A incômoda privacidade

Em 1999, Scott McNealy, então CEO da Sun Microsystems, disse uma frase que deveria ter gerado protestos nas ruas e pelo menos uma CPI: “Você não tem privacidade. Supere!!” Na época, soou como a bravata arrogante de um executivo de tecnologia mimado. Hoje, três décadas depois, soa como um roteiro que o Vale do Silício seguiu à risca… e com prazer sádico.

A privacidade digital não morreu por acidente, nem por inevitabilidade tecnológica. Ela foi sistematicamente tornada inconveniente. Cada clique em “aceitar os termos”, cada “concordo” em negrito que ninguém leu, cada permissão concedida porque o aplicativo simplesmente não funciona sem ela, tudo isso foi projetado para ser exatamente assim: a resistência deveria custar mais do que a rendição. E funcionou!

A drª Sandra Matz, cientista social computacional da Universidade Columbia e autora de Mindmasters: The Data-Driven Science of Predicting and Changing Human Behavior, dedica anos estudando por que pessoas que dizem se importar com privacidade não fazem absolutamente nada para protegê-la. A resposta que ela encontrou é desconcertante na sua simplicidade: as pessoas trocaram a pergunta certa por duas erradas. Em vez de “eu me importo com minha privacidade?”, passaram a perguntar “compartilhar meus dados vale a pena?” e “estou preocupado com o que acontece com eles?”. Parecem equivalentes, mas não são.

A falácia do “vale a pena” funciona assim: quando alguém pergunta se você se importa com sua privacidade online, a resposta instintiva é listar as benesses do pacote, como navegação no Google Maps, recomendações da Netflix e pegar o Uber na porta de casa. Benefícios concretos, imediatos e visíveis. O lado sombrio, por outro lado, é nebuloso e adiado: a sua localização GPS, que serve para te guiar do ponto A ao ponto B, também revela para quem compra esses dados se você tem risco de depressão, se frequenta templos religiosos ou clínicas de saúde mental, se sua rotina sugere um casamento em crise. A cenoura está na sua frente. O porrete está escondido atrás das costas de quem te oferece a cenoura. É difícil chamar isso de negociação justa.

Os algoritmos que conectam esses rastros digitais — buscas no Google, histórico de navegação, postagens nas redes sociais, registros de cartão de crédito, coordenadas de GPS — constroem perfis que frequentemente descrevem as pessoas melhor do que seus amigos mais próximos. Em alguns casos, revelam sobre o indivíduo coisas que ele próprio ainda não sabe de si mesmo. É quase tocante, não fosse o fato de que esse retrato íntimo está sendo usado para vender, manipular e, quando conveniente, entregar ao Estado.

A situação é tão entrincheirada que a própria motivação individual deixou de ser suficiente como solução. Matz é direta nesse ponto: seria impossível para qualquer pessoa, por mais diligente que fosse, ler e compreender todos os termos e condições que assina ao longo de um único dia usando serviços digitais. Estimativas variam, mas pesquisadores já calcularam que um cidadão comum levaria centenas de horas por ano apenas para ler as políticas de privacidade dos serviços que utiliza, sem nem entrar no mérito de entendê-las, dada a densidade proposital do juridiquês.

O sistema não foi desenhado para ser compreendido. Foi desenhado para ser aceito. As grandes empresas precisam dos seus dados. Já foi dito que quando um produto é gratuito, o produto é você. Acontece que as empresas cobram pelos serviços (os planos pagos de IA, uso com componentes extras, venda de créditos para usar os serviços por mais tempo ou com “vantagens” etc), e, com isso, ganham duplamente: com o seu dinheiro e com o dinheiro de quem pagou pela sua inexistente privacidade. Não é uma questão que você quis dar os dados de livre e espontânea vontade, mas muitos serviços agora só podem ser usados se logar com a conta do Google, Facebook etc. É chantagem e extorsão, na melhor das hipóteses.

A solução, portanto, não pode ser individual. Matz defende que a proteção à privacidade precisa migrar da responsabilidade do usuário para soluções sistêmicas: padrões de privacy-by-design, configurações restritivas como opção padrão (em vez do contrário), redes descentralizadas que processam dados localmente sem precisar enviá-los a um servidor central, e modelos coletivos de governança de dados como os chamados data trusts. Em outras palavras, a escolha segura precisa ser a escolha fácil,  não a escolha que exige pesquisa, configurações manuais e tolerância a serviços deliberadamente degradados para quem ousa resistir.

Porque os dados são permanentes, mas as lideranças das big techs não são. O que ficará da era dourada da vigilância digital não é o CEO que a projetou, mas o perfil que você construiu sem saber, e que continuará sendo comprado e vendido quando você já não se lembrar sequer de ter concordado com aquela política que nunca leu.

Scott McNealy saiu da Sun Microsystems em 2006. Seus dados, no entanto, seguem na ativa.


Fonte: The Conversation

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