
Existe uma arte que os grandes do Capitalismo dominam com perfeição e raramente discutem em voz alta: lucrar duas vezes com o mesmo ativo. Primeiro na subida, depois na descida. O IPO da SpaceX, concluído em junho de 2026, é o capítulo mais recente de uma história muito mais longa e muito menos inocente do que parece.
A SpaceX abriu capital em 12 de junho no Nasdaq a US$ 135 por ação, chegou a US$ 225,64 quatro dias depois – tornando Elon Musk o primeiro trilionário da história, embora esse dinheiro não exista propriamente dito – e hoje negocia em torno de US$ 155. Mais de US$ 600 bilhões evaporaram em oito dias. Para quem comprou no pico, a experiência tem sido dolorosa. Para quem sabia o que estava fazendo, foi um plano executado com a precisão de um lançamento do Falcon 9.
Quem já viu esse filme dezenas de vezes sabe o final.
Em 2019, Adam Neumann levou a WeWork ao mercado com avaliação de US$ 47 bilhões. Uma imobiliária com pretensões filosóficas, Neumann afirmava que o valor de um negócio deveria considerar sua “espiritualidade”. O mercado fechado embarcou no hype. O aberto, não. O IPO implodiu, a empresa faliu em 2023. Enquanto isso, Neumann havia vendido mais de US$ 700 milhões em ações antes da abertura de capital e saiu levando US$ 1,7 bilhão. O castelo desabou, mas o arquiteto já tinha saído pela porta dos fundos.
Antes da WeWork havia a Theranos: Elizabeth Holmes captou US$ 1,4 bilhão com a promessa de revolucionar exames de sangue com uma gota. Empresa avaliada em US$ 9 bilhões, tecnologia que não existia, Holmes condenada a onze anos de prisão. A mitologia funcionou por anos. O manual é o mesmo. Só muda o cenário.
Com a SpaceX, o mecanismo tem uma elegância particular: é inteiramente legal e está impresso no próprio prospecto. Como sempre acontece nesses espetáculos, a transparência regulatória existe, mas poucos leem 38 páginas de fatores de risco no meio da euforia.
A empresa colocou menos de 5% das ações em circulação pública. O restante está preso num sistema de lock-up escalonado: 20% desbloqueados em julho ou agosto, ondas de 7% ao longo do segundo semestre, liberação quase total em dezembro. Musk e os grandes investidores institucionais só poderão vender em 2027. Com tão poucas ações disponíveis para empréstimo, apostar na queda custa entre 15% e 50% ao ano. Na prática, isso significa que os grandes vendedores a descoberto não estão ausentes por medo. Estão aguardando.
A operação é simples: vender a descoberto antes do desbloqueio, esperar a pressão vendedora adicional derrubar o preço, recomprar mais barato e embolsar a diferença. O calendário está publicado no prospecto. Não é segredo. Só exige capital suficiente para esperar, e quem tem esse capital já sabe há muito tempo o que vai fazer com ele.

Vender a descoberto é literalmente vender o que não se tem; é como um amigo seu querendo comprar o seu celular Galaxy Ultramegapowerrangerjiban XPTO por 10 mil reais. Você vende feliz, mas promete entregar depois, sabendo que vai ser lançado o Galaxy Caralhovskytornadoplusjamanta, o que vai jogar o preço do XPTO (eu quis encurtar) para 5 mil reais. Daí você compra quando o preço cair e entrega a bagaça pro seu amigo otário
O paralelo com o petróleo é iluminador. Nos últimos meses, o Brent oscilou entre US$ 73 e mais de US$ 113 ao ritmo das tensões entre EUA e Irã: sobe quando o conflito escala, despenca quando um cessar-fogo é anunciado. O acordo de junho na Suíça derrubou o barril imediatamente, mas o negociador iraniano avisou que o Irã manterá suas “linhas vermelhas” e os americanos que ataques podem recomeçar. O próximo round está marcado. É o mercado funcionando como sempre: quem tem a informação e o capital dança na gangorra enquanto o resto assiste.
As janelas de desbloqueio da SpaceX funcionam exatamente assim. Cada data gera pressão vendedora previsível. Quem monta a posição vendida antes do desbloqueio colhe o fruto da queda que, ao vender, ajuda a precipitar.
O prospecto S-1 foi chamado de “leviano, vazio, alucinatório e beirando à desonestidade” pelo analista Ed Elson, do podcast Prof G Markets. A Morningstar estimou o valor justo em US$ 780 bilhões, menos da metade da avaliação de estreia. O ativo estava precificado a 107 vezes a receita, com US$ 41,3 bilhões em prejuízos acumulados desde 2002. Tudo no prospecto. Nada como uma narrativa bem contada para fazer o balanço parecer detalhe irrelevante.
A ação disparou 50% em quatro dias porque o mercado não estava comprando uma empresa. Estava comprando a mitologia Musk. E o tempo necessário para que os de dentro se posicionassem para a descida foi exatamente aquele: quatro dias de euforia, pico de US$ 225, e então a gravidade fez o trabalho. O de sempre: o público entra pela porta da frente empolgado e sai pela janela com a conta.
A SpaceX pode ser uma empresa extraordinária; os foguetes funcionam, o Starlink tem clientes reais. Mas o preço de uma ação e o valor de uma empresa são coisas distintas, e essa distinção costuma demorar para ficar evidente para quem comprou na empolgação. Enquanto a diferença não fica evidente, o negócio da queda segue muito bem. Com data marcada no calendário.
O negócio da queda não é uma falha do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi projetado. A ação vai subir, vai descer, vai estacionar? Ninguém tem como saber… exceto aqueles que comandam este sobe-desce.
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