo bastante produtivo. Acho que, além de produzir bons resultados com maior facilidade, você sempre aprende alguma coisa. Mas é importante salientar que o cientista brasileiro também ensina muita coisa quando viaja para fora: principalmente devido a nossas dificuldades, somos cientistas determinados, criativos e bastante equipados para lidar com adversidades.

7 — Com relação ao mexilhão dourado, quanto tempo ainda temos para resolver o problema com o mexilhão dourado, antes que ele chegue na Amazônia?

Essa é uma pergunta sem resposta: a NORMAM 20 é uma lei de monitoramento da água de lastro que visa justamente evitar o descarregamento desta água, por navios que venham de regiões infestadas, as portas da bacia amazônica. Além disso, a educação ambiental tem tentado evitar a introdução através dos barcos de pesca que viajam pelas BRs indo para os diferentes festivais de pesca, com o mexilhão incrustado neles. Estamos correndo contra o tempo.

8 — Foi você quem fez o desenho animado?

Não, foram dois designers. A Júlia Back fez as ilustrações e o Gustavo Brazzale fez a animação do vídeo.

9 — Eu não cheguei a tempo de fazer uma contribuição, já que o tempo esgotou-se. Ainda tenho chance de ter uma proteína batizada com meu nome?

Olha, pelo site não temos mais condição disso! Mas quem sabe você pode enviar em e-mail pra mim e a gente vê como fica isso!! rs…

10 — Muitos jovens perguntam por que estudar ciências, por que perder tempo com isso. Para você, o que é Ciência?

A ciência não é apenas o meu trabalho, mas também é a norteadora moral da minha vida. O pensamento científico ajuda-me a me maravilhar todo dia com a oportunidade de estar viva. Se você parar pra pensar, o número de pessoas que potencialmente poderiam existir é muito maior do que o número de pessoas que, de fato, existem. E nossa passagem por esse universo bilenar é efêmera. Por isso, cada dia é um dia que devemos nos sentir felizes por estarmos aqui vivendo, e tendo diferentes experiências. Meu pensamento cético sobre a efemeridade da vida me faz, além de tudo, respeitar todos os seres viventes da mesma maneira, sem fazer qualquer juízo de valor. O brasileiro é um povo muito supersticioso, e isso me deixa entristecida. Quando mudamos nossa visão de vida para um pensamento mais cético mudamos nossa posição imediatamente em relação vida. Nossa oportunidade de viver é agora e é única, não vem depois. A ciência não explica tudo e, ao contrário de muitas outras religiões, ela não afirma estar 100% certa sobre nada. Mas fazemos sempre o melhor possível. Como disse Douglas Adams: “Não basta apreciar um jardim por sua beleza? É preciso realmente acrescentar e acreditar que há fadas nele?”

Eu acho que nenhum jovem atual pode ter a escolha de não se posicionar em relação às questões cruciais do mundo atual: aquecimento global, má distribuição da renda, miséria, produção de armamento de destruição em massa. Porque não se posicionar já é um posicionamento político. É ser condescendente com as escolhas que as pessoas, que estão preocupadas com essas decisões, tomam por você. Se os jovens escolherem basear sua conduta em valores científicos, certamente seu posicionamento político ficará mais próximo da busca pela igualdade social e pela valorização de todas as coisas vivas, na mesma proporção que a vida humana é valorizada.


Marcela soube traduzir bem o que é ser cientista. Sua visão singela do que se pode traduzir todo o engenho humano nos faz entender que para ser um grande nome da ciência não basta ser mega-hiper-famoso. Muitos começaram como um simples encadernador ou mesmo condutor de mulas. Quando você começa numa pesquisa que visa diminuir impactos ambientais causados por uma praga trazida por um mexilhão que não devia estar onde acabou ficando.

Marcela mostra não só a dedicação, mas o amor para com o desenvolvimento científico. E isto faz toda a diferença num país como o nosso.

Cientista diz ser possível transplante de cabeças. Mas devemos?
De células-tronco surge um fígado. Bebuns comemoram!

Sobre André Carvalho

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