Quando um exército de robozinhos capitaneados por um programador humilhou big techs

Houve um tempo, não muito distante, em que você entrava numa loja, escolhia um produto, pagava e, pasme, a coisa era sua! Comprava um disco e ouvia até a humanidade desenvolver orelhas de reposição. Com os programas era parecido: pagava, instalava e usava aquela versão enquanto o computador aguentasse. Isso sempre foi maravilhoso.

Claro, foi uma corrida para impedir que as pessoas espalhassem seus programas com os amigos, e daí veio a corrida para impedir, craqueadores burlavam a segurança e estava tudo bem, já que a verdade é que Microsoft não estava nem aí se o Zezinho morador de Nova Iguaçu tinha comprado um Uíndous Jack Sparrow. Ela ganha dinheiro com as empresas, mesmo.

Isso durou até que algum gênio do Capitalismo percebeu que vender uma vez só era um desperdício monumental de oportunidades. Por que receber uma vez se dá para cobrar todo mês, na melhor das escravaturas? A ganância ganhou nome respeitável, “software como serviço”, e o Photoshop virou inquilino permanente do seu computador, o Office passou a cobrar condomínio, e até programas que funcionavam sem internet descobriram uma necessidade espiritual de conversar com servidores distantes.

O modelo era perfeito porque a prisão era elegante: a porta ficava aberta, mas atravessá-la podia custar o emprego. O usuário tem atalhos decorados, arquivos de anos e clientes que exigem o formato certo, e ninguém troca de programa na véspera de uma entrega. Era o sétimo céu da extorsão… Atpe que alguém disse que bastava!

No fim de setembro de 2026, um programador americano, daqueles que, segundo ele próprio, foram cobrados mais de uma vez por multa de cancelamento da Adobe, resolveu testar uma ideia inconveniente para os donos do condomínio: e se robôs que não dormem pudessem reconstruir os programas? O sujeito foi multado por tentar sair e decidiu sair construindo outro prédio.

A Adobe enquanto vítima culpada

Em 30 de setembro, às 2h12, Brandon Thomas criou um repositório vazio no GitHub. Três horas depois, publicou 42 mil linhas de código de um editor de imagens com camadas, máscaras e curvas de cor: o embrião de um clone do Photoshop, o PhotoCraft. Em doze dias, eram doze programas gratuitos e abertos, entre eles alternativas ao Illustrator, ao Premiere e ao Lightroom, e depois Word, Excel, PowerPoint, AutoCAD e Pro Tools. Era como começar uma garagem na segunda e anunciar na sexta um condomínio, um shopping e um aeroporto internacional. Tudo com cheiro de cimento fresco, naturalmente.

A manchete irresistível foi “clonaram o Photoshop em três horas”. Em três horas se ergue a fachada de um prédio de cinema, mas não é aconselhável morar no décimo andar. Os próprios desenvolvedores estimam o PhotoCraft em cerca de 45% de prontidão para trabalho profissional, 22 das 25 metas de desempenho ainda não foram batidas, e os arquivos que ele salva ainda dão problema no Photoshop original, o tipo de inconveniente que, numa gráfica, vira pedido coletivo de demissão, mas não pro Zézinho que quer editar a foto de sua viagem a Belford Roxo.

Mesmo assim, o que antes exigia anos de equipe numerosa, saiu em uma questão de dias, e o fato de o prédio ainda não ter elevador não torna menos espantosa a velocidade com que os andares sobem. Mas o que Brandom fez? Kibou o código na cara dura? Não, ele foi mais engenhoso. Legalmente engenhoso!

Quem, quantos e com quê

Antes de seguir, convém apresentar o réu. Brandon Thomas é engenheiro de Atlanta, com cerca de quinze anos de carreira e uns dez de Rust; já foi engenheiro na Square e CEO da Storyteller.ai, e criou o ArtCraft em 2025. O currículo importa porque desmonta a fantasia do “garoto que pediu um Photoshop ao robô”. Ele chegou com ferramenta nova e bagagem velha: o modelo Opus 5.5 foi lançado em 22 de setembro, e oito dias depois apareceu a pasta vazia. Havia pressa, e havia rancor, combinação historicamente produtiva. Sabem a hist´-oria de Bem-Hur? Não é uma história de fé (apenas). O que o manteve vivo longos anos foi a sua sanha por vingança. O ódio faz maravilhas quando bem direcionado.

No começo, foi um homem só: há quem registre que não existe time por trás dos Crafting Apps, mas isso não durou. Em oito dias, eram 523 commits e 30 contribuidores, e só o irmãozinho não-reconhecido do Photoshop, o Photocraft, somou mais de 200 pessoas participando, cujo repositório já passa de 2 mil alterações. O que começou como obra de um sujeito virou mutirão, e Thomas oferece recompensas por bugs, o que, no jargão do mercado, se traduz por “me ajudem a segurar isso de pé”.

