
Toda família tem aquele parente que ninguém sabe explicar direito quem é, de onde vem e como apareceu na nossa história. Sujeito apareceu uma vez no Natal, contou uma história esquisita sobre onde morava, e nunca mais deu as caras. Pois, é, a genética acaba de descobrir que a espécie humana como um todo também tem um desses. Só que, em vez de sumir depois da ceia, esse parente sumiu há mais ou menos 800 mil anos, sem deixar endereço, sem deixar ossos, sem deixar absolutamente nada que um paleontólogo pudesse desenterrar num dia de sorte. E mesmo assim, ele deixou herança.
Humanos modernos não são a única ramificação da árvore genealógica humana. Ao longo de milhões de anos, cruzamos caminho (e genes) com outros hominídeos, os neandertais na Europa e Ásia ocidental, os denisovanos conhecidos por meia dúzia de fósseis siberianos e tibetanos, e provavelmente outros grupos que a paleontologia sequer catalogou. Sabíamos disso porque conseguimos comparar DNA fóssil desses parentes com o nosso.
O problema é que, na África subsaariana, não existe DNA antigo preservado de nenhum hominídeo arcaico. O calor e a umidade tropical destroem material genético com uma eficiência digna de inveja. Então, como provar que nossos ancestrais diretos também se misturaram com “gente” antes de sair da África, há uns 70 mil anos, se não sobrou nem um fragmento de osso para sequenciar? A resposta, publicada agora, veio de um lugar improvável: o próprio DNA de gente viva.
A drª Priya Moorjani é professora associada de Biologia Molecular e Celular na Universidade da Califórnia em Berkeley. Junto com Yulin Zhang (doutoranda em Berkeley, ou seja, estagiária de luxo da drª Moorjani) e o dr. Arjun Biddanda, Priya toca uma pesquisa dedicada a reconstruir a história evolutiva humana através de métodos computacionais e genômica populacional, cujo trabalho pode ser conferido no site dela: moorjanilab.org.
A sacada do grupo foi tratar o genoma não como um documento único, mas como uma coleção de milhares de pequenas árvores genealógicas, cada uma escondida num trecho curto de DNA que foi embaralhado (recombinado, no jargão) a cada geração. Reconstruindo essas árvores corretamente, dá para estimar quando cada pedacinho do nosso material genético chegou ali.
A maior parte do genoma humano remonta a um ancestral comum de 100 a 200 mil anos atrás. Mas DNA herdado de populações muito mais distantes, como neandertais e denisovanos, produz um galho anormalmente comprido nessa árvore, como um parente que insiste em aparecer em fotos de família de décadas que ele nem viveu.
Para caçar esses galhos suspeitos, a equipe criou uma ferramenta batizada de TRACE (das iniciais em inglês para algo como “rastreando contribuições arcaicas via estimativa de grafos de recombinação ancestral”, um nome que só cientista com tara por acrônimos ama). Aplicado a 503 genomas de gente viva espalhada pelo mundo, o método revelou que cerca de 2% do DNA de populações não africanas vem de linhagens arcaicas, número que já era conhecido. A novidade é que metade disso corresponde a neandertais, uma fatia menor a denisovanos, e o restante, entre 0,5% e 1% dependendo da população, não bate com nenhum genoma jamais sequenciado. Essa linhagem “fantasma” apareceu em toda população analisada, inclusive nas africanas, e parece ter se separado do nosso ramo há mais de 500 mil anos, praticamente na mesma época em que neandertais e denisovanos se despediram da família.
O detalhe mais irônico é que esse DNA fantasma foi encontrado justamente em trechos do genoma que os cientistas tratavam como território exclusivamente humano, blindado contra qualquer contaminação neandertal ou denisovana. Uma dessas regiões fica perto do gene FOXP2, associado à capacidade de fala, o que deixa a comunidade científica se perguntando, com uma pontinha de desconforto existencial, quanto da nossa própria voz herdamos de alguém que nunca teve nome.
Moorjani e seu pessoal também identificaram um segundo parente ainda mais antigo, apelidado de “super-arcaico”, descendente de uma linhagem de 1,8 milhão de anos que se cruzou com denisovanos na Eurásia e chegou até nós por tabela, através deles.
Como convém à ciência séria, ninguém está estourando champanhe ainda. Mesmo porque, pesquisa computacional pode apontar qualquer coisa, e falsos positivos são a ordem do dia. Isso implica que a confirmação definitiva dependeria ou de fósseis com DNA preservado (um golpe de sorte, dado o clima africano) ou de checar se essas sequências fantasmas são igualmente distantes de neandertais e denisovanos, o que sugeriria um grupo-irmão equidistante de todos nós.
Por ora, o achado funciona como um lembrete de que a árvore genealógica humana se parece menos com um pinheiro de Natal, arrumadinho e simétrico, e mais com aquelas trepadeiras que tomam conta do muro do vizinho: uma rede emaranhada de encontros, misturas e heranças que a gente carrega sem nunca ter conhecido o remetente.
A pesquisa foi publicada no periódico Science.
