Babel, Jerusalém e os algoritmos: A IA sob a lente do Vaticano

O Papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica social, Magnifica Humanitas, em 15 de maio de 2026, e o mundo intelectual tratou de fazer o que sempre faz nessas ocasiões: uns aplaudiram com devoção, outros ignoraram com elegância e uma terceira categoria – da qual me considero humilde representante em toda minha proverbial grandeza e infinita sabedoria – leu o documento com atenção genuína e uma sobrancelha erguida em posição permanente.

O texto é longo, erudito à moda vaticana – citações em latim, referências ao Concílio Vaticano II, a Leão XIII e a toda a linhagem de encíclicas sociais da Igreja – e dedica uma atenção incomum à Inteligência Artificial, ao ponto de colocar o tema no próprio subtítulo: “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”. Leão XIV, aliás, é matemático de formação, o que garantiu ao documento pelo menos a vantagem de não confundir algoritmo com feitiçaria.

Aperiantur parenthesae

É muito bom saber que o mundo agora está sob poder das Exatas. Papa Francisco era químico (com ele a oração e a paz) e agora o Papa Leão XIV é matemático.

BEHOLD!! THE AGE OF EXACT SCIENCES HAS JUST BEGUN.

Claudantur parenthesae

Examinando detidamente, a encíclica apresenta uma visão mais nuançada do que qualquer um dos dois lados opostos esperava: os entusiastas da IA que esperavam uma condenação medieval e os tradicionalistas que esperavam uma bênção papal ao progresso. Leão XIV escreve que a tecnologia “não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”.

É uma frase filosoficamente correta e que, dita por um Papa, soa quase subversiva, pois implica que o problema não está nos servidores da OpenAI nem nos transformers de atenção multicabeça, mas nos humanos que decidem para que servem. A metáfora central do documento é a oposição entre Babel e Jerusalém: construir uma torre sem Deus por vaidade e uniformidade ou reconstruir uma cidade com responsabilidade partilhada.

Teologicamente é impecável. Empiricamente, olhando para o que a Humanidade tem feito com suas ferramentas desde o sílex, é possível manter uma certa reserva.

Chegamos, então, à questão que realmente interessa e que o documento do Vaticano toca sem jamais resolver de forma satisfatória, porque é uma questão que ninguém resolve de forma satisfatória, e não por falta de tentativa. A Inteligência Artificial tem moral? A resposta curta é não. A resposta longa é… também não. Uma faca não mata ninguém; alguém mata com a faca. Um modelo de linguagem não desinforma ninguém por iniciativa própria; alguém decide que a desinformação é um produto lucrativo e contrata engenheiros para otimizá-la. O martelo não escolhe a cabeça que golpeia. Os descaminhos da Inteligência Artificial são, tão somente, os descaminhos do próprio Homem.

Esta não é uma observação consoladora; é exatamente o oposto. Se a IA fosse malévola por natureza, bastaria desligá-la, regulamentá-la ou excomungá-la, conforme a denominação de quem tomasse a providência. O problema é que ela não é malévola: é servil. E o homem, aquele ser dotado de dignidade infinita que o Papa tão eloquentemente descreve como imagem do Deus trinitário, tem demonstrado ao longo de milênios uma inclinação notável para usar suas ferramentas – o fogo, a pólvora, a prensa de Gutenberg, o átomo, a rede de computadores – tanto para curar quanto para destruir, tanto para conectar quanto para manipular, tanto para expandir o conhecimento quanto para industrializar a mentira. A IA não rompeu este padrão. Apenas o acelerou até que ficasse difícil ignorá-lo.

Façamos o exercício prático. A IA está sendo usada agora mesmo para detectar cânceres em imagens médicas com precisão que supera a média dos radiologistas humanos. Está sendo usada também para produzir deepfakes de políticos dizendo coisas que nunca disseram, para gerar discursos de ódio em escala industrial com custo marginal zero, para construir sistemas de vigilância que rastreiam o comportamento de populações inteiras com uma eficiência que tornaria um Estado totalitário do século XX visivelmente invejoso

O sistema de reconhecimento facial não decidiu oprimir a minoria uigur na China; houve homens que tomaram essa decisão, outros que desenvolveram o sistema, outros que o venderam e outros que assinaram os contratos. Em cada etapa havia um ser humano com livre-arbítrio, dotado de consciência moral, criado à imagem e semelhança de Deus, segundo o Papa, ou, para os laicos de plantão, dotado de razão e capacidade de escolha ética. E cada um deles escolheu.

A encíclica tem o mérito de apontar que o poder tecnológico está concentrado em poucos agentes privados, frequentemente transnacionais, com recursos superiores aos de muitos governos. É uma constatação empiricamente verificável e eticamente relevante. Mas o documento, escrito como encíclica e não como tratado de Ciência Política, inevitavelmente escorrega para o território das exortações morais e das metáforas bíblicas quando precisaria – para ser mais útil – descer ao nível dos mecanismos concretos: regulação de mercado, legislação antimonopólio, auditoria de algoritmos, propriedade pública de infraestruturas digitais, tributação de plataformas.

Leão XIV é Papa, não economista, e a encíclica é um documento filosófico-teológico, não um livro branco de política pública. Seria injusto exigir de um texto sobre salvaguarda da alma humana o mesmo rigor técnico de um relatório da OCDE. Mas é igualmente ingênuo ler um documento como este e imaginar que a solução para o deepfake de amanhã é mais Neemias e menos regulação de IA.

Existe, porém, um ponto em que o ceticismo racional e o magistério pontifício convergem com uma cumplicidade que ambos os lados talvez prefiram não reconhecer publicamente. Tanto a perspectiva científica quanto a encíclica chegam à mesma conclusão operacional: o problema não é a ferramenta. A faca, o átomo e o algoritmo são extensões da vontade humana. E a vontade humana, empiricamente falando, não melhorou de forma mensurável nos últimos cinco mil anos em sua propensão a usar o poder para explorar o mais fraco, para mentir quando a mentira é conveniente, para destruir o que não compreende.

A diferença é que a Igreja atribui este estado de coisas ao pecado original e propõe a graça como remédio, enquanto a perspectiva laica o atribui à seleção natural e propõe a educação, as instituições e a lei como paliativos. Nenhuma das duas propostas resolve o problema de forma definitiva. Mas as duas concordam que o réu é o mesmo.

O Papa pede que paremos de construir a Torre de Babel e comecemos a reconstruir Jerusalém, cada um com seu pedaço de muralha. É uma imagem bonita em seu símbolo metafórico. Os engenheiros do Vale do Silício continuarão, enquanto isso, construindo torres que chegam ao céu, e cobrando assinatura mensal pelo acesso ao elevador. Não porque a IA os corrompeu, mas porque são humanos, e os humanos fazem isso há muito mais tempo do que a IA existe.

O documento do Vaticano não vai mudar isso, e tenho pra mim que nem é essa a intenção, mas fazer pensar. A regulação por si só também não vai adiantar nada, porque sabemos muito bem que quando governos falam em regular algo, na verdade está pensando em regular como certas pessoas usam este algo. O que poderia mudar – e aqui, improvável convergência, tanto o cientista Robert Prevost quanto o Papa Leão XIV concordariam – é a decisão coletiva, repetida e sustentada, de que algumas coisas não se fazem.

Não porque Deus proíbe ou porque o algoritmo recomenda o contrário, mas porque a dignidade humana, seja ela ontológica ou simplesmente contratual, tem um preço que não aparece em nenhum balanço e que pagamos sempre que esquecemos de cobrar.

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