E o mutirão tem funcionários que não pedem férias; são outros que resolveram dizer NÃO aos desmandos de, senão todas as big techs, pelo menos uma. Segundo o arquivo de contribuições, das 1.302 alterações analisadas no PhotoCraft, 736 (cerca de 56%) levam a coautoria do Claude Opus 5.5, da Anthropic; no clone do AutoCAD, as cem últimas alterações vêm assinadas por IA. A lista cita ainda Fable, Mythos, GPT, Copilot (MEU DEUS! ELE SERVIU PRA ALGO!) e Devin: pelo menos seis ferramentas de IA, e o programa tem uma aba chamada “Modelos” com os créditos das máquinas, cortesia rara numa indústria que costuma esconder o estagiário. Se a lista estiver certa, o Copilot, da Microsoft, ajudou a clonar o Office da Microsoft, o que é o suprassumo da ironia sádica.

O resultado, em Rust e com licença MIT ou Apache-2.0, são doze programas (o site chega a listar treze nomes). O PhotoCraft tem compositor em GPU, roda no navegador via WebAssembly, 67 ferramentas, mais de 500 comandos e mais de 1.700 testes, distribuídos em 24 módulos; o FilmCraft tem 35 módulos. O PhotoCraft passa de 57 mil estrelas no GitHub, e FilmCraft, LightCraft e PdfCraft ultrapassam 10 mil cada. Quem paga a conta? O negócio de vender créditos para geração de imagem e vídeo por IA cobre os custos de desenvolvimento, e os programas centrais continuam gratuitos.

Sala limpa: o bolo e a receita

Para entender como isso pode ser legal, a técnica tem nome de laboratório de vírus: Engenharia Reversa de Sala Limpa.

Pensem numa padaria da esquina fabulosa que tem um bolo famoso, delicioso, caríssimo e uma receita secreta. Roubar a receita é crime, claro, pois, viola as leis de patente. Mas o sabor do bolo não é de ninguém: ninguém é dono do fato de que bolo bom é fofo, tem chocolate e cheira a baunilha. Então, um amigo prova o bolo e escreve o que sentiu (textura, sabor, aroma aparência etc), sem ver a receita. Esse papel vai para um segundo amigo, que nunca entrou na cozinha da padaria. Ele tenta, queima bolo, refaz, e um dia acerta um bolo igualzinho com uma receita que é só dele. Nenhum segredo atravessou a porta; só o resultado.

Mas acertar o bolo assim demora muito tempo. Então, o segundo amigo manda para um confeiteiro estrangeiro de mão cheia, mas que nunca viu o bolo original. Com sua experiência, esperteza e rapidez, ele consegue fazer um bolo com o mesmo sabor, mas sem necessariamente levar os mesmos ingredientes. Se não tem os mesmos ingredientes, não seguiu a mesma receita, logo, o bolo pode ser vendido ou dado de presente, não importa. Não violou o direito autoral da padaria chique.

A “sala” é a separação entre quem estuda o original e quem escreve a cópia, e é “limpa” porque nada do original pode entrar.

A lei aceita porque o direito autoral protege a escrita da receita (o código), não a ideia nem a função. Escrever do zero um programa que faz a mesma coisa não é copiar. Mas não é salvo-conduto: patentes protegem invenções, contratos de uso (aqueles que ninguém lê) podem proibir engenharia reversa, e marcas continuam sendo marcas, razão pela qual os projetos avisam que não têm relação com a Adobe ou a Microsoft.

A estratégia de Brandon e seu exército artificial

O truque não foi pedir “faça um Photoshop” a um robô. Foi método, em cinco peças.

Terreno. O PSD, formato dos arquivos do Photoshop, tem documentação publicada pela própria Adobe, e é por isso que os GIMP da vida conseguem salvar no mesmo formato. Reimplementar o que é público é bem mais defensável do que fuçar no que é secreto.

O original como juiz. O projeto não olha como o Photoshop faz; confere o que ele entrega. Há centenas de arquivos PSD reais para testar, e um verificador cruza mais de 600 itens de menu com equivalentes no clone. Ressalva honesta: um botão com o nome certo não garante que faça a coisa certa, como qualquer dono de controle remoto universal sabe.

Comandos. Tudo no programa é comando (menu, ferramenta, janela), acionável por interface, linha de comando ou servidor MCP, o protocolo que deixa agentes de IA operar programas. Pedaços pequenos e verificáveis são justamente onde robô rende mais, e um programa pilotável por máquina torna irrelevante a lenda de que a interface da Adobe levou décadas para ser lapidada.

Regimento. O arquivo AGENTS.md é o regulamento da obra: cada agente trabalha em sua pasta, ninguém mexe no que outro edita, e, quando a memória da sessão acaba, deixa um diário para o próximo. Sem isso, vira obra pública brasileira, em que uma equipe instala o encanamento enquanto outra, sem saber, concreta a tubulação.

Competência de quem pede. Num texto anterior desta série, eu duvidava de que bastasse “aprender a pedir” à IA para dispensar conhecimento. Aqui, quem coordena o enxame é um veterano que sabia o que dividir, medir e rejeitar, e que começou sozinho antes de virar maestro de mais de duzentos colaboradores e meia dúzia de robôs. A IA não criou a competência; multiplicou-a. Qualquer pessoa pode pedir a construção de uma ponte; isso não significa que deva atravessá-la sem conversar com um engenheiro.

