
O Brasil já foi campeão mundial em futebol, carnaval e corrupção (ok, esse último ainda é e em larga distância), mas nada pode ser tão escroto que não se pode piorar e, para isso, temos a velha receitinha de sempre: religião! Entre a maravilhosa tendência brasileira à insânia e ao crime, agora inventou-se o telemarketing do além. O herói da fé nesta edição vem com MBA em 171 e decidiu transformar o Pix em dízimo versão fast-food: rápido, sem nota fiscal e com promessa de cura mais instantânea que miojo. Se a Enron tivesse contratado esse cara, a empresa ainda estaria de pé, com um pastor no conselho e Jesus na diretoria financeira. Eu ouvi um Amém?
Mandando dim-dim celestial e dando balé na Receita Federal e seguindo a receita do crime, esta é a sua SEXTA INSANA!
Henrique Santini é pastor que virou evangelizador digital e tirador de dinheiro internético. O modelo de negócios era simples: nada de rezar de joelhos, só apertar play. Áudios prontos, tipo aqueles da URA da operadora: “Para bênção financeira, digite 1. Para cura da dor lombar, digite 2. Para prosperidade eterna, aguarde na linha e faça o Pix.” Eu já dei um exemplo antes. A genialidade está em transformar a fé em telemarketing agressivo, mas sem o bônus de ganhar um decoder de TV a cabo.
E a polícia, sempre em busca de emoção, encontrou na casa do pastor sete celulares, euros, dólares, cartões, e – a cereja no bolo gospel – uma arma de brinquedo. Imagina a cena: o cara preso em nome de Jesus e de São Nerf. Aposto que até o ladrão da esquina teria vergonha de sacar uma pistola de plástico em 2025.
Os atendentes? Coitados. Recrutados no OLX, sem precisar de fé, só de meta prontos para trabalhar no Telemarketing do Senhor. E com direito a menor de idade trabalhando; mesmo porque, nada diz “Cristianismo Moderno” como usar adolescente para bater meta de salvação via WhatsApp. Meta na Meta não batida? Tchau, empregado. Até no telemarketing de Jesus tem RH satânico, ou seja, RH.
Quando a batata assou, Santini soltou a clássica: “Sou vítima de perseguição religiosa.” Ah, claro. Porque a polícia não estava atrás dos R$ 25 mil em espécie, dos 3,3 milhões em Pix, nem dos dólares escondidos. Eles estavam revoltados com o fato de Moisés não poder mais abrir o Mar Vermelho em rede nacional.
No fim, 23 denunciados, crimes dignos de spin-off de Breaking Bad versão Jesus Texano. Estelionato, lavagem de dinheiro, associação criminosa… faltou só vender água do Rio Tietê como “água do Jordão” em garrafinha de 500 ml. E o pior: vai ter sempre aquele fiel que defende. O cara doa o salário, perde o emprego, a dignidade, mas acha que a tornozeleira eletrônica do pastor é só mais uma “coroa de espinhos digital”.
Esse é o Brasil, lugar no qual o milagre de verdade não é andar sobre as águas. É sobreviver sem cair num golpe desses. Mas enquanto tiver crente transferindo o que não tem e pastor comprando dólar na Western Union, a gente segue firme no caminho da salvação: rumo ao Pix celestial, onde até os anjos têm call center e trabalham de headset.

Um comentário em “Evangelho segundo o Telemarketing: conversão garantida ou seu dinheiro de volta (SQN)”