
Biólogos são criaturas fascinantes. Eles passam mais de um século tentando responder uma pergunta que parece simples: onde termina um organismo e começa uma sociedade? Parece até algo que aquela inutilidade chamada Filosofia diria, mas biólogos realmente levam a sério e a pergunta é direta e precisa, não alguma bobagem metafísica. Em 1910, William Morton Wheeler olhou para um formigueiro e viu operárias e rainha funcionando como tecidos diferentes de um mesmo corpo. A ideia de “superorganismo” pegou. A colmeia, nessa leitura, deixa de ser um grupo de insetos e vira um único bicho com milhares de células aladas e o sistema reprodutivo entregue a uma única fêmea.
Pois bem: se a colmeia é um organismo, ela tem ciclo de vida, nasce, cresce, se reproduz e morre, certo? Errado, ou pelo menos esse “certo” nunca foi consenso. Uma revisão científica recém-publicada resolve atacar a questão de frente e propõe que boa parte da literatura sobre abelhas melíferas trocou pais por filhos e passou décadas medindo o ciclo de vida de uma entidade que, em essência, estava de cabeça para baixo.
Hannes A. Bonhoff é mestrando do Departamento de Biologia da Universidade de Lund, na Suécia. A revisão nasceu como parte da sua dissertação de mestrado. O coautor é Heikki Helanterä, da Universidade de Oulu, na Finlândia, mas eu não vou colocar link pra PhDeus que arruma autoria com seus estagiários de luxo.
Vamos ao problema. Para Edward O. Wilson, em 1971, uma colmeia é “potencialmente imortal”: a rainha morre, outra assume, as operárias se renovam, e o conjunto segue firme, como a hidra que troca todas as células. Para Moritz e Southwick, em 1992, a colmeia tem um genótipo definido pela rainha e pelos zangões que a fecundaram. Rainha nova, genótipo novo, organismo novo. É o Navio de Teseu, mas com mel.
Os autores montam um experimento mental com três cavidades de árvore e concluem que a versão “imortal” só se sustenta por uma identificação invertida de quem é pai e quem é filho. A versão mortal explica tudo com reprodução sexuada simples, sem exigir mistura de clonagem com sexo e sem criar filhos que não são clones. Navalha de Occam na veia.
Para tornar a analogia com os animais mais evidente, eles propõem rebatizar as peças. Zangões viram “abelhas-espermatozoide”, rainhas virgens são “abelhas-óvulo”, a rainha fecundada é o zigoto, a rainha poedeira é a “abelha-tronco” (uma célula-tronco totipotente) e as operárias são as “abelhas somáticas”. O superorganismo ganha, então, estágios de desenvolvimento: zigoto, embrião, feto, juvenil, adulto e, por fim, pai ou mãe. E aqui a coisa fica esquisita no melhor sentido, porque a nova colônia se desenvolve dentro da mãe. As operárias da colônia materna funcionam como útero, o alimento das nutrizes como leite uterino, e as primeiras nutrizes da prole fazem as vezes de placenta. A colmeia seria um organismo vivíparo, e a mãe vai se desfazendo à medida que as operárias dela morrem e as da filha assumem, até a separação completa.
Existem, segundo o estudo, quatro caminhos para a reprodução feminina: a substituição da rainha (a “supersedura”), o que ocorre no ninho original depois da saída do enxame principal, o que acontece nos enxames secundários e a reprodução espontânea após a perda súbita da rainha. Uma única espécie pode usar três deles num mesmo ciclo reprodutivo, o que é um nível de improviso que nem a Anitta consegue.
E o enxameamento, aquele espetáculo clássico de nuvem zumbindo? Tradicionalmente considerado reprodução assexuada, ele é rebaixado a estratégia de sobrevivência, porque acontece antes da fecundação. O enxame principal é a mãe em fuga, levando a rainha velha para outro canto. A analogia é com certos vermes marinhos poliquetas, que soltam pedaços do corpo carregados de gametas e depois se regeneram. Os enxames secundários equivalem a esses pedaços, que servem para multiplicar a prole.
Há ainda os cuidados parentais, que incluem deixar o ninho estabelecido de herança (um comportamento raro, visto também em esquilos) e até guiar as filhas até a comida por meio da dança do requebrado.
As consequências práticas incomodam. Estudos de sobrevivência de colônias selvagens medem, na verdade, quanto tempo um ninho permanece ocupado por uma linhagem de mães e filhas, não a vida de um organismo. E a prática apícola de trocar rainhas por outras, sem parentesco, passa a ser descrita como matar um superorganismo e forçá-lo a gestar a prole alheia. Um bom aviso para quem acha que apicultura é só mel e coador.
A pesquisa foi publicada no periódico Insectes Sociaux.
