Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas

Você não tem privacidade. Não existe mais esse conceito, a não ser como lembrança nostálgica, do tipo que os mais velhos evocam com um suspiro e um olhar distante, como quando falam em Fusca ou em disquete. Seu celular sabe onde você está, com quem você conversa, o que você consome, o que você deseja consumir e, se você usa qualquer aplicativo minimamente invasivo, provavelmente sabe quantas horas você dormiu e se estava nervoso quando acordou, desenhando um mapa fiel das suas andanças com uma precisão que qualquer detetive de noir dos anos 1940 encararia com admiração e ciúme.

É com essa constatação um tanto assustadora que chegamos a uma das aplicações mais elegantes e, convenhamos, levemente irônicas da vigilância de massas: usar esses dados de mobilidade para prever onde uma epidemia vai explodir antes que ela exploda. A ideia soa como aquela virada de enredo em que o vilão descobre que pode usar seus poderes para o bem, exceto que, neste caso, o vilão são as telecomunicações e o bem são as crianças que não vão morrer de sarampo.

A drª C. Jessica E. Metcalf parece que não gosta do primeiro nome. Ela é professora de Ecologia, Biologia Evolutiva e Assuntos Públicos na Universidade de Princeton, e tem cargo conjunto no Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva e na Escola de Políticas Públicas e Assuntos Internacionais. Metcalf se diz demógrafa com interesses que se espalham pela Ecologia Evolutiva, dinâmica de doenças infecciosas e políticas de saúde global, e tem mais de 22 mil citações acadêmicas, o que no mercado dos currículos científicos equivale a chegar ao trabalho numa limusine e óculos thug life.

O estudo em questão foi publicado em 2018 e desenterrado recentemente pela Folha, talvez num daqueles períodos em que a semana está lenta e o estoque de notícias ruins já foi devidamente esgotado. Mas o fato de a pesquisa ter oito anos não a torna menos fascinante. Ela (a pesquisadora, não a Folha) olhou para uma epidemia de sarampo que varreu o Paquistão entre 2012 e 2013, deixando para trás mais de 30 mil casos notificados, e fez uma pergunta simples e difícil ao mesmo tempo: seria possível ter previsto onde e quando esse surto ia se alastrar, usando dados de cobertura vacinal e registros de deslocamento humano extraídos de telefones celulares?

O contexto merece explicação. O Paquistão é um país de mais de 185 milhões de pessoas, com altas taxas de natalidade e, digamos, cobertura vacinal um tanto heterogênea. Islamabad, a capital, registrava coberturas de vacinação perto de 90% na população urbana. Baluchistão, uma província predominantemente rural no oeste do país, às vezes não chegava a 50% nas áreas rurais. E sarampo não é do tipo que respeita essa variação sem aproveitar as brechas. A doença tem um dos maiores índices de reprodução básica já calculados, com estimativas de R0 em torno de 15, o que quer dizer que, numa população sem imunidade, cada infectado passa o vírus para quinze pessoas. Para eliminar o sarampo de uma população, é preciso que algo entre 92% e 95% das pessoas sejam imunes. Qualquer coisa abaixo disso, e o vírus encontra espaço para circular.

Entra aqui o problema clássico dos surtos em populações parcialmente vacinadas: o chamado “período de lua de mel”. Quando a vacinação avança mas não chega a cobrir todo mundo, a incidência da doença cai drasticamente. Menos crianças ficam doentes. Os pais, que não viram a doença por anos, passam a se perguntar se a vacina é mesmo necessária. O vírus, ao contrário, não esquece. Continua existindo, continua circulando em bolsões de susceptíveis. E, enquanto isso, as crianças não vacinadas vão crescendo, acumulando-se silenciosamente como combustível para um incêndio que a ausência de faísca tem adiado. Quando a faísca aparece, em geral trazida por alguém que viajou de outro lugar, o estrago é proporcional ao tempo de espera. Foi exatamente isso que aconteceu no Paquistão em 2012.