A parede de papel

Sejamos honestos: a “sala” tem rachaduras. No clone do Illustrator existe uma regra, escrita em 8 de outubro, uma semana depois do início, proibindo abrir qualquer programa da Adobe, ou seja, o cinto de segurança foi instalado depois da batida. No clone do Photoshop, a documentação conta que o programa instalado foi inspecionado, e o repositório usa arquivos PSD de teste criados no próprio Photoshop. É observação honesta do comportamento, mas longe do isolamento que o nome promete.

O problema maior é filosófico. Na sala limpa clássica, dava para provar que a equipe nunca viu o original. Com IA, cada sessão do agente começa vazia, mas o modelo foi treinado em oceanos de texto, e ninguém sabe ao certo o que ele já viu. O contexto está limpo; a memória estatística do modelo é outra história. Seria muito conveniente se bastasse contratar um robô para legalizar o que seria problemático nas mãos de um humano.

E o estado da obra pede humildade: só o PhotoCraft e o PdfCraft estão rotulados como “early alpha”; os demais, “em desenvolvimento”, com relatos de falhas e comportamento imprevisível. A estimativa do próprio time para o FilmCraft é de 50% a 60% de prontidão para trabalho real. Falta muito, e eles dizem isso em voz alta, o que já os coloca acima de boa parte do mercado em honestidade.

Dos escritórios para os consoles

A mesma jogada já chegou aos videogames. A Sony, segundo a imprensa especializada, cancelou sua iniciativa de levar exclusivos ao PC, e os fãs resolveram do jeito deles. Como o PS5 tem arquitetura parecida com a de um PC, o trabalho é traduzir as chamadas de sistema e interfaces exclusivas do console para as que Windows e Linux entendem. O AnyPS5, projeto aberto, vai além do emulador: reescreve os executáveis do PS5 em programas nativos de Linux e Windows, sem emulação, já mapeou 87% das bibliotecas de sistema catalogadas, e um jogo indie em 2D roda a 60 quadros por segundo numa GTX 1050 Ti.

Não é ator fingindo ser o livro; é tradutor que reescreve o livro em outro idioma. E ainda é cedo: o projeto não tem versão pública, e o GTA VI, previsto para PS5 e Xbox em 19 de novembro, não tem PC anunciado pela Rockstar. A mesma pergunta pulsa em cada caso: se o dono não oferece, quem impede o resto do mundo de fazer?

O aluguel acabou?

Ainda não. Mas já dá para brindar à rachadura. A assinatura sobreviveu porque o custo de reconstruir era altíssimo, e agora esse muro está virando meio-fio. Formatos fechados, atalhos decorados e a floresta de cursos e plugins, os três grilhões do cativeiro, são cutucados ao mesmo tempo por um programa que abre PSD, repete menus e foi pensado para ser operado por robôs. As gigantes que “almoçam juntas”, cobrando o mesmo e reajustando no mesmo ano, terão de provar a cada mês o que entregam além do que o clone já faz. Terão de melhorar produtos, baixar preços ou inovar de verdade, perspectiva desagradável para quem passou anos descobrindo quantos planos Plus, Pro e Enterprise cabem entre o usuário e a porta de saída.

E há uma ironia saborosa: a principal ferramenta do ArtCraft foi o Claude, da Anthropic. As gigantes da IA vendem escavadeiras para lucrar com a construção civil e descobrem que um comprador resolveu usá-las para derrubar os muros do condomínio.

Sem romantizar, porém: o ArtCraft também vende créditos de IA, e é isso que paga o desenvolvimento. O inquilino pode conseguir a casa própria e descobrir que ainda paga água, luz e manutenção; a diferença é poder escolher a quem pagar. Código escrito às pressas pode corromper arquivos, e é imprudente trocar ferramentas profissionais por versões experimentais. As empresas estabelecidas podem recorrer à Justiça, e os tribunais funcionam no ritmo geológico que conhecemos.

A moral é simples. Durante anos nos convenceram de que ninguém é dono de nada e de que todos somos inquilinos de tudo. Bastaram um programador multado por tentar cancelar e um exército de robôs para lembrar que inquilino que aprende a construir deixa de ser inquilino. Depois de anos vendendo a promessa de que a inteligência artificial mudaria tudo, a indústria tecnológica começa a descobrir que “tudo” inclui os próprios negócios.

Enquanto existir gente como Brandon Thomas – programadores que pegam as ferramentas que as big techs vendem e as usam para humilhar empresas trilionárias –, as gigantes não terão a palavra definitiva e elas mesmas tiveram o saborzinho do Apocalipse Tecnológico em seus quintais. Os que vociferam contra as IA “por causa dos programadores” parecem não perceber a ironia: foram justamente programadores que usaram a ferramenta para expor o quanto o modelo de aluguel digital é frágil. As IA não são o Sistema; são ferramentas do Sistema que podem, devem e serão usadas contra o Sistema. O inquilino aprendeu a construir, e isso já não tem volta.


Fontes:

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