Como borrões falsos, chá e cara de pau enganaram a elite do mundo da arte

E hoje falaremos sobre o maravilhoso mundo do mercado da arte, aquele grande teatro onde senhores de paletó e lencinho no bolso no bolso fingem entender o significado de um retângulo vermelho pintado sobre um fundo um pouco menos vermelho, enquanto sussurram “genial” com lágrimas nos olhos e dólares nas mãos. Pois bem, prepare seu lencinho de linho egípcio: porque alguém pintou um monte de rabiscos falsos, assinou como se fosse Pollock ou Rothko, vendeu por milhões e enganou gente demais que deveria saber mais.

Vamos aos fatos. Entre taças de Chardonnay no Carlyle e jantares em Sant Ambroeus, o que nós conhecemos como “alta sociedade” é um bando de esnobes com mais dinheiro do que bom senso, prontos para caírem em algum golpe de algum sujeito com muita lábia, pouco dinheiro, menos escrúpulos ainda.

A tão-chamada high society novaiorquina (que é como influenceiros eram chamados antes do YouTube e redes sociais) foi vítima de um dos maiores golpes artísticos do século. E não foi com Van Gogh, não foi com Rembrandt. Foi com… Pollock. Sim, o homem que parece ter pintado enquanto espirrava tinta de uma escada. E com Rothko, o monge do “dois blocos de cor e um título profundo”, que levou o conceito de minimalismo ao extremo do abuso ocular.


Pode vender como um Pollock se ninguém descobrir quem fez

A responsável por essa comédia trágica? Ann Freedman, ex-presidente da Knoedler & Co., a mais antiga galeria de arte de Nova York, até fechar as portas como quem encerra um culto depois de descobrir que o líder espiritual usava tinta acrílica comprada no Walmart.

Tudo começou nos anos 1990, quando Glafira Rosales, uma negociante de arte de Long Island com credibilidade equivalente à de um guru quântico no Instagram, apareceu na galeria Knoedler & Co. com uma história linda demais para ser verdade (e, portanto, falsa): um misterioso colecionador mexicano chamado “Mr. X” (se o trocadilho não ligou os alertas e você, aconteceu o mesmo com Freedman), havia herdado obras secretas de nomes como Jackson Pollock, Mark Rothko, Robert Motherwell, entre outros. Nenhum recibo. Nenhuma prova. Só confiança e muito, muito marketing!

Dramática representação de como obras de arte são avaliadas em galerias:

Freedman – alguém que deveria conhecer bem o ramo no qual trabalha, mas a ganância foi maior – topou embarcar nessa jornada espiritual rumo ao fracasso, aparentemente acreditando que a autenticidade artística pode ser medida pela vibração cósmica da tela e não, sei lá, pela procedência e pigmento. Mrs. Freedman caiu na lábia de Rosales que apresentou as “obras-primas” pintadas pelos grandes… cahan… mestres Rothko e Pollock. Tudo muito bem, tudo muito legal, tudo muito maneiro, mas realmente… mas… realmente…

As obras eram falsas!

As pinturas eram feitas por Pei-Shen Qian, um artista chinês formado na China Academy of Fine Arts, que vivia discretamente em Queens e vendia suas telas por 200 a 500 dólares na calçada. Qian foi apresentado a Rosales pelo namorado dela (porque é claro que o golpe precisa de romance, senão nem tem graça). Inspirado pelos mestres, Qian copiou Rothko, Pollock, de Kooning e afins, não com o intuito de enganar o mundo, segundo ele, mas porque achava divertido.

Sim.. tenho certeza que o Pei se divertiu muito vendendo suas versões artísticas de pastel de flango.

O escândalo eclodiu de verdade quando um magnata com nome de vilão de 007 — Pierre Lagrange — percebeu que seu “Pollock de 17 milhões” continha uma tinta inventada depois que Pollock já tinha virado adubo artístico. Ele ficou tão indignado que ameaçou “colocar fogo no cabelo da Freedman”. E aí, meu amigo, nem os colecionadores mais blasés conseguiram segurar a compostura.

No fim, mais de 80 milhões de dólares em arte falsa circularam por museus, colecionadores, casas de leilão. E o mais bonito? Quase ninguém foi preso. Qian fugiu pra China, Rosales (a vendedora) virou garçonete com tornozeleira, e o chefão por trás da galeria morreu antes de precisar explicar por que vendia borrões por preço de ilha no Caribe.

E o que aconteceu com as obras falsas? Bom, algumas foram destruídas. Outras, apreendidas. Mas muitas continuam penduradas nas paredes dos próprios colecionadores, os quais, humilhados demais para admitir que compraram “arte” feita com pozinho de chá e tinta de escola infantil, preferiram manter a farsa na decoração.

Ah, sim: Qian agora é um artista cultuado em algumas galerias chinesas. Porque claro que é isso que ele é. O mundo da arte não perdoa a mediocridade, a menos que ela seja falsificada com convicção.


Fonte: NY Post, meu tabloide Murica Fuck Yeah favorito

3 comentários em “Como borrões falsos, chá e cara de pau enganaram a elite do mundo da arte

  1. Eu compraria arte de doguinho. Sabe aquelas que os donos colocam a tela e a tinta num saquinho e o doguinho pisa em cima? Eu compraria numa boa antes de chamar Pollock de arte.

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