Metcalf e seu pessoal analisaram os registros de chamadas de aproximadamente 40 milhões de assinantes durante sete meses de 2013. Sem nomes, sem identidades, sem saber que Abdul foi ao mercado e que Fátima visitou a sogra: apenas torres, timestamps e deslocamentos. A privacidade de cada pessoa foi diluída no anonimato estatístico, o que não devolve a privacidade, mas ao menos transforma o devassamento em algo útil. Os dados mostravam que a maior parte do movimento ocorria ao longo de um corredor sudoeste-nordeste entre as províncias de Sindh e Punjab, seguindo a rodovia nacional. Simples, intuitivo, e extraordinariamente revelador para quem quer entender como uma doença viaja.

A equipe combinou esses dados de mobilidade com estimativas de susceptibilidade populacional, calculadas a partir dos históricos de cobertura vacinal por distrito, e tentou prever a sequência de chegada do surto. Comparou três abordagens: conectividade uniforme (todo mundo se move igualmente, uma hipótese ingênua mas útil como base), o modelo gravitacional (uma fórmula que estima movimentos populacionais com base em tamanho das cidades e distâncias, herdeira intelectual da física newtoniana aplicada a pessoas) e os dados reais de celular.

modelo gravitacional teve desempenho modesto. Os dados de celular foram claramente superiores, com correlação mediana de 0,35 entre o timing previsto e o observado dos surtos, contra praticamente zero do modelo uniforme. Não é um número que permite prever o futuro com precisão cirúrgica, mas é muito melhor do que chutar, e em saúde pública a diferença entre chutar e ter uma estimativa razoável pode ser medida em vidas.

Os pesquisadores mostraram que, usando esses dados combinados, seria possível prever corretamente mais da metade dos distritos onde surtos ocorreriam nos próximos quatro meses, e cerca de 20% nos próximos seis meses. Isso pode parecer pouco, mas considere o contexto: uma campanha de vacinação reativa precisa de pelo menos dois meses para ser organizada. Saber com alguma antecedência quais distritos estão em risco de eclosão permite direcionar recursos antes que o fogo se alastre, em vez de ficar apagando incêndio com mangueira furada.

O estudo foi honesto sobre as limitações: os dados de celular cobriram apenas sete meses, não capturaram variações sazonais completas, e a operadora analisada detinha cerca de 25% do mercado, o que cria vieses. Além disso, havia o problema da fronteira com o Afeganistão, onde a cobertura vacinal girava em torno de 60% em 2013, representando uma fonte contínua de reintrodução que nenhum modelo de mobilidade interna consegue capturar completamente.

Mas o mais interessante aqui talvez não seja nem a epidemiologia em si, mas o que o estudo revela sobre a relação entre privacidade, dados e saúde pública. Os 40 milhões de assinantes cuja movimentação foi analisada nunca foram consultados sobre isso. Provavelmente nem sabem que seus registros de chamadas ajudaram a construir um modelo epidemiológico publicado em periódico científico de alto impacto. A Telenor cedeu os dados, os pesquisadores os anonimizaram e, no fim, o exercício produziu algo potencialmente útil para salvar crianças.

É uma espécie de sequestro benevolente dos rastros digitais, um desvio de finalidade que, neste caso específico, funciona a favor das pessoas que foram monitoradas sem saber. Não que isso resolva a questão ética de fundo: a ausência de consentimento continua sendo o que é. Mas é difícil olhar para esses dados e não pensar que há algo profundamente paradoxal no fato de que a mesma infraestrutura que serve para vender anúncios pode, com as perguntas certas, ajudar a evitar que uma criança morra com febre alta e manchas pelo corpo por falta de uma vacina barata e eficaz que existe desde 1963.

Talvez a lição mais duradoura da pesquisa seja essa: os dados já estão lá. Eles existem, são coletados, são armazenados. A questão não é mais se alguém tem acesso às informações sobre onde você vai, mas o que se faz com elas. E se, vez ou outra, o uso for prever uma epidemia antes que ela enterre trinta mil crianças, talvez valha a pena pelo menos reconhecer que a vigilância silenciosa pode, circunstancialmente, funcionar a nosso favor. Mesmo sem ter pedido permissão.

A pesquisa foi publicada no Cambridge University Press, via Folha de S.Paulo, que por sinal…